terça-feira, 12 de maio de 2026

Ho, Ho, Ho...

 Por Ronaldo Faria


Vantuil estava gordo além da conta. Milhares de copos de cerveja e centenas de tira-gostos em excesso lhe tinham dado a forma de um Papai Noel de bordel. Barbado, com olheiras dantescas e bafo de leão, não tinha muito a fazer. Desempregado há um ano e dois avos, não tinha muito que fazer na vida a não ser sentar num banco de praça e esperar o tempo passar.
-- E aí, Vantuil, tudo bem?
A pergunta de Jacinto lhe pareceu blasfêmia ou sacanagem de véspera natalina.
-- Puta que pariu, Jaça. Você só pode estar de sacanagem logo de manhã.
-- Cacete, desculpa. Achei que tinha rolado algo pra você.
-- Só se for algo pra papa-defunto. E, no caso, eu no caixão .
-- Caramba, você quer um trampo numa comunidade aqui perto? O dono do lugar quer fazer uma festa pra garotada e não tem ninguém no grupo dele que seja gordo. Quer dizer, com a sua silhueta.
-- Porra, pode chamar de gordo mesmo. Tenho um espelho no barraco. E quanto ele paga?
-- Tão falando em milão. Se quiser, eu te levo lá.
-- Já é...
No ônibus de subúrbio falaram do passado, das estripulias de infância, da alegria da adolescência nas fugidas da escola para jogar bola ou soltar pipa, roubar goiabas da casa do Seu Crimaldo. Dos primeiros porres, do cigarro do bom e do careta, das corridas atrás do primeiro emprego e dos homi. Mas, nesse passado, num dado momento passado, Jacinto conseguiu emprego numa siderúrgica e cresceu no trampo. Vantuil, porém, tentou a vida nos dados e no baralho, noutros trampos sem relógio de ponto ou coisas mil. Não deu certo em nenhum deles. Agora, quem sabe que o Papai Noel não lhe traria por fim um presente bom. Desceram no ponto diante da entrada da comunidade e dois seguranças do lugar com AR-15 nas mãos os receberam.
-- Qual foi? Que vocês querem?
-- Caralho, manos. Sou eu, o Jaça Bagrão. Vim trazer um candidato a Papai Noel pro chefe...
-- Esse gordo do caralho aí?
-- Ele.
-- Não sei o patrão vai gostar desse bosta não.
-- Isso quem tem que dizer é o homem. Se não aprovar, ele roda daqui rapidinho.
-- Vão nessa. Mas não esquece: aqui tem olheiro em cada esquina.
-- Valeu, irmão. Na fé!
Devagar na manhã que se esparramava com calor forte, os dois subiram o morro e passaram por mais duas revistas. Lá em cima, a casa do patrão.
-- Grande Tião 38, com a sua licença, meu patrão.
-- Pode chegar. O que te traz aqui?
-- Queria te apresentar o Vantuil, pra ser o teu Papai Noel logo mais.
-- Vantuil? Teus pais tinham raiva de você?
-- Sei não, patrão. É mistura de Vanderléa com Tuílio.
-- Que merda de mistura. Mas, vai lá. Tu é gordo o bastante pra não precisar de enchimento. Já foi Papai Noel?
-- Não, chefia. Mas já fui vendedor de bala em sinal, guardador de carro, camelô na Central do Brasil, vendi rifa de residencial que nunca existiu, fui anotador do jogo do bicho, dei um trampo em reciclagem e me virei com o que deu.
-- Taí, vou te a chance de deixar os moleques e garotinhas daqui felizes. Tu vai distribuir as bolas e bonecas pra eles. Mas, na moral, trata eles com respeito. Se tu der mancada, ao invés de um pacau de barão tu sai daqui de caixão. Ou melhor, já vai pros pneus que é mais barato nem precisa reciclar
-- Chefia, te prometo ser o melhor velhinho dessas crianças.
Tempo logo depois, vestido de Papai Noel, Vantuil sentou no tamborete e, com as sacolas do lado, esperou as crianças chegarem. Aos poucos, com seus passos pequenos, foram chegando meninos e meninas para a festa que o dono do lugar tinha preparado. Som de DJ, fogos de artifício, mesa de doces e o Papai Noel.
-- Papai Noel, eu não queria uma bola. Queria um Playstation.
-- Guri, não fode comigo. O videogame está caro pra cacete. No trenó só cabia bola.
-- Meu bom velhinho, eu queria uma Barbie, não essa boneca de plástico.
-- Filha, Barbie é coisa de gente tonta, de patricinha sem noção. Pega essa e chama de neném...
E tantos pedidos diferentes mais. Tanta coisa que nem o dono do morro poderia dar. Depois de atender centenas de crianças (“como esse povo aqui procria”, pensou), Vantuil pôde parar com a sua nova fase. Estava feliz e cansado. Quem sabe agora rolava ao menos uma cerveja gelada...
-- Gostei de tu. Soube até driblar quem queria mais. Sabe que tu poderia ter feito Tablado ou Oficina. Figurar na Globo. Fui contigo. Como a venda de fim de ano triplicou o faturamento, vai levar três contos. Pra um Natal feliz e um Ano Novo bacana.
Vantuil teve vontade de beijar Tião 38 na boca, mas sabia que se fizesse isso a sua boca ia amanhecer cheia de formiga no dia seguinte. Agradeceu, desejou que nenhuma facção rival ou milícia tomasse conta do morro e disse que a lábia tinha adquirido na labuta das ruas pra driblar tanto pivete chato além da conta. Mas, frisou, teve os bonzinhos também.
-- Jaça, vamos parar no primeiro boteco na saída do morro. Essa noite é por minha conta.
Dito e feito. Pediram a cerveja mais cara e gelada. Porção de torresmo e linguiça. Comemoraram o dia de Natal que seria amanhã e agradeceram ter a bênção do 38. No fim, quando chamaram a conta, o português fez questão de dizer que estava tudo zerado.
-- O homem sabia que vocês podiam cair aqui e mandou liberar.
No céu, um drone de vigilância do patrão geral pareceu ser um trenó sem renas. Mas quem quer saber de rena se ela aqui nem existe. Ano que vem, sonhou Vantuil no barraco quando o Natal amanhecia de verdade, a festa podia se repetir. “Acho que pra ficar perfeito, ainda preciso engordar mais uns 20 quilos.” O personagem que é de mentira tinha virado verdade no Brasil, enfim. Ao menos para Vantuil. “Hoje o resto pode ir pra...”, pensou. E que até lá as balas perdidas esqueçam do dono do morro.
 
