Por Ronaldo Faria
Musicoólatras
DOIS APAIXONADOS POR MÚSICA A FALAREM DE VINIS, CDS E DVDS
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026
Santos na chuva
sábado, 21 de fevereiro de 2026
Com Marcos Valle e Stacey Kent
Por Ronaldo Faria
A noite adentra na madrugada que traz tragos, gregos, anjos e demônios que esperam despertar antes que o sol se faça outra vez dono do lugar. Saltimbancos de brancos delírios e lamúrias mil correm e percorrem notas e sílabas destrambelhadas na loucura de duas mãos a descobrirem nas coxas da mulher amada seu porto de chegada. E vão a rolar e desenrolar todos os sonhos e esperas de mesa em mesa, de camas em camas engomadas ou não, nos copos de vinho ou cerveja, a sorver o que a vida traz quem sabe por último no seu rimar. Sem olhos para ver o que corre ao redor, quiçá, tudo será apenas eterna dó. Mas agora, nessa hora, introito do proselitismo que vive entre a maré e o istmo, o mundo viaja insano e lúdico. Na fuga da realidade, a sanidade de quem sabe que a loucura é o lugar a viver e morar.
O vento que sai das
hélices do ventilador unem prazer e dor. O queimar de incenso que se sabe lá na
Índia quem fez, fecha as cortinas dos corticoides que, igual quem sabe, fluirão
logo mais. No ar a melodia flui num fluir desmesurado que nada pode ou quer parar.
Entre a nostalgia e a angina que volta e meia se faz em dor persecutória e
voraz, a vista do cais que se desdobra para ser mais e mais ou apenas um a mais. Talvez um terço
decantado em mililitros de álcool na voz de carolas que não sentem o calor do
chão brotar. Quem sabe o padre a pastorear suas ovelhas negras e brancas que se
perdem no pasto inexistente da vida. Na verdade, tanto fez como tanto faz. No
bar escuro e nunca soturno, com beijos e bocas a vivenciarem seu chegar, o
casal se acasala em separação mútua e tátil, fútil até dirão. Mas qual, de que
vale o que acham aqueles que, anchos do nada, vomitam ao léu sentimentos e sensações num canto qualquer?
No escuro obscuro do universo do verso que existirá entre a prosa e a rima, no
mimetismo etéreo da chegança final, o fim da prosa pede que rezemos aos deuses
e orixás onde a emoção e o amor possam, ainda, proliferar e existir.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
De onde vem a libertação da alma
Por Ronaldo Faria
Sentados num canto de bar, a tragar a essência da vida na essência, trocam mãos e fazem troça da vida, essa perfídia entre o tesão e a sofreguidão.
“Saudade ou certeza de ter morrido em vida na própria vastidão?” Silêncio no incenso que já não queima. Sobremaneira, um tanto de eira no pouco de beira.
“Sanfona ou viola e rabeca?” Na verdade, para o ouvinte e aprendiz de menestrel, tanto faz ser inferno ou céu. Desde que Lúcifer seja o ser angelical.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2026
Entre a realidade e o desejo
Reação. Entre o réu julgado e condenado de sua história e a esperança ancha de que ainda existirá um mundão de meu Deus a andar, José dança na sua cabeça que vagueia antigas fogueiras e fagueiras donzelas que trançam as pernas nas pernas de um vaqueiro. E juntam seus seios untados de sabores de bocas e batons baratos. Olhares, alhures longínquos e prestos, tracejam o ensejo de unir beijos e desejos, tragos. No ensejo de recriar sua própria história como fosse o padre a tocar na hóstia para todos perdoar, ele segue na escuridão que teima em fazer breu nas asas que, cortadas, não sabem sequer revoar. Louco sem direito a um hospício pra deixar seu corpo derrear, reza aos santos que inexistem para a crença o seu mundo povoar. No caminho das patas que vicejam vielas obscuras e escuras às escusas do mundo, um altar se faz na curva entre sanidade e delirar.
