Para onde nada o peixe que
tenta fugir das redes que o querem matar? Se não há rios ou portos que o tragam ao
mar, pra que tentar escapar?
Nas escapulidas do menino de
pés descalços nos seus percalços de correr atrás da bola, a carcomida ermida
morre sem água para saciar.
No frevo que rola no lugar
onde um Preto Velho é o refúgio, o casal se acasala e espera que o tempo saiba
que tem de parar ao fim do luar.
No beber de nomes esdrúxulos e
escandalosos, em miragens como fossem iguais areia e sol, as notas e versos se
fazem reverso na conjectura conjectural.
Mas para onde irá a mulher que
absorve o sorver inodoro dos odores servis? E o homem no seu infausto e eterno redescobrir
o mundo ao redor?
Nas vozes que as artroses deixam
em doses, paixões piradas há décadas e decrepitude amiúde que sublima o girar
de uma Terra etérea se tornam só tentação.
Daí, juntemos tudo que se tem
a criar:
"Antibiótico no
olho, probiótico no estômago, estrogênio saber-se-á onde há.
Cataclismos no
mapa, sismos na fenda funda, cismas na cabeça doidivanas e unas.
Temperatura em
alta, moscas na vista furada, alógenos de outra culta cultura.
Goles
destemperados, foles de gaitas degastadas, tragicômicas mautenerianas.
Heterógenas hóstias
engolidas, idas do dia a dia, frígidas flores despetaladas.
Vida que explodiu
e se dilacerou, gosto de dor, maturidade de vil idade. Viu?
Mentira na mesma
tira escrita na Linha do Equador e submersa no Canal de Suez.
Cadafalso do falso
luar, heresia fria do sonhar, beijo a sugar a jugular.
Paródia
ensandecida, descida de rolimã sem freio, batida interrompida no meio.
Poesia escrita e
subscrita, parcimônia inaudita, caleidoscópio míope no sol.
Ruas perdidas e
findas, casas chegadas e cheias, esquinas sem clima ou virada. Nada.
Copos sobre a
deletéria mesa, mãos sobre as mãos, mil chãos a esperar o fim.
Carros a
tracejarem destinos e desatinos, no interior há dois corpos meninos.
Beijos tresloucados,
sevícias envolvidas e luar, brandura de olhares mil.
Viagens malucas na
doideira inicial, fetos largados no sinal, casal na luz do sol.
Mar que quebra e
requebra à areia branca que a barca projeta no olhar.
Goles que se embriagam
a brilharem no luar inexato da lucidez que não há.
À espera da última
hora, no ultimar do raro ar, tudo vira mera poesia lunar.
Na maré que não dá
ré, revolver a métrica que o revólver da rima faz disparar.
Na rede do
alpendre, deitado a dormir acordado, o acorde do amor perdido. Ode.
Na espera do
passado tracejado, falciforme desejo degradado no engradado vazio.
No céu logo acima,
na mixórdia atemporal, o pedir que não se faça temporal.
Defronte da luz
branca que antes era papel virgem, o poeta profetiza a vida.
Nos ouvidos, vivos
à voz que caetana Caetano, a epígrafe vive a bandear.
Entre o passado e
o presente há um futuro inexistente e demente, quiçá crente. Lá.
No porto de onde o
menino partiu, alguém grita um grande puta que pariu!
No vocabulário
salafrário que se antevê, a novela da tevê parece prece sem fim.
E em quantas
frases de amor o dissabor faz-se soturno e prolixo ao louvor...
Falácias benvindas
e solapadas entre antônimos e heteronômicos criados.
Como o urso
comprado com o parco salário que abraçava abraçadeiras de metal.
No feto infértil
do escritor sem bossa para ser nova ou renovada, a trova.
Em Ipanema, quase só
um simples fonema a mais, a trema que morreu a agonizar.
Na trama de
décadas decrépitas, putas fazem ponto na avenida à hora recatada.
Atado às
transversas rezas de um ateu de Deus e do mundo, o fundo do poço sem fundo.
Cinzas caninas e
humanas juntas e misturadas, cancioneiro na hemeroteca discreta, largada.
Antes que o esquecer
nos atinja e confunda bunda com rotunda, criemos nos termos.
No ar o incenso
incendeia o odor que não sai ou esvai nem do lixo e sequer da flor.
E aí, vamos a devanear nos neurônios que ainda restam a brincar de se juntar e criar?
Em olhos que
tentam continuar a existir, o rosto da esperança ancha de viver. Ir.
Na navalha velha
que há muito está cega, a palavra é a lavra que semeia o fim.
Na estrada em que
o frio separa Subúrbio da Zona Sul, carinho eclipsado e tardio feito fado."
Assim, na performance de recuperar
escritos proscritos e que entregam vidas e vestes desgastadas nos corpos de
qualquer Sandra, Maria ou Isabel, Solange ou gosto de fel e mel, faça-se o fim e o
começo do atropelo de ser pagante e devedor da amada que, coberta de véu, deixa
à espera o eterno cataclismo do amado ser poeta ou censor entre a parca alegria e a dor.