quinta-feira, 19 de maio de 2022

Ao Mário Adnet

Por Ronaldo Faria


Ouvindo Mário Adnet, bateu (para variar) saudades do Rio de Janeiro (e tantos e outros tantos meses). Bebendo Smirnoff Caipiroska (é horrível, mas vicia - juro nunca mais comprar), lembro-me das dores do ciático, para lá de dolorosas hoje pela manhã, que eu troquei por umas doses nesta noite/madrugada ao invés de um Voltaren. Preciso transformar as minhas hérnias de disco em um CD de Bossa-Nova. Com luzes trocadas por lâmpadas fluorescentes (no tom azul), tudo parece mais incerto e perverso (na finitude blasfêmica da interinidade metafísica da vida).

Mas seja o que “Deus” quiser, principalmente depois de editar 40 mil mortos sob tremores e dores paquistanesas, onde para os mortos nem há mesas. E fica uma pergunta: como terá sido a morte de cada um? Que terão pensado no último suspiro? Terão tido, aos milhares, o último suspiro?

Inspiração é a ação transfixa ao quadrado da imaginação e da inanição. Vem e volta, vem e vai, desvirgina e vaticina. É o que é. E se basta. Vasta, lembra que o homem rimou no ônibus o que um atônito passageiro não poderia repetir. Aliás, em casa, nem sabe direito o que ele disse ou diz. Nem lembra da prosa airosa ou da poesia para uma meretriz. A letargia das letras o faz simplesmente um eterno aprendiz. Pena que deixe fugir, tal qual um peixe em verniz, letras e sonhos, num esmeril que não solta limalhas (vida aos canalhas). No máximo, uma e também outras falhas. Lá fora, o azul do dia virou um incandescente negror, refletido em néons e tons de asfalto. Quem sabe, numa esquina, um assalto. No costado, o vaso de planta que não dá flor. Vai meu último cigarro. Amanhã, quem sabe, pigarro. Na música, a pergunta: “Cadê Mimi?”

Transpiração é a vazão performática e asmática da insensível solidão. Fica e sai, vomita e cai, faz-se graça e gracejos, bocejos talvez. No CD, tempo do Tom vivo. Tempo bom, em Jobim. Praguejo e ciúmes em segredo. Do corpo, o degredo. Da graça, a desgraça do ensejo. Da saudade, a vermífuga palidez de quem caiu sobre a mesmice inexistente de uma segunda sem feira. Pura asneira. Sordidez e verso transverso e maléfico. Quisera todos os malefícios do mundo fossem o toque de um teclado louco e rouco. Quisera as almas subissem feito fumaça cinza e cheirosa, com cheiro de Índia lutando contra uma fronteira cheia de tremores tectônicos e afônicos, pedindo para ficar um pouco mais sobre a terra miserável de um país fugaz. Mas qual, a Terra não dá lar ou paz. No máximo vários ais...

Reação é como canção simbiôntica na busca ínfima da sua própria ótica, no afã que apraz. Sobe e desce, geme e desvanece, cria impropérios na ilusão solerte e solta um jorro de gozo e esperma entre mãos, bocas e vãos por onde possa escorrer. E quanto universo, e tantas mulheres morenas e tântricas, e porventura, na aventura da vida, lembranças brandas de uma infinidade de barcos parados no mesmo cais. E assim continuamos: contínuos de nós mesmos, calejados de prósperos impropérios e prosopopeias, certos de que apenas vale o prazer.

No final, não haverá muito que fazer ou ater. No máximo, em plena madrugada, aquiescer. Talvez um pedaço do universo. Talvez a certeza de ser um ser pequenino e perplexo, olhando para o próprio plexo. Meio perdido, um tanto esquecido e outro tanto, feito a mais cândida criança, apenas querendo ser querido no espaço partido. Ficam aqui o sinhô e o próprio umbigo. Alguém aí tem um fogo ou um figo?

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