terça-feira, 22 de março de 2022

Na espera do fim da espera que vai chegar (a ouvir Wando, no dia da sua morte)

Por Ronaldo Faria

No salão, a mulher fuma quieta num canto, a beber um drinque qualquer. Enfia o dedo no copo, roda o gelo e o leva à boca num gesto onde a língua chupa as gotas que caem sem querer. Ao seu redor, um ou outro casal rodeia de lá para cá, troca carícias, sevícias, sorrisos, mãos leves e bobas, toscas declarações de amor e lábios cruzados a se lamberem e arderem a cada mordida mais forte do amado. Mas, lá no canto, a ouvir o cantar trôpego de um artista de bolero, a mulher desvia os olhares dos homens que se entreolham nas pernas lisas, sobem até os seios e param no meio para acariciarem o umbigo farto. E se envolvem nos cabelos longos e terminam na nuca que se torna carne e desejo, com gosto de sal.

Ela, mulher de tantos loucos a querê-la, apenas catando quirelas jogadas pelo chão do salão no seu andar que requebra ancas e curvas pela madrugada. Seu vestido, vermelho, contrasta com o batom que risca a boca na mesma cor. Seus olhos verdes brilham mais do que o néon que pisca lá fora. Sua risada escancarada, largada, dissonante entre as quatro paredes, é como se chamasse a cada um que a deseja à fria realidade de querer o intocável. Naquele dia, ela não seria de ninguém. Nem no escuro que escondia a lua na penumbra e nem quando o sol viesse clarear a embriaguez do andarilho perdido na sarjeta abjeta que agora o abraça e aquece. 

Naquele dia, sem calcinha, ela estava a viver cada momento como se este fosse apenas um louco tempo em que amantes não se tocam mais, não suam juntos, não se encontram entre camas e janelas abertas à vida, a ouvirem o silêncio que apenas o gemido do prazer e o suspiro do depois conseguem expressar. A mulher-objeto se metabolizava numa metamorfose e, feito borboleta, voava a ver-se finalmente na eterna e última canção. 

                                                   II

Entre o céu e a terra há quimera. Há campos com verde e rios de água clara e cristalina. Há Maria e há Cristina. Gente para dar de tombo. No Nordeste tem pitomba. Existe cavalo que corre louco e sem rédeas. Há goleiro que busca o fim da carreira nas redes. Tem vontade de beber e sede. Garganta seca. Secura no sertão. Existe a cerca que prende gado e gente. No alto do Brasil, tem quem diga “atente”. Ouve-se sanfona e fala-se de Intentona. Intenções de beijos e mãos a correrem a pele que desliza sobre mim. Há o começo e o fim. O luar que pulsa no alto escuro e a escuridão eterna que se abate quando o corpo da gente deixa de ver a prata celestial. Há ternura de gesto. Mansidão em presto. Ódio e verso. Incomunicável voz sobre o fazer ou não. A mulher amada a andar pelas areias que brincam de ondas a lavarem os pés. Uma infinidade de Amélias. Uma pancada de Zés. E assim, a colocar fim no espaço, tem uma estrada a se dobrar lá na frente. E uma coruja vesga a piar em fé. O adeus de um até...

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