sexta-feira, 6 de junho de 2025

O garfo, a faca e a natureza

 Por Ronaldo Faria



-- Garfo, tem certeza de que você quer catar a comida desse prato?
-- Que pergunta, faca. Claro que sim. Senão, você cortou pra quê?
-- Essa é a minha função.
-- Portanto, faço igual. É a minha também.
-- Então somos tão somente duas criaturas com funções predestinadas a cumprimos nessa vida? E mais nada...
-- Creio que sim. Um corta e o outro cata o que tiver de catar do cortado.
-- Mas, que merda! E se eu quiser entrar na boca das pessoas depois de separar pedaços de qualquer coisa juntada?
-- Como assim? Quer subverter o que já está predestinado? Por acaso és comunista? Lembre que fomos feitos num regime democrático!
-- Feitos por operários mal remunerados e entregues às periferias da vida?
-- Não estamos aqui para fazermos doutorado em sociologia. Nossa função é alimentar.
-- Eu sei, mas não posso ao menos delirar? Existir só para serrar é foda!
-- Então tivesse pedido para nascer colher. Dá um tempo!
-- Cruzes, que bravinho. Você ao menos toca línguas, bate em dentes, vê a garganta, sente o calor de bocas e se sorve da saliva.
-- E encontro dentes estragados, mau cheiro e pessoas que engolem direto. Ou seja, mal posso curtir minha função.
-- Tudo bem, seu sofredor de alumínio. Vê se então fica de boa agora que o cliente sentou-se à mesa.
-- Cruz em credo, um outro daqueles que vêm aqui para encontrar a paz. Vai cantar, beber pra caralho e comer devagar. Quer dizer, banho com detergente, sabe-se lá quando vai rolar. Se der merda, nem voltamos aqui para o jantar.
-- Caguei. Não aguento mais serrar...
-- Por acaso você está menstruada por cortar carne mal passada?
-- Vai tomar no seu cu e se foder!
Acima, as árvores que cobrem o restaurante na beira do rio balançam suas folhas que riem do bate-papo dos dois. Feliz e quase zen, o turista fotografa a cena. Mas, surdo ao redor, não ouve o garfo e faca dizendo que nunca mais irão trepar. O momento, sem lamentos, é de delirar e curtir o paraíso que, raras vezes, o mundo dá.
 
(Ao som ainda de Ângela Ro Ro e de um almoço solitário em Caraíva)

Um coletânea feita há 54 anos

  Por Edmilson Siqueira Em 1972, ou seja, há 54 anos, Sergio Mendes já tinha sucessos suficientes para produzir uma coletânea. Ela foi lança...