(Com Jards Macalé ao fundo)



domingo, 10 de maio de 2026

Toquinho e suas 30 preferidas

 Por Edmilson Siqueira



Há um bom tempo comprei, na Hully Gully Discos, um CD especial de Toquinho. Especial porque são 30 canções que ele mesmo escolheu como sua preferidas e, claro, para caber tudo foram necessários dois CDs .  
Toquinho, como todos sabem, é um artista prolixo. Participou da turma que iniciou as mudanças na MPB, lá no tempo dos festivais da Record (meados da década de 1960) e está aí até hoje, nada menos que quase 70 anos depois. Daqui 3 meses ele fará 80 anos, o que significa que era bem novinho quando já se imiscuía no agito de alguns futuros gênios da nossa música. 
No encarte que acompanha os CDs, além das letras das 30 músicas, foram reservadas seis páginas para contar, cronologicamente, a vida artística de Toquinho. Seis páginas? Sim, pois são cerca de 50 gravações, entre LPs, CDs e fitas, a maior parte gravada no Brasil, mas muitas delas feitas em países da América do Sul, da Europa e no Japão. E olha que a cronologia termina em 1996, ou seja, os últimos 30 anos da carreira de Toquinho - que foram bem menos agitados, logicamente - não constam do texto. Mas a Wikipédia registra, depois do ano 2000, quase 20 atividades entre coletâneas, participações em gravações de outros artistas e discos próprios. 
Quem lê apenas o folheto do disco, já se espanta com tantas atividades e tanta coisa gravada. Por isso, para fazer um disco com 30 canções preferidas, deve ter sido fácil e difícil ao mesmo tempo. Fácil, pela quantidade disponível e difícil para selecionar só 30 entre tanta música bonita. 
Mas há um outro artigo no encarte que explica melhor a seleção: ela foi feita, originalmente, para um CD-Rom, que alia as músicas com fotos, textos e vídeos, num trabalho de fôlego proposto por César Suzigan e abraçado pela Paradoxx Music. Os CDs vieram depois, como forma de distribuir apenas as músicas a um custo mais acessível. A direção musical do projeto coube a César e Toquinho. Tudo isso em 1996. 
As trinta músicas selecionadas são, em sua maioria - e como não poderia deixar de ser - em parceria com Vinicius de Moraes, com quem Toquinho criou grandes sucessos que o tornaram nacionalmente conhecido, com centenas e centenas de shows com o Poetinha. Eu assisti a um desses, no Teatro Castro Mendes, aqui em Campinas. No palco, além de Vinicius e Toquinho, Maria Creuza e o Trio Mocotó. Foi uma noite espetacular, com duas sessões lotadas.  


Mas, apesar de Vinicius ser o mais constante, há outros - e ótimos - parceiros na obra de Toquinho. Há italianos, como Maurizio Fabrizio e Guido Morra, autores de "Aquarela", que Vinicius e Toquinho versaram para o português. Há outro, também constante, de nome Mutinho, apelido de Lupicínio Morais Rodrigues, renomado compositor e baterista gaúcho que vem a ser sobrinho de Lupicínio Rodrigues. Chico Buarque, Francis Hime e Jorge Benjor são outros nomes que aparecem compondo com Toquinho.  
Os discos são inteiramente agradáveis. Dá pra reviver os bons tempos da MPB nos férteis anos do final do século passado e até se surpreender com a diversidade de composições que o grande Toquinho fez. E, claro, continua fazendo. 

O primeiro CD tem as seguintes faixas: 
- Aquarela (Mauricio Fabrizio, Guido Morra, Toquinho e Vinicius) 
- Como Dizia o Poeta (Toquinho e Vinicius) 
- Samba para Vinicius (Toquinho e Chico Buarque) 
- Carta ao Tom (Toquinho e Vinicius) 
- O Velho e a Flor (Toquinho e Vinicius) 
- Carolina Carol Bela (Toquinho e Jorge Benjor) 
- Que Maravilha (Toquinho e Jorge Benjor) 
- Chorando pra Pixinguinha (Toquinho e Vinicius) 
- O Caderno (Toquinho e Mutinho) 
- Regra 3 (Toquinho e Vinicius) 
- Maria Vai com as Outras (Toquinho e Vinicius)  
- Turbilhão (Toquinho e Mutinho) 
- Ao que Vai Chegar (Toquinho e Mutinho) 
- Samba da Volta (Toquinho e Vinicius) 
- Cotidiano Nº 2 (Toquinho e Vinicius) 