Ilusão. Retidão que há entre a sanidade e a loucura na etérea imensidão do temporal que, encruado, deixa as plantas morrerem de sede e fé, faz-se falácia e senão. No colo da mulher que traça em tranças as mãos nos cabelos ralos de José, o porto do mar nunca visto na mansidão da imensidão do sertão. O lampião, com seu querosene a untar de encruzilhadas a vida que ainda irá restar, deixa um resto de arresto para o embornal vazio que se leva tempos a fora. Nos toques de corpos em cópulas etéreas e fugazes, o plantio mostra que o inefável une o ódio no tempo que foge entre dedos na escuridão e diz não existir unguento para a solidão. Quieto, prolixo e mudo no seu mundo, José pragueja para que jiló seja cereja. Assim, nos abraços anchos e adeuses tantos, vai a marchar feito marchand na exposição vazia que mostra num quadro branco o valor proteico da chia. No lago defronte algo coaxa como fosse jia. Falta ao mundo o mínimo de fantasia.
domingo, 15 de fevereiro de 2026
Nuno Mindelis & The Cream Crackers: o melhor do blues brasileiro*
Pois quando se fala em blues no Brasil, poucos nomes alcançam o respeito quase unânime que Nuno Mindelis conquistou ao longo de sua trajetória. Guitarrista de técnica refinada, compositor com identidade própria e intérprete profundamente conectado à tradição afro-americana do blues, Mindelis construiu uma carreira singular, distante de modismos e profundamente comprometida com a essência do gênero. O álbum Nuno Mindelis & The Cream Crackers, lançado em 1998, ocupa um lugar central nessa história, funcionando como uma síntese estética, musical e conceitual de sua visão artística naquele momento.
Na verdade, esse disco é mais velho do que isso. Ele foi gravado entre maio e junho de 1992 e lançado nesse mesmo anco com o nome de "Long Distance Blues". E, segundo a Wikipédia, foi relançado em 1998 com o nome mudado para "Nuno Mindelis & The Cream Cracker" sem consulta ou conhecimento do autor.
E o disco é bom, muito bom. Claro que o blues é um gênero que pode não agradar todo mundo, mas Nuno Mindelis é cantor dos bons e seu blues tem muito a ver, como nas melhores famílias, com o rock.
É um blues urbano, sofisticado, com raízes claras na tradição norte-americana, mas filtrado por uma vida que atravessa Angola, Europa e Brasil. Ao lado da banda The Cream Crackers, Mindelis entrega um trabalho coeso, vibrante e tecnicamente irretocável, que se tornaria referência não apenas em sua discografia, mas também no cenário do blues brasileiro como um todo.
Os músicos que formam a banda são todos do primeiro time e ainda conta com algumas participações especiais todas ótimas.
Além de Nuno na guitarra e vocais, temos Paulo Fernandes na bateria; Jefferson Bergamini no baixo e José Roberto Bohn nos teclados. Fabio Colombini toca guitarra e violão em duas faixas; Larry McCray toca guitarra numa faixa e faz vocal em outra e J. J. Milteau toca harmônica em três faixas.
No encarte do disco de 1992 (o que eu tenho é de 98 e o encarte não traz esse texto), Nuno escreveu: “Não há dúvida de que os opostos, longe de se afastarem definitivamente, acabam por se encontrar, como a vida e a morte. Prova disso é a aparente oposição entre a poesia de um Robert Johnson, pela sua extrema simplicidade, e a de um Fernando Pessoa, por exemplo. A primeira, de tão simples, é de extrema profundidade; a segunda, de tão profunda, é de extrema simplicidade. O mesmo ocorre em relação ao blues, enquanto gênero musical. É simples, mas por isso mesmo, profundo e nada fácil.”
