segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

Com Anna Pêgo no ar

 Por Ronaldo Faria


-- Nada? Essa internet deve estar com pau. Ou será o computador? Há semanas nem um oi ou olá? Deve ser praga ou mandinga. Vou orar aos pretos velhos um imenso saravá.
Lupércio, imerso no seu drama impessoal, já que trama a dois é quase uma reunião celestial, não sabia responder a sua pergunta. Há muito havia perdido as respostas. Postas nalgum lugar entre a realidade e a verdade, se verdade há, elas consomem horas e anos, vorazes e casuais, aquelas que surgem de repente e logo, em segundos, se tornam ausentes. Dementes, catastróficas, eufóricas em rimas e métricas, trazem cataclismos vez ou outra quando, cansadas de se saberem incapazes de mudar o próprio mundo, decidem simplesmente hibernar para ressuscitarem a novamente se perguntar.
-- Nada? Será que fora do mundo virtual, no eufemismo do surgir em si, na realidade que a saudade parece ter sepultado dos afagos e olhares, alhures assoberbados, haverá um resto incerto de lembrar?
Lupércio, imerso na tragédia limítrofe entre o início e o fim, ainda relembra da infausta Clementina. Aquela que sem clemência o deixou. Eremita no seu canto de meros quarenta metros nada quadrados, infausto no latifúndio que o poeta há muito cantara, ouve canções e versos transversos e audíveis. Factíveis no entardecer, dispersos sobremaneira numa despedida. Calado e solitário, prefere não auferir a si compêndios e livros de autoajuda. É apenas mais um a trilhar passos que não voltam, frases nunca ditas, desditas camaleônicas. Ou seja, mais um.
-- Nada? Quantas braçadas tragadas de água do mar e da emoção de amar ainda serão dadas, transcritas em sânscrito, algo que ninguém mais quer aprender a ler ou falar?
Lupércio decide ir à rua. Desce as escadas do seu sétimo andar. O elevador, pantográfico, estava de novo quebrado. No asfalto, com seres enfartando de esperas e chegadas, artroses e vozes silenciosas, relicários e tragédias impessoais, segue de forma reta, ereta quiçá, onde o asfalto permeia rodas de carros e pés de homens e mulheres, todes. Para ele, paulatinamente vem à mente que o mundo de inteligências artificiais e algoritmos é virtual. Lá não existe início e nem fim. É tudo um meio sem receio daquilo que os dedos num teclado vão pedir. Mas, na cena, um morador de rua, desses que nem a rua quer ter, pede umas moedas a Lupércio. “Vale uma nota de 50?” Puto com a resposta jocosa, o andrajoso senhor apenas responde um sonoro “puta que o pariu, vá se foder”. A interseção entre o real e o imaginário com certeza nesse mundo, nesse momento, ainda não se perdeu.

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