O segundo CD tem as seguintes faixas: 
- Testamento (Toquinho e Vinicius) 
- Escravo da Alegria (Toquinho e Mutinho) 
- Tarde em Itapuã (Toquinho e Vinicius) 
-À Sombra de um Jatobá (Toquinho) 
- Tonga da Mironga (Toquinho e Vinicius) 
- A Bicicleta (Toquinho e Mutinho) 
- Morena Flor (Toquinho e Vinicius) 
- Meu Pai Oxalá (Toquinho e Vinicius)] 
- Choro Chorado Pra Paulinho Nogueira (Paulinho Nogueira, Toquinho e Vinicius) 
- Lua Cheia (Toquinho e Chico Buarque) 
- Samba de Orly (Toquinho, Chico Buarque e Vinicius) 
- O Bem-Amado (Toquinho e Vinicius) 
- São Demais os Perigos Desta Vida (Toquinho e Vinicius) 
- Doce Vida (Toquinho e Francis Hime) 
- Na Boca da Noite (Toquinho e Paulo Vanzolini) 

O CD esta venda nos bons sites do ramo e pode ser ouvido na íntegra no YouTube em https://www.youtube.com/watch?v=9KllkacsCJk&list=PLqT0oyCMn92ihNwsUrxZhLQjB0rOCbcbj . 

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Pedro Luís e a Parede

Por Ronaldo Faria 

Afinal a ouvir e ver um DVD de anos atrás. Como diz o cara (ele não disse e nem falou), há tempo pra tudo. Remédios são um tédio. Vejo-te doença no privativo. Mas curti o tal de opioide.

Cassiano, que não era o expoente da Semana da Arte Moderna, ficou pasmo no imbróglio que se fez na sua separação. Antemão, nas inverdades que acreditamos ser capazes de desfazer toda loucura, descobrimos o mundo propício que se arvora. A árvore do tempo não brota suas flores nos canteiros que cremos ser brejeiros. Às vezes, por vezes, as vozes estão nas artroses que mostram que o espanto vive nos pântanos de quem sobrevive mesmo depois de tanto apanhar. Ao contrário dos arbitrários celebrantes sacrários, o momento se move solidário e solitário. O agro é pop? Não fode! A vida é soft? Só se for à bala real ou fictícia talvez extinta e quase letal. Mas, saibamos, que a crina do cavalo Caramelo virou pop no mundo em desvão. O tempo? Como termômetro que tempera e destempera nossa crença em continuar a viver, se esquece e aquiesce aquilo que se foi pelo tempo e desapareceu num céu sem raios de sol ou luar. E deu!

 (Caralho, comprar e só ouvir anos depois é coisa de quem perde tempo em ser e viver)

quarta-feira, 6 de maio de 2026

A foto

 Por Ronaldo Faria

A foto sobre a mesa é como sobremesa que se paga com regalo para o sabor desfrutar. Nela, o casal sorri com todos os dentes possíveis e factíveis. Ao fundo, um mar que se desdobra em dobras de ondas cheias de espumas e futuras agruras aos camarões que decidem perto do mundo chegar. Alguns chegarão, outros irão morrer sem sequer saber.

Na foto, colocada há tempos naquele lugar que o pó já deixou parte dela obscura, os dois se entregam entre tréguas e tragos ao amor que poucos saberão em Terra que possa existir. No redor de tudo, num céu de azul nunca sucinto, uma e outra gaivota volta do seu buscar. E tudo se faz princípio, meio e fim. Mas, porém, no entretanto de todo contudo, no meio é só precipício.
 

(Com Gal)

terça-feira, 5 de maio de 2026

Josee Koning, a holandesa quase brasileira*

 Por Edmilson Siqueira


"Eu nasci na Holanda, mas na primeira vez que fui ao Brasil fui fisgada. Fascinada pela beleza do país, do povo e, mais que tudo, pela sua música."  
As palavras são de Josee Koning, escritas no encarte que acompanha o disco "Dois Mundos - Two Worlds", escrito assim mesmo, nas duas línguas na capa. 
Confesso que não conhecia a cantora, apesar de ela ser fissurada por música brasileira e já ter gravado um disco só com músicas de Tom Jobim dois anos antes desse "Dois Mundos", lançado na Europa em 1998 e, no Brasil, em 2002.  
E, claro, a "novidade" pra mim foi ótima. Comprei o CD e comecei a ouvi-lo.  
Apesar de holandesa, há vários momentos em que, cantando em português, poder-se-ia dizer que se trata de uma brasileira, o que demonstra seu grande respeito pela nossa língua. O repertório é ótimo e conta com a participação de Ivan Lins e Dori Caymmi, o que é um verdadeiro atestado de qualidade. Mas ela não canta músicas só desses dois grandes compositores brasileiros (e se cantasse, o disco seria ótimo também).  
Além deles, Josee passeia por músicas de Caetano Veloso, Gordurinha e Almira Castilho, Edu Lobo, Chico Buarque e Rui Guerra, Milton Nascimento e Ronaldo Bastos e Dorival Caymmi. 
Não dá pra não dizer que o disco sintetiza muito bem a ideia de diálogo cultural através da música. Lançado em um momento de maturidade artística da intérprete, o disco reafirma seu profundo vínculo com a música brasileira, ao mesmo tempo em que preserva traços de sua formação europeia. O resultado é um trabalho sofisticado, sensível e repleto de nuances, que justifica plenamente o título Dois Mundos. 