Antes do lançamento de Nuno Mindelis & The Cream Crackers, o guitarrista já havia se destacado com trabalhos que chamaram a atenção pela qualidade técnica e pela autenticidade de sua interpretação. Mas, segundo a crítica, foi nesse álbum que sua estética ganhou contornos mais definidos, especialmente no diálogo intenso com afiada banda, capaz de responder com precisão às suas ideias musicais.
O repertório do álbum tem Nuno com principal participante. Das onze faixas, ele assina dez, duas com parceiros. A única que não é de Nuno, é simplesmente de B. B. King.
Há várias músicas cantadas, mas há também espaço para momentos mais instrumentais, nos quais a banda explora grooves e atmosferas com liberdade, sem perder o foco narrativo. Esses trechos reforçam a dimensão musical do blues como linguagem expressiva, não apenas como veículo para letras confessionais.
Um dos aspectos mais importantes do disco é sua contribuição para a afirmação de um blues brasileiro livre de caricaturas. Mindelis nunca tentou “tropicalizar” o blues de forma artificial, nem mascarar suas raízes afro-americanas. Ela se insere de maneira natural, dialogando com um público que reconhece ali algo autêntico, mesmo que estrangeiro em origem.
Tanto que à época de seu lançamento, o álbum foi recebido com entusiasmo por críticos e músicos, consolidando Nuno Mindelis como uma das maiores referências do blues no Brasil. Mais do que sucesso imediato, o disco construiu um legado duradouro, influenciando gerações de guitarristas e bandas que passaram a enxergar o blues como um campo fértil para expressão artística sofisticada.
Mais de duas décadas após seu lançamento, Nuno Mindelis & The Cream Crackers permanece como um marco do blues no Brasil. Uma audição obrigatório para se compreender a obra de Nuno e também o início da trajetória do blues no Brasil que tem esse registro como uma espécie de marco inicial do amadurecimento do gênero por aqui.
- Talk About The Blues (Nuno Fidelis, Valeur e Jefferson Bergamini)
- Don't Hide Away (Nuno Mindelis)
- Pay The Cost To Be The Boss (B. B. King)
- Three Days StraightNuno Mindelis e Valeur)
- It's Your Fault (Nuno Mindelis)
- Dog's Day Night ((Nuno Mindelis)
- Answer To Ronnie (Nuno Mindelis)
- Talk About Somebody(Nuno Mindelis)
- It's My Turn(Nuno Mindelis)
- Blues Time (Nuno Mindelis)
- Iberic Blues (Nuno Mindelis)
O CD está à venda nos bons sites do ramo e pode ser ouvido na íntegra no YouTube em https://www.youtube.com/watch?v=HAD0TxqEGF8&list=PLkGQAKgRh6aprYmn9yfLO2xwOlK5zTE2H .
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026
Estradeiro de Minas Gerais (leia-se minúsculo Sergipe)
Por Ronaldo Faria
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026
Furar os olhos e esperar ver
-- Caralho, como você é otimista.
-- Se não o fosse, estaríamos fodidos há tempos...
-- Talvez tenha razão. Mas imagine, perder a visão é morrer em vida...
-- Vai dar tudo certo, decerto.
-- Nem que seja por decreto. Certo?
-- Aí só pra quem estudou Direito pra responder.
-- Ou seja, pode ser tudo de qualquer jeito. Logo, rolemos a roleta da vida.
-- Como é que é?
-- Uma pergunta: limpa ou não?
-- Sei lá. Se a partir do segundo tem menos borbulhas? Temos. Mas, até aí, quem vai saber. Há tese escrita? Talvez opiniões, coisas descritas, reeditadas, transcritas de alguma revista especialista em cerveja. Mas, pra mim, basta beber.
O papo de mesa de bar entre Benício e Felício até serviria para compor uma crônica lacônica sobre as gotículas internas no copo de cerveja e o ensejo de poder processar judicialmente a informação na versão que ela se dá. Afinal, quem nasceu primeiro: a sujeira do copo ou o gás que se segura pra sobreviver antes de no