terça-feira, 19 de novembro de 2024

A florir as flores mortas

 Por Ronaldo Faria

 

Vida, essa ávida redenção de trajetos e trovas mal escritos, contritos e limítrofes entre o prazer e a dor. Ao menos era isso que pensava Ana Catarina. Na sua retina, esverdeada e turva, a vida passa em dias apocalípticos e lúgubres. E em cada um deles se transforma em palavra inglória que surge na página em branco e se enche de letras e sílabas negras. Talvez um poema à espera do fonema perdido nalgum lugar da noite em surdina. Senão, mera criação inebriante que sai do coração infante daquele que espera a quimera da felicidade sem saudade.
Num bairro próximo, entre a mesa do bar e monóxido de carbono, Artur Castro, casto em seu desejo de ser poeta, vê o tempo passar. Sem passaporte diplomático ou primeira classe, ele é somente miragem na vida. Mas não desiste de poder singrar longas marés em galés cheias de rum, marujos a buscarem tesouros nas pernas das mulheres de cada porto, um capitão cego e com ambas as pernas de pau a gritar contra a retidão do mar. Na certidão de nascimento, feita após  o tormento de um parir a fórceps, o sentido inato da exagerada dose de solidão.
Entre os dois, a dor junta louvor e torpor. Na desdita certeza de se viver, o destino corre como Quasimodo, torto e devagar, a tragar sorrisos, carinhos curvilíneos, beijos de línguas desencontradas e atadas no forjar. Ana e Artur, dois seres ungidos e carcomidos no seguir de meses feito reses no pasto, vão no vasto seguir a rodar ciranda no terreiro. Como colibris sugam o mel das flores que sobreviveram ao cheiro da vida e se se tornam incólumes vozes no lumiar do verão. Arautos do amor se tornam a gota que vem com as ondas do mar.
A ouvir e ver tudo, o grilo atônito com o fim das árvores e afônico sem poder sequer cantar em voz grilar, se prende no vidro talvez para dizer que a sorte ainda virá. Quem sabe Artur e Ana não se cruzarão numa esquina finda, dessas que surgem no ápice da história... Ou talvez apenas tenha passado de passagem feito miragem letárgica e pragmática para servir de fotografia fria e literal. Ao casal, marginal e fetal, a folia da foda passada, a cansada marginália, a inóspita hóstia que o bispo do juntar nega àqueles que descobrem ser seu próprio mundo. Tudo junto e misturado.
Mas como tudo que o sentido do sensitivo vê ou crê que enxerga, na cega lâmina da felicidade, os segundos seguem sem sentido. Assim, Ana e Artur, como grão de areia que tem cheiro de água e mar, vão a seguir os limites que se transbordam de corpo e alma, farpas de fálicas vidas. Em dado momento da história, porém, vão à janela e enxergam a rua logo abaixo feito astro que orbita em torno dos prédios e do tédio. Sem saber, dão adeus de narciso à vida. No etéreo, suas almas rompem os corpos e se encontram tântricas no rarefeito luar da quimera. E aí a paz do sublimar se faz tela à pintura em aquarela.

Um coletânea feita há 54 anos

  Por Edmilson Siqueira Em 1972, ou seja, há 54 anos, Sergio Mendes já tinha sucessos suficientes para produzir uma coletânea. Ela foi lança...