Josee Koning não é uma cantora de excessos: sua abordagem privilegia o fraseado preciso, a dicção clara e uma interpretação que valoriza o conjunto.  
O repertório é um dos pontos altos do disco. A seleção de canções transita entre clássicos da música brasileira e composições menos óbvias, revelando um olhar refinado. Há uma clara intenção de evitar o lugar-comum, apostando em obras que permitam releituras mais pessoais. Nesse sentido, Josee consegue reconstruir cada música dentro de sua estética, frequentemente mais contida. 
Os arranjos com elementos do jazz europeu, com sua sofisticação harmônica e uso econômico dos instrumentos, convivem com ritmos brasileiros de forma pacífica e prazerosa.  
Já disse, mas repito: a pronúncia do português, frequentemente um desafio para intérpretes estrangeiros, é tratada com respeito e competência. Se fosse apresentada como uma cantora brasileira que viveu algum tempo num outro país e adquiriu um pouco do sotaque estrangeiro, muita gente acreditaria.  
Por fim, Dois Mundos é um belíssimo trabalho. Em tempos de produção musical acelerada e muitas vezes superficial, o álbum se destaca pela sua elegância e coerência. Vou comprar outros CD dela. 
As músicas são as seguintes: 
- Lua Soberana (Ivan Lins – Victor Martins) 
- Coração Vagabundo (Caetano Veloso) 
- Chiclete com Banana (Gordurinha – Almira Castilho) 
- Começar de Novo (Ivan Lins – Victor Martins) 
- Água Verde (Edu Lobo) 
- Ana de Amsterdam (Chico Buarque – Rui Guerra) 
- Aparecida (Ivan Lins – Maurício Tapajós) 
- Cravo e Canela (Milton Nascimento – Ronaldo Bastos) 
- Doce Presença (Ivan Lins – Victor Martins) 
- Colors of Joy (Dori Caymmi – Tracy Mann) 
- O Bem do Mar (Dorival Caymmi) 
- Ninho de Vespa (Dori Caymmi – Paulo César Pinheiro) 
- Acqua Marcia (Ivan Lins – Marina Colasanti) 
O disco pode ser comprado por aí, nos bons sites do ramo. E pode ser ouvido na íntegra no YouTube em https://www.youtube.com/playlist?list=OLAK5uy_nK_7wHXm5wG4a94yLkagMR_XljfCqErVE . 

*A pesquisa para este artigo teve auxílio da IA do ChatGPT.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Gabriela

 Por Ronaldo Faria


Gabriela, dessas que diria o poeta tem cheiro de cravo e cor de canela, caminha despreocupada pelas ruas descendentes (que descem e descendem de outras ruelas) da favela. Caminha devagar, como a vagar em forma de levitar e ficar acima das pedras quentes que se esquentam do sol que desdobra e entorta espaços e faz queimar corpos e suar rostos cansados. Para ela, olhares sedentos dos homens e mulheres que a enxergam sublime e etérea estão em sobressalto como qualquer quimera. Na boca do morro, Zé Zoitão celebra com camaradas de armas mais um assalto.
Gabriela, dessas que faz uma viela virar avenida, caminha a deixar sob seus passos o descompasso que a porta-bandeira tem no asfalto ao ser reverenciada pelo seu mestre-sala. Vai a rebolar toda a sua beleza pelo lugar que pouca formosura tem. Casebres de madeira, alumínios que brilham na luz, telhas de amianto e tantos prantos de mães que buscam encontro para o término da dor nas bênçãos das mães de santos, ela serpenteia o mundo enquanto as nuvens se penteiam no vento ao relento. No alto da comunidade, a cidade parece perene no solene, incansável e próximo fim.
Gabriela, dessas que qualquer poeta gostaria de ter ao lado para quando a inspiração decidisse lhe largar, caminha entre tramas e dramas que a vida dá. É a sentença que mostra que a demência nunca deveria chegar. É um quadro pintado em cores que nenhum olho pode enxergar. Caminha devagar, como se fosse vagar em vagas que as ondas do mar logo embaixo quebram nas pedras sujas do verão. Ela e mais ninguém sabe que a vida, sobremaneira, corre a cada dia para o dia em que tudo vai terminar. Mas o tempo, resiliente e temente à morte, apenas entrega minutos onde a beleza é a dona do lugar.
Gabriela, dessas que a ausência nas íris faz tudo parecer sem razão de ser, caminha como fosse parte da carta de Caminha para o rei no além-mar: “Aqui, em se embelezando, Gabriela decerto dá”. Aos poucos, o fim da descida se faz merecer. O asfalto plano, pleno, desses que mistura planos de vida com planícies cheias de prédios e luzes de neon, está perto de receber seu corpo. Daí deixará de ser tosco. Voltará à vida que a perfídia o fez perder em piche e negror. Logo acima, no meio da sina, algum poeta popular irá rimar no próximo samba-enredo que cerveja e remédio com opioide dá um barato legal.

(Com Gal ao fundo)

sábado, 2 de maio de 2026

A querer ainda rimar

 Por Ronaldo Faria

Já que é pra estar vivo e enrolar uma palhinha do careta, que venha tudo como fosse à madrugada uma linda e anarquista ... (os sábios saberão como rimar). Aos caretas, trombeta.

-- Porra, deixar de escrever por dor parece procissão de proxeneta.
-- Certamente. Nossa mente sabe que só há uma vida a se viver.
-- E ela será vivida na loucura ou nas linhas escritas por drones?
-- Tanto faz no tanto que no meio se fez. Nos poucos segundos de lucidez que nos resta, tanto faz ser colado ao momento ou simples tormento. Como no mundo do futebol, pra um ou outro lado tudo se faz felicidade ou dor no tal de tento.
Macambuzio e sorumbático, atônito e performático, Miranda, no cataclismo trágico, cirúrgico e atávico, se faz fratricida e, em homilia, homicida de si mesmo. Algo como um livre funk a tocar. A agradecer por mais vinte anos no calendário legendário, marcado desde a infância, o destino em desatino que vira nicho no lixo utópico do trópico quente além do mais. Aliás, na doideira da saideira que não existe e nem há, surjam alhures as dores traumáticas e trágicas que postergam o texto final. Afinal, entre o bem e o mal, a utopia do laranjal em flor pode ser de alegria ou dor.

