sexta-feira, 17 de novembro de 2023

Deoclécio no césio da vida

 Por Ronaldo Faria


Deoclécio acordou todo feliz. Esqueceu do ensinamento do mestre Moreira da Silva e pensou ter acertado no milhar. “Agora deu. Não tinha como não dar. Chega de pobreza! Zelinda, pode ir na 25 de Março encher a sacola! Ganhei dez vezes mais do que apostei! Se dei bem!”
Eufórico, crente de tudo, meio demente pelo porre recente, tinha a certeza plena de que sua hora enfim tinha chegado. “Zelinda, hoje eu quero picanha e cerveja de litrão! Nada de asa de galinha e Samba. Vamos ao bar do Camundongo Molhado e fechar a pendura. Agora é só na fatura.”
No seu mundo pouco afeito aos números e afazeres do anotador que molha a mão de quem manda e cobra de quem joga, saiu para a rua todo feliz e cuidadoso com o papel carimbado da PT e da Coruja, da milhar e da centena, pegou o ônibus com passe de idoso, do seu avô Cardoso, e desceu no ponto central. Deu tchauzinho para a moça de boa idade que rodava bolsa na esquina, saudou o homem que dormia sob a marquise e sorriu ao malandro que andava armado, com o berro escondido.
De peito cheio de orgulho, além de oxigênio com gás carbônico que vinha do lado de fora do esgoto que corria a céu descoberto, aberto e sem afeto, parou na frente do Mão sem Braço, chefe do pedaço, e disse resoluto de antes do luto: “Vim dar preju pra você”. Orgulhoso, tirou o papel do bolso e mostrou. “Pode ser em nota alta. Chega de merreca no bagulho”. Perto, um pombo em arrulho voa.
-- Tu tá doido, Zé Ruela? Papo reto, isso aqui foi de anteontem. Hoje deu foi jacaré na cabeça. O burro já passou de ilusão.
Se Deoclécio ainda tivesse coração sobrando no momento, teria morrido na hora. Olhou direito o papel, correu para o poste mais perto e lembrou que sexta-feira já tinha ido. Usou de novo o cartão do avô, seguiu cabisbaixo pro barraco, nem via a paisagem de trilho de trem e casa sem reboco. Ao chegar, ouviu um barulho nos fundos, do lado do córrego seco, e lá estava Zelinda, com um churrasco completo e repleto na mesa, barril de chope às pampas e os vizinhos a gritarem que Deoclécio era o Jesus do presépio. Feliz, o português do Camundongo Molhado segurava um camalhaço de dívidas mil.
 
(Ao Bezerra da Silva)


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