segunda-feira, 14 de março de 2022

A ficar no tom do Tom

Por Ronaldo Faria

“As águas desse rio, para onde vão? Eu não sei.” (Tom Jobim)

No barco que rema contra a maré, o homem vai na fé. Rema a rima, remador. Seja na sequência do nada ou na finitude da dor. Lá no fim da estrada, do lado do porto, tanto faz a felicidade ou a finitude do estupor. Tudo é excrecência no fim.

Na mulher que espera seu amado na noite diuturna de cada dia, um samba-canção. Um desejo intrínseco e lânguido e manso – um canto calado à vida a florescer em flor. Minueto intocável no mais fundo desejo esquecido no ultimato do clímax da solidão.

Na escolha da escola, a Estação Primeira que, por sinal, se chama Mangueira. Que faz versos e paródias, prosódias de ilusão num caminho que separa a vida da canção. Em versos de Cartola, Nelson Sargento, Carlos Cachaça, desce o morro para a história chegar. 

No sentimento do pranto que desce entre lágrimas, verte o coração em finita chama. Mas faz-se criança e errante. Alcoólatra e garoto dos anos 50, semente de um ser errante, desconexo do mundo futuro, a brigar na paródia de sê-lo enfim.

No poeta do adeus, sem respostas, canções, sem Deus. Sem crer em nada, a rir dos idiotas que profetizam mundos novos, ideias novas, óvulos em fecundação. A simplesmente, de forma uniforme, passar minutos unos e únicos a sorver seu eu – ou você e eu.

No milimétrico teclar entre o ritmo do dedo e o ar, há o que já foi bater nas teclas de uma máquina mecânica em barulho enlouquecedor, como o arrancar de acordes em sustenidos perdidos numa partitura qualquer. No fim, tudo é pouco ou,  senão, o mais ínfimo ponto na eternidade de ser.

“Meu tempo é quando” (Vinicius de Moraes)

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