(Com Gil e um corta-dor quiçá a me livrar da dor)

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Cogumelo azul

 Por Ronaldo Faria


Cogumelos azuis. Ajuizados e tresloucados, tragados em ávidos traslados e voláteis sonhos perpetrados à revelia do que a vida traz e nos deixa viver. E ser. No revés da nostalgia que cria a tardia orgia de relembrar lembranças anchas ou fúteis, úteis em louvor, a certeza de que nada é perpétuo e nem tudo é finito. Nesse tempo rápido e maluco, tanto faz ser branco, preto, amarelo ou mameluco. Aqui, sabe-se há muito, tudo é resolvido no verbo ou no trabuco. E como gatos, somos todos pardos.
-- Meu, a vida é isso? Um carrossel que vai do fundo do poço ao céu em poucas horas?
-- O pior que é. As dores continuam, mas podem ser aguentadas e requentadas, malfadadas que sejam. No ensejo de tudo, a tríade casualidade, destino crível ou mero percevejo. Percevejo, prevejo, esse azedo que deixa a gente a se coçar...
-- Quer dizer que até uma mera trepada pode dar nódulo e dor como ensejo?
-- Fazer o quê. A vida vira um inferno depois de sermos bebês.
-- E qual é a saída?
-- Sei lá! Na falta de sapiência que nem sapo na lagoa à toa, sejamos cavalos de Tróia no entorno que mistura bosta e joia de milhares de dólares. No fim, as artroses do tempo viram nozes de Natal. É só saber quebrar e comer. De avental.
No papo orgástico e quase gástrico para a ressaca do dia seguinte, como pedinte de um real na porta do shopping decadente com resposta pronta entredentes, estridentes, Monsueto e Ronaldo rodopiam em pios de sílabas e frases, paráfrases trôpegas em azuis limiares de que ainda há trilha a trilhar. No esfalfar de fadas madrinhas, águas marinhas, fátuas farinhas, os amigos unos e indivisíveis vão transbordando de leviatãs e tantãs no insone momento. Certamente logo mais, no mais atroz desenrolar, algo irá rolar de tanto decantado e tão cansado tempo a chamar.
-- Vamos parar de parir? Puta que pariu...
-- Sei lá ou, pra ficar bonito, saber-se-á...
-- Caralho, a tal da vértebra reverberou legal pra nos deixar tanto tempo sem pensar e delirar, escrever.
-- É. A dor com ardor nos deixa malversados e fora do eixo que há muito já não tem centro definido ou acertado.
-- Ou seja, a vida maluca e pirada não sabe a mania que deve ou tem de seguir.
-- Com certeza. Mas, pra saber: o que é a certeza?
-- Sei lá. Talvez o importante seja apenas sobreviver pelado sem as penas que a vida nos coloca sobre um dorso que não aguenta sequer mera e angustiante dor ou louvor.
Lá fora, no aforismo translúcido, alguém diz apenas: “se a vida é um eterno e terno aprendizado, aprendamos rápido, como sádicos, mesmo que tenhamos de sofrer”.
 
(Com cogumelo azul, duende de São Thomé das Letras e Ventania)

terça-feira, 28 de abril de 2026

Às águas de Nanã Buruque

Por Ronaldo Faria

Metamorfose desde ser parido à fimose. Conglomerado de ideias, pesadelos, transtornos, torniquetes e celebrações promíscuas e pífias, nas perfídias e desditas. Talvez simbiose em quântica osteoporose que junta ossos, destroços e mil outros troços. Afinal, tanto faz como tanto fez. Num dia qualquer só irá sobrar "um aqui jaz". Assim, para por fim no fim, ouçamos o som das águas como fosse um prelúdio em jazz. Água que do alto cai, cairá...

domingo, 26 de abril de 2026

O "20" de Harry Connick Jr.

 Por Edmilson Siqueira



Quando tinha apenas nove anos, Harry Connick Jr. apresentou o Concerto para Piano nº 3, de Ludwig Von Beethoven, com a Orquestra Sinfônica de New Orleans. Isso aconteceu em 1976. Mas ele não ficaria só na música.  
Também fez cinema e, como ator começou com um papel no filme de guerra "Memphis Belle". Depis interpretou um assassino em "Copycat"  e um piloto de caça em Independence Day. Seu primeiro papel como protagonista viria com Basic, onde dividiu as telas com John Travolta. Além disso, interpretou um marido violento em "Bug" e estrelou as comédias românticas "P.S. I Love You" e "New in Town", além de ter estrelado várias séries. 
Embora esse currículo todo pareça ser de um ator bem sucedido, ele fazia sucesso mesmo era com música: "When My Heart Finds Christmas", seu álbum natalino de 1993, é também seu álbum de maior sucesso comercial até os dias atuais. Seu álbum "Only You", de 2004 alcançou as melhores posições nas paradas musicais, tendo atingido a quinta colocação nos Estados Unidos e a sexta no Reino Unido. Além disso, Connick é vencedor de três Prêmios Grammy e dois Prêmios Emmy.  
Sua discografia é composta por mais de 30 discos. Um deles é "20", exatamente seu quarto trabalho, de 1988, e que ocupa um lugar singular em sua discografia e na história recente do jazz vocal e instrumental. Gravado quando Connick tinha apenas vinte anos — daí o título —, o disco revela um jovem músico que, apesar da idade, já demonstrava maturidade, domínio técnico e uma profunda reverência à tradição do jazz. 
Diferente de seus trabalhos posteriores, que frequentemente exploram o formato de big band ou o cancioneiro popular com apelo comercial maior "20" é um álbum essencialmente intimista. Connick assume majoritariamente o piano, acompanhado por formações enxutas. Na realidade, a maioria das músicas é só ele ao piano e, em algumas cantando.  
Mas há espaço para alguns artistas que já faziam sucesso à época. Assim, aparecem no disco Carmen McRae, Dr. John e Robert Leslie. 
O repertório do disco é composto, em grande parte, por standards do jazz e da canção americana, além de algumas composições próprias. O que chama atenção é a abordagem: Connick evita o virtuosismo exibicionista e opta por uma leitura mais contida, quase introspectiva. Seu toque ao piano remete claramente à tradição de mestres como Bill Evans, especialmente na forma como constrói harmonias sofisticadas e explora nuances dinâmicas. 


