quinta-feira, 14 de setembro de 2023

Parangolé com Lucy Alves

Por Ronaldo Faria


-- Eita, homi, que eu já tive bem melhor do que isso. Senão, igual tal e qual, arretada, com certeza. Mas foram noutros tempos. Eu era formoso de tudo, dentes todos na boca, capaz de virar a noite e a madrugada com um eclipse no meio. Tudo no fervo. E com umas garrafas vazias na mesa cheia de mil rodeios numa arena de quatro paredes com uma cama no meio.

-- É verdade, Marfino? Ocê tem a fama de prosear além da boca... Inventa umas invenções da sua cabeça e sabe-se lá o que vai dizer. Melhor do que aquela lá, duvido com dê, um ó e dó.

-- Sinfrônio, e tu já me viu mentindo e inventando de alguma coisa coisada ou espremida que saiu aqui de dentro? Pelo amor da minha égua Celebridade, é verdade! Das verdadeiras! Dessas que não tem rendeira que costure ou lavadeira que lave. Por isso que é ruim você não me acompanhar direto. Perde as coisas que só os meus olhos enxergam.

-- Sei não. Ocê delira demais. Depois de umas três ou quatro pingas dá de ver jabuti voando e cobra soltando maranhão. Vai ver essa galega não era isso tudo que teus olhos viram. No máximo, uma dessas comum que a gente cansa de esbarrar na feira de domingo.

-- Pois aí a égua caiu do galho. Ela era linda além da lindeza que Deus deu e fez. Pequenina, com as pernas lisas, uns peitos arretado de duro e olhos de um verde que nem o mar tem. O cabelo, esse então nem dá pra falar. Era um voar danado mesmo quando não tinha nem brisa no ar. E preto. Preto de um pretume que nem se a luz morresse de vez na Terra teria igual. E a boca: vermelha de sangue com uns dentes brancos de marfim dentro e uma língua que lambia até o sabor mais profundo da garganta.

-- Eita, mas aí já me deixou maluco. Uma dessas não é só pra ver. É pra agarrar e nunca mais deixar ir. E ocê deu de perder ela, Marfino? Isso é questão de prisão pro resto da vida no fundo do inferno mais quente e amofinado que exista!

-- Pois é. Concordo. Com corda e cerol pra cortar a emoção mais forte. É como pegar um carro dos bons e quebrar no poste. Mas não foi culpa minha não. Na verdade, tive que deixar ela ir.

-- Como assim?

-- Sabe, Sinfrônio, tem coisas que a vida manda e coisas que quem manda é o destino ou a dor sem fim. No meu caso, acho que foram as duas. Sabe quando a lua sombreia o pé de mandacaru e o reflexo, frouxo, não bate nem na pedra que o gado pisou? E não tem vagalume ou coruja que estejam por lá. Pois é. Tudo que era alumiado, desalumiou. O que era passo dado, o passo desandou. No lugar do sorriso amarelado, lágrima desaguou. E não tinha muito mesmo o que fazer. Tem coisa que é pra nós, mas tem coisas que é um tanto de nós que não dá pra desatar. No caso contado como causo, essa foi a certeza: faltou semente pra plantar e fazer a vida brotar.

-- É, que tristeza mais tristonha e medonha. Às vezes o melhor é não ver mesmo o que os olhos aprumam. Mas, liga não. O que a vida não dá liga não é pra dar solução...

Sinfrônio levanta a mão e chama o dono da birosca, Manoel Português do Beirão.

-- Seu Beirão, traz mais duas pingas e outro litrão. Hoje o Marfino resolveu se escangalhar. E nessas horas é que amigo do ombro grande tem que o ombro aumentar! Coloca querosene no gerador e põe na vitrola um forró da pega que o bicho vai pegar!

No horizonte logo ali defronte, sob a luz do lampião e a bênção do candeeiro, a morena rebola na trilha de pó a enlouquecer outro homem que espera a amada sem dó.

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