quinta-feira, 17 de novembro de 2022

Tom Jobim ou a primeira depois dos 55

 Por Ronaldo Faria

Tom em tons de amarelo que se perdem pelo céu azul e invadem o escuro da redação em caixote branco. Tom de um Jobim carioca que se esgueira em cada nota acústica e reverbera no silêncio calado de ideias em profusão meteórica. No meio de tudo, a metamorfose em que nos transformamos de criadores em simples criaturas. Pequenas máquinas a pararem no tempo que corre lá fora num eufemismo lúdico. A poesia fica estática e fora de questão. Nas entrelinhas, saudade da vida, da areia quente, das ondas, do mais grato e incrédulo coração.

Do tempo de subúrbio entre as ruas do Méier e a métrica divisória de bairros entre as zonas Norte e Sul. Entre o cinza e o azul. Do tempo de ladeiras, eiras e beiras a beirarem os berros dados na noite, açoites de um corpo no outro, línguas entrecortadas de lábios, afagos ofegantes num Opala que corre no escuro de avenidas e vidas retintas de fim.

Tempo do Tom, de cubas libres e gins com tônica. E Cuba não era tão livre e nem o gim se fazia a tônica da cena. Para ambos, cacofonia de palavras repetidas e ditas, ceifadas de separações e dores latentes, odores de creolina no ar e telefonemas inauditos a tocar. Tudo com verso ou nota ao piano. Como gelo que derrete no copo e, translúcido, viaja ao cérebro para a brincadeira de mais Luizas e Marias, Gabrielas e Anas, curvas em carne e portos de pele. Lá fora, a aurora de uma Primavera se desfaz devagar. No céu, o Sol se prepara para vagar entre a escuridão e o desejo de ser apenas ensejo numa cama qualquer.

Afora o mundo, o aforismo repetitivo se deixa de luz e negror. A eterna transição entre o olhar disperso e a pressa da noite chegar. Num canto qualquer, homem e mulher se preparam para amar. Vestem-se de nudez e dão ao outro corpo algo muito além da cópula final. Haverá festa de copos, suores a escorrerem numa só gota, canções a saírem de um canto qualquer como canto único e uníssono a embalar a dança de dois em um.

Daqui, a ouvir Tom entoar versos e notas, anoto apenas que lá fora há vida a seguir sua transitória existência que roda no eixo mágico. Aqui, a criação que a nada leva e remói saudades e sons, gatos pardos numa lagoa de São Sebastião do Rio de Janeiro. E o tempo, onde há vida a fluir, fora deste caixote, passa único e igual, multiforme e desigual, passageiro e causal. E a dor no piano esbarra em cada tecla a esperar o tom derradeiro chegar. Lá, muito longe, ainda há o cheiro, o gosto e até a quentura de um mar.

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