A interpretação vocal, embora presente, não é o foco central do álbum. Quando canta, Connick o faz com discrição, como se a voz fosse apenas mais um instrumento dentro do arranjo. Essa escolha faz com que o isco mais pareça um recital de jazz do que de um álbum pop tradicional. 
No encarte do disco, além de uma ficha técnica detalhada, há um texto de Connick contando alguma coisa sobre cada uma das onze faixas.  
Mas, um dos aspectos mais interessantes de "20" é justamente uma perceptível tensão entre juventude e maturidade. Há momentos em que se percebe a busca por uma identidade própria, ainda em formação, sem saber ao certo o que deseja.  
No contexto da carreira de Harry Connick Jr, "20" funciona quase como um manifesto. Antes do sucesso comercial que viria nos anos seguintes, especialmente com trilhas sonoras e álbuns mais acessíveis, este disco revela suas raízes mais profundas no jazz. É um trabalho que dialoga diretamente com a tradição. 
Com o passar dos anos, "20" ganhou status de obra cult entre apreciadores de jazz. Não é um álbum de impacto imediato, nem de apelo massivo, mas recompensa audições atentas. É o tipo de trabalho que revela novas camadas a cada escuta, especialmente para quem se interessa pelos detalhes da interpretação pianística e pelos caminhos harmônicos. 
As faixas de "20" são as seguintes: 
- Avalon (B. Rose, A.Jolson e H.DeSylva) 
- Blue Skies (I. Berlin) 
- Imagination (J. Burke e J. Van Heusen) 
- Do You Know What Means To Miss New Orleans? (E. DeLang e L. Alter) 
- Basin Street Blues (S. Willians) 
- Lazy River (H. Carmichael e S. Arodin 
- Please Don't Talk About Me When I'M Gone (S. Calre e S. Step) 
- Stars Fell On Alabama (M. Parish e F. Perkins)  
- 'S Wonderful! (G. Gershwin e I. Gershwin) 
- Do Nothin' Till You Hear From Me (D. Ellington e B. Russel). 
O CD está à venda nos bons sites do ramo e pode ser ouvido na íntegra no YouTube em https://www.youtube.com/watch?v=DbixL-dR7EI&list=OLAK5uy_l7rf-YYnh_m2n9k7oApfVKOftBbiS8yvM&index=2 . 

sexta-feira, 24 de abril de 2026

No celular no recôndito do lar

Por Ronaldo Faria

Queria agora só poder sentar e escrever sem dor. Escrever pouco. Quase um texto tosco. Talvez uma só palavra: flor.
Somente escolher as sílabas pela sua sonoridade ou sororidade, propor personagens, levitar e ler depois. Ser... se entreter.
Queria saber como curar a coluna doente, reverter uma calúnia rente, sorrir à vontade de calar e dizer. Escolher.
Apenas poder respirar e fazer, ver e responder, sentenciar a verdade de viver nos poucos dias ainda que virão a tecer sons e sílabas.
Queria inaugurar o novo computador, vencer a vil dor, descobrir que o calendário do tempo pode ser mais do que etéreo torpor no premente calor.
Por fim, deitado a dedilhar numa tela que dá forma às células e o sonhar, acordar com o sol a partir em mais uma jornada de se apaixonar e saber que para tudo há fim, hora, lugar ou chegar.
 
(Texto em decúbito dorsal e no brilho de um celular)

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Devagar a gente chega lá

 Por Ronaldo Faria


Nostalgia tardia. Premência fugidia dos dias que se transbordam de luz e maresia. Num mar longínquo e próximo, próspero tempo de se escrever mais devagar, o tempo flui a vagar. E vai a correr entre corpos de verão, cópulas de tesão, desavisada exatidão. Misto de hiato, início, meio e fim de alguma história que se mistura sem fim ou começo num limiar. Em tempos de têmporas profanas às infâmias que se destroçam nas pedras do quebra-mar, a vida carece se entregar e se embriagar de notícias que parecem perdidas no tempo ou urdidas no vento, a revoar.
Saudade vadia. Lembranças de erros e acertos, todos prestos a se tornarem quase só afetos ou fetos disformes e sem lar. Na esquina sobremaneira feminina, onde carros trafegam em transversais delírios, versos saem dos olhos de casais apaixonados, se movimentam em tormentos aplacados e dizem que o inferno astral é depois do aniversário, mas tem fim. Afinal, tudo tem um final que se mistura, se locupleta e se esvai. Nos rodopios sem chiados ou pios do pássaro que se esqueceu de voar. Nalgum lugar, decerto, o verso vira reverso para a noite se aconchegar.
Realidade e sina. Talvez exista milagre de Natal para quem se comportou direitinho o ano inteiro. Talvez sim, talvez não também. Mas, pouco importa. Detrás da porta do bar se aporta no porto de correntes marítimas que levam a sereias tresloucadas, amantes imponderadas, histórias forjadas em aços e percalços do destino. Em desatino, angústias de trovões postergados, dragões de mares viajados, galés afundadas em infundadas tempestades se fundem em palavras prostradas que viajam sem saber se irão um dia qualquer chegar.
 
