terça-feira, 6 de setembro de 2022

A ouvir Billie Holiday

 Por Ronaldo Faria

Vem cá e dança comigo. Aceita essa contradança? Chega junto. Deixa eu grudar meus dedos nos teus seios. Me faz lamber cada pedaço de você. À rosa louca, me enlouquece entre cheiros, desterros e pedaços de carne. Me arrasta feito arraia numa rede que a levará a fritos e tons pastéis. Sou, tu és, seremos um mesmo nos mais decadentes bordéis. Entredentes, nos comeremos enlouquecidos e aquecidos, esquecidos de um tanto de nada e outro do destino explícito. No istmo, estaremos equidistantes e solícitos: “Sim, por favor, a senhorita me daria a honra desta dança?” A resposta de quase certa e incerta: “Com certeza, rodarei em mim feito pião e criança”.

Venha aqui e se faça travestir de coisa qualquer. Apenas mulher. E seja o que der e vier. O amor verdadeiro come-se com colher. Em cada canto do prato, raspo o tacho. Viro homem e escracho. Cadarço sem amarrar e introito de partir sem chegar ou derrear. Mistura de unha e carne. Desigual sonhar. Brincadeira de um tempo de mil suores e tosses. Na taça, o vinho escorre às hostes. Cabelos jogados ao sofá, no universo que não distingue a boa da má. A felicidade por fim far-se-á. Com um fundo de Billie Holiday, tudo fiz e me dei. Ao eterno, batucavas entre desalinhos de cabelos, manchas de amor ao lençol e um pedido: “Não acordes, seu tal Sol. A vida não há de findar."

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