terça-feira, 2 de abril de 2024

No repertório do oratório com Vinicius de Moraes

 Por Ronaldo Faria
 
O canário silencia um tempo e volta logo depois, no após procrastinado de metáforas e mil profanas e insanas poesias. Como um apóstata de si mesmo, se posta prostrado na madrugada. As cantatas que foram cantadas em pios solitários nesse interregno ficarão para a temporalidade que só a saudade dá. Embriagadas e tragadas de goles e visões impregnadas de viver a si mesmo, mesmo que a esmo, serão um capítulo perpétuo de uma vida que logo será esquecida, carcomida e que irá virar cinzas antes de comida de seres internos em sobrevida da morte inaudita.
Essa era a cena que Epaminondas, no seu recolher temporal, sem aval de si mesmo, via de forma estrábica e míope. Com uma catarata a querer escorrer de seus olhos, já que rios de lágrimas descem até de programa de culinária ou séries policiais, ele revolvia ruas e esquinas, muitas das quais já bateu o joelho ou a cabeça numa quina. Sem fio ou pavio, pavão sem cauda, caminhava na contramão para ver de frente a fronte daquela que o deixou. Senão, era só para parecer o ponteiro de um relógio que decide paralisar e mudar de rumo e prumo.
Catatônico, atônito e afônico, Epaminondas há tempos não tinha verborragia. Nostalgia? Muita. Lombalgia? Várias. Assimetria? Total. Sabedor do esquecimento do tempo, fatídica realidade banal e trivial, andava para o beleléu. Como fosse do mel o fel. Mas, sonhador e poeta romântico e parnasiano, nas parábolas próprias, sofismas e solilóquios, vai passo depois de passo e passada no passado a andar e voltar. No silêncio que a música dá, absorto e abstrato no trato, ele vê apenas que amigo já não há. Mas, como diz o poeta, tudo um dia chega ao fim. No bar, onde o cheiro de cerveja enseja outra bebedeira, a mesa vazia o chama a chegar e se achegar, se aconchegar.
-- Garçom, desce várias. E vou pagar adiantado, porque que tem dinheiro é pra esbanjar e se mostrar!
No som da caixa do boteco, por acaso, toca Vinicius de Moraes. “Caralho, é isso que o poetinha dizia ser algo a mais?” Logo perto uma “profissional do sexo” levanta a saia que já estava bem além do joelho. Sacana, um pernilongo, ou será um percevejo, pica Epaminondas. Na dor do sugar de sangue, ele não vê a chance da sua solidão terminar. Do caixa, o português diz que a conta já passou de duzentos reais...




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