(Com Bossa Nova no ouvido e a tentar controlar a dor)

terça-feira, 21 de abril de 2026

Uma coletânea de Joe Cocker

 Por Edmilson Siqueira

 

Nunca fui um grande fã de Joe Cocker. Na verdade, tomei conhecimento da sua música com a versão de "With a Little Help From My Friends" cujo arranjo grandioso com toques de soul, deram à música de Paul MacCartney uma outra dimensão. Essa performance foi, na verdade, seu passo inicial para o sucesso, em 1969. Depois disso, acompanhei algumas interpretações poderosas que ele fez de clássicos do rock. 
Ainda em 1969, ele apareceu no Festival de Woodstock, com um show consagrador, sobre o qual Cocker fala no livro "Woodstock", do jornalista Pete Fornatale: "Tivemos uma reação emocionante quando tocamos 'With a Little Help from My Friends'. Foi como um sentido maravilhoso de comunicação. Era o último número do show, eu lembro, mas senti que finalmente tínhamos nos comunicado com alguém". 
Depois teve mais alguns hits com "She Came Through the Bathroom Window" (outra versão de uma canção dos Beatles), "Cry Me a River" e "Feelin Alright". Em 1970 sua versão ao vivo do sucesso "The Letter" dos Box Tops, lançado na compilação Mad Dogs & Englishmen tornou-se sua primeira canção a entrar no Top Ten americano. 
Como muitos artistas de sua geração, começou a ter problemas com drogas e sua carreira foi praticamente interrompida. Mas, felizmente, ele conseguiu se livrar do problema e retornar nos anos 1980, conseguindo grande sucesso até os anos 1990 com as canções "Don't You Love Me Anymore", "Up Where We Belong", "You Are So Beautiful", "When The Night Comes", "You Can Leave Your Hat On" e, um dos maiores dele, "Unchain My Heart". 
A canção mais vendida de Cocker foi " Up Where We Belong ", um dueto com Jennifer Warnes que alcançou o primeiro lugar nos Estados Unidos e lhe rendeu um Grammy em 1983. Ele lançou um total de 22 álbuns de estúdio ao longo de uma carreira de 43 anos. 


Em 1993, Cocker foi indicado ao Brit Award de Melhor Artista Solo Masculino Britânico. Ele recebeu uma placa de bronze do Sheffield Legends em sua cidade natal em 2007 e foi condecorado com a Ordem do Império Britânico (OBE) no ano seguinte por serviços prestados à música. Cocker foi classificado em 97º lugar na lista dos 100 maiores cantores da Rolling Stone e foi introduzido postumamente no Hall da Fama do Rock and Roll em novembro de 2025. 
Como não tinha nenhum disco dele, acabei comprando, não me lembro quando, uma coletânea, "The Best of Joe Cocker", que dá uma ótima noção do que foi esse cantor britânico, que bem aliou o rock e o soul.  
Ao contrário de outras coletâneas mal cuidadas, essa foi bem produzida, com 16 músicas e um encarte com a ficha técnica de todas elas, além de belas fotos e um artigo extraído da biografia dele escrita por J.P. Beans. Ao final do artigo - e provavelmente também do próprio livro - o autor faz uma pergunta que é respondida pelo próprio Joe:  
- E o futuro? 
- Enquanto eu estiver no palco for divertido, enquanto eu gostar dessa parte e ainda sentir aquela adrenalina de me apresentar, continuarei me apresentando. 
Joe Cocker, considerado uma das maiores vozes do rock, morreu em dezembro de 2014, aos 70 anos. 
As músicas da coletânea são as seguintes: 
"Unchain My Heart"  (Bobby Sharp e Teddy Powell)  
"You Can Leave Your Hat On" (Randy Newman)  
"When the Night Comes" (Bryan Adams, Jim Vallance e Diane Warren)  
"Up Where We Belong" (Dueto com Jennifer Warnes) (Jack Nitzsche, Buffy Sainte-Marie e Will Jennings)  
"Now That the Magic Has Gone" (John Miles) 
"Don't You Love Me Anymore" (Albert Hammond e Diane Warren)  
"I Can Hear the River" (Don Dixon) 
"Sorry Seems to Be the Hardest Word" (Elton John e Bernie Taupin)  
"Shelter Me" (Nick Di Stefano) 
"Feels Like Forever" (Bryan Adams e Diane Warren) 
"Night Calls" (Jeff Lynne)  
"Don't Let the Sun Go Down on Me" (Elton John e Bernie Taupin) 
"Now That You're Gone" (Klaus Lage, Diether Dehm, Tony Carey e Joe Cocker)  
"Civilized Man" (Richard Feldman e Pat Robinson)  
"When a Woman Cries"  (Joshua Kadison)  
"With a Little Help from My Friends" (John Lennon e Paul McCartney) 
O CD está à venda nos bons sites do ramo. Não encontrei essa coletânea especificamente no YouTube, mas há muitas outras e, provavelmente, todas as músicas citadas aqui estão nelas.   

