quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

Os Cariocas no calor

 Por Ronaldo Faria


Calor intumescido e jogado ao léu nos lençóis que mil sóis queimaram e suaram em corpos despidos de propósitos e ódios. Da janela vem um cheiro de mar e o barulho de pombas que, em arrulhos, namoram para novas pombas se aconchegarem em fios e árvores com o alvo certo nas cabeças dos transeuntes suados do inferno da estação tórrida chegado.
Enquanto mulheres de biquínis minúsculos e homens com seus frágeis músculos desfilam na avenida do litoral, o casal se aconchega no chuveiro que brinca de jorrar água fria com um vapor de dar dor. E mãos e lábios se percorrem e correm nos corpos lânguidos e lambidas que, úmidos, contrastam com os mil graus além que vêm invadir a cena do lado de fora.
Nos raios que chegam com luz própria, a imprópria mansidão que os impropérios de quem tem de vender chá mate e biscoito Globo na areia que ferve e serve de bolhas a sangrar pés e ilusões. Talvez em algum lugar haja um cantinho onde o tantinho de sombra seja sobremaneira rasteira que deixe os amores sem cheiros e odores de pingos num lavar sem dor.
Do ar-condicionado, aloprado por ter de mudar tanto clima que na China não lhe ensinaram a fazer, vem uma brisa fresca a brotar no quadrilátero que a arquitetura do amor dá. Nos morros que se dobram ao mar, um samba e cervejas serpenteiam em si, sós. No subúrbio, esse distúrbio que nem psiquiatra cura, a solução é morrer para a alma enfim respirar.
 
II
 
O poeta, ambidestro na magia de se enganar, sorve mais um gole e lembra que o Samba de uma nota só foi a única música dedilhada no violão na esperança de conquistar a morena que, no clássico musical, se fazia magia no entardecer do Leblon... Ao menino que desabrochava, ao menos imitar o Chico Buarque e Nelson Gonçalves na voz já estava de bom tom.


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