quarta-feira, 9 de novembro de 2022

Ouvindo o Zé Ramalho

 Por Ronaldo Faria

Saudade. Maldade. Perversidade. Lá no fundo, a cidade. Distante, conflitante, mistério na vida e na dor atenuante. Entre eu e o meu eu mesmo, a fábula que, em inglês, diz siga-me. Follow me...

E eu vou seguindo. Na trilha que escurece e brilha. Percorre ruelas cheias de pó e pedras, pedaços de histórias, histriônicas e esotéricas. Histéricas. Reais. Que delimitam a lucidez e a loucura. Marcam e perfuram, aprofundam o limite entre a descoberta e a cura. Nos deixam entre a vida e a eternidade que não verá a manhã, nem a noite e sequer a tarde. Nada nos fará dormir sem pesadelos bisonhos, pedaços de sonhos, a chegar a nenhum lugar.

Por aqui, entre uma tela que brilha e uma ilusória cerca que sangra, fico travestido de saudade, um ser sem poder. Sem corpo, copo, cópula, estrada para Cornucópia. Alguém entre o dedo mínimo e a língua na outra boca. Carcomido por si mesmo, caminhando longe do açude, do rio, do litoral. Submerso entre a embriaguez e a madrugada que aflora em sofreguidão irracional.

No copo, vodca e coca. Inconsequente e vulgar. Sob a lua minguante, entre esquinas, prostitutas e mulheres, sinas, seres lunares à senda de trilhar. Corpos desnudos, palavras vãs, vaginas. Coração perdido e anginas. Ladeiras de paralelepípedos, descidas de areias e sereias a beirar um canto escondido e o cântico do mar. Mistério escondido a arfar.

Aqui na frente, lá de lado, acolá, mais um descarregar de líquido alucinógeno, misturar de preceitos e trejeitos, desejo de servir e sorver loucuras e pernas de mulheres transformadas em mesuras, medusas e semideusas. Logo, "Deus", me dá ao menos em devaneios aquela que eu quero antes da fuga que chega depois do derradeiro vendaval. Livra-me de morrer antes que eu descubra se há em mim amor ou mal. Que seja eu a ligação perdida entre os filhos, o avô e o pai.

Agora, entre a liberdade que se faz e se desfaz na inusitada chegada que se encerra (à antiga) na esquina onde aporta a escuna que me leva ao universo entre o início e o fim, digo-me corpo inútil, fútil, a verter limites do que eu quero e aquilo que me é dado, por fim. Na perfídia desmedida e infinda, despeço-me aqui. Afinal, sem saber, acho que já passou o meu Carnaval.

“Sejam quais forem os sentimentos e os interesses humanos, o intelecto é, também ele, uma força. Esta não consegue prevalecer imediatamente, mas por fim seus efeitos revelam-se ainda mais peremptórios. A verdade que mais fere acaba sempre por ser notada e por se impor, assim que os interesses que lesa e as emoções que suscita tenham esgotado a sua virulência”.
Sigmund Freud, in As Palavras de Freud

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