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Em Lupicínio

 Por Ronaldo Faria


João estava sentado e só a ver a vida passar. E passavam as moças com seus vestidos soltos, moços com cabelos desfeitos, desajeitados casais entre abraços e beijos em sobressaltos. E tinha ônibus a correr com gente dentro, vidas a transitarem num ir e vir tresloucado e pasmado. Na direção, um motorista cansado de seguir todos os dias a mesma rotina de ruas e esquinas. À mesma sina. Logo acima, nuvens passeavam brancas num azul cercado de raios solares. Nos olhares das casas, velhas senhoras vislumbram a imensidão que termina à beira logo no fim da cidade. Na cena toda, João vive no emaranhado que ao menos qualquer conhecedor da dor diria ser descalabro.
-- E aí João, posso sentar ao seu lado.
Era seu amigo Nestor. Camarada de velhas brigas e orgias.
-- Claro, a mesa é pública.
-- Valeu. Jurandir, desce mais uma estalando de gelada!
Na rua, um estridente buzinar reclama do cachorro que no meio dela deita para cochilar.
-- E aí, que conta de novo?
-- Quase nada. Bar e casa, casa e bar...
-- E entre esses dois destinos?
-- Desatino do destino, muito desatino e pouco destino...
-- Poxa, João, a vida dá pra ser um pouco mais do que isso.
-- Pode ser, pode ser para quem quer ainda viver...
Na pausa da conversa, versos saem das mãos do poeta na mesa ao lado. Nas rimas, afago, paixão, amor sem gosto amargo. Um pássaro canta sua poesia para a jovem passarinha que voa distante. Escondido num canto, à espreita nada suspeita, um meliante. A espera do incauto que por ali andar ou passar. No coreto de concreto que existe no meio da praça, dramática canção reverbera para a imensidão. Nas notas, repertório de perda e solidão.
-- E a Ana Maria? Que fim levou?
-- Sei lá. Deve ter ido pro Panamá.
-- Panamá? Mas o que alguém pode querer fazer por lá?
-- Vou lá saber...
-- Jurandir, traz a próxima e um balde gelo pra colocar nos copos porque essa cerveja está mais quente do que subúrbio em dia de verão!
As horas devagar se esparramavam pelo relógio de parede na parede de azulejos azuis e brancos. Uma mosca tentava saciar a fome no resto de salame que repousava sem serventia no chão. O cachorro que antes cochilava na rua agora ressona sob qualquer teto. Na barriga da mulher que passa, quem dorme é um feto. A noite, dessas que tão brilhante em estrelas parece açoite aos olhos e carece de olhares apaixonados, pede licença ao sol cansado e suado.
-- Sabe João, muitas vezes a saudade parece que só existe pra nos lembrar que é hora de esquecer tudo.
-- Taí, concordo.
-- Tipo brincadeira derradeira de um menino que sonhava com bicicleta de Natal e ganhava no máximo um patinete.
-- Porra, que história triste de pivete. Melhor falarmos da mais gostosa vedete...
--  Luz Del Fuego, Elvira Pagã, Virgínia Lane, um momento da vida até Leila Diniz.
-- Com certeza. Wilza Carla, Renata Fronzi e Mara Rúbia. Todas lindas e apoteóticas para todas as óticas.
-- Puta merda, erámos felizes e sabíamos...
-- Com certeza. Jurandir, descarrega agora aquela da promoção!
E assim as moças e moços seguiram seus destinos, alguns prazerosos e outros cretinos, casais se acasalaram e desfizeram velhos romances, o ônibus passou reto no ponto porque o motorista decidiu ir à garagem pedir demissão. Nuvens escureceram, as velhas senhoras sofreram com seus joanetes, o poeta terminou a missão, o pássaro se apassarinhou com a amada. O meliante roubou a corrente que pensou ser de ouro mas era comprada em camelô, o coreto da praça silenciou, o relógio da parede, por falta de dar corda, parou. A mosca ao se saciar foi pisada sem querer e o cachorro enfim encontrou novo lar. Um idoso lhe prometeu ração e amor em troca de companhia. A mulher, em contrações finais, pariu o rebento enquanto no estádio cheio o Flamengo fazia mais um tento. A noite deu o derradeiro beijo no sol e o fez ir ao horizonte e dormir. “Mas, por favor, sem roncar”, disse a última nuvem que cobriu o derradeiro iluminar. No bar, João e Nestor se abraçam no mais bêbado gesto de que certamente amanhã haverá, quiçá, novo amanhecer, despertar, adormecer...
 
(Com Elza Canta e Chora Lupi)

sábado, 18 de abril de 2026

Parindo segunda parceria

 Por Ronaldo Faria


Vem, acorda no tempo, vem ver o vento viver.
Nessa estrada que é reencontro de mim em você... só você.
Vem descobrir o mistério tecer versos que a vida brotou.
Tudo é tempo demais, é sorrir e cantar. Você voltou!
Corre até a varanda, sobe nas nuvens que o céu espalhou.
Brinca de olhar lá na frente, se redescobrir sonhador.
Segue na luz desse sol que se arranca nos lábios em flor.
Vem viver a esperança ressurgir do nosso amor. Amor...
Chega de mala e cuia, desembrulha o presente sem dor.
Depois, se atira em meus braços e sente que nada mudou.
Feito criança, lambança na chuva que a aurora deixou.
Largados em meio ao nada, serenata perdida em louvor.
 
Vamos a viver a vida demais.
Vamos reviver a vida demais.
Vamos ser apenas nós, no nosso aliás.

Ho, Ho, Ho...

 Por Ronaldo Faria Vantuil estava gordo além da conta. Milhares de copos de cerveja e centenas de tira-gostos em excesso lhe tinham dado a...