terça-feira, 10 de junho de 2025

No papagaio ouvinte

 Por Ronaldo Faria


O papagaio, pragmático e dependurado no seu poleiro, só ouvia a música que saía da vitrola na voz de Maysa. O ano, perdido entre os 50 e 60 do século passado, passava entre Fords antigos que ostentavam bigodes, homens de chapéus e mulheres que pouco deixavam seus joelhos aparecerem na subida dos bondes. Mas, para o papagaio de penugens quiçá já chinesas, tudo era um relicário a se viver. Nas efemérides da vida, passageiras feito a própria vida, ele sequer sabia separar os rostos dos meros mortais que passavam pelo corredor do casario. Postado e prostrado no teto, ao menos conseguia enxergar as tetas de Abigail, matrona que se exibia nas noites de amor e luar. O papagaio, sem nome e que não conseguia repetir coisas ouvidas pela casa e a vida, por sequer ter cordas vocais, apenas ficava ali, a balançar num ou noutro vento que se fizesse bater. E quanto e tanto poderia falar... Silencioso e cioso de seu lugar na decoração, porém, ficava lá, nas blasfêmias, infâmias e mentiras de uma oração.
Papagaio vindo de algum lugar que nem aqueles que catam seus restos no passado sabem crer, ele apenas ostenta as cores de um paraíso bucólico e melancólico onde a paz se ostenta e se sustenta na imensidão de olhares, entrelaços e acasos no ocaso da vida. Certamente ele não verá árvores e seus galhos partidos de folhas, flores e frutos. Fortuito, talvez um dia seja jogado no lixo e termine num local cercado de outros tantos itens descartáveis dos seus donos, rotundos e redondos corpos a se espreguiçarem em cadeiras ou sofás. Lá, se bater a luz do sol e der sorte de ser descartado no final do caminhão de coleta, por fim verá o céu azul, um ou outro urubu a voar e aquilo que o mundo fora das paredes esconde no semear. E se mais sorte der, quem sabe uma papagaia que fale mandarim não caia ao seu lado. Sem poder bater as asas, ambos, entretanto, num tanto que é morrer, poderão ciscar pedaços de sensações mil. Talvez, quem sabe e quiçá, ouvirão as vozes de seus antigos donos e, enfim, saberão que o dono de cada um de nós é a mera quimera da ilusão.
 
(Ao som da eterna e terna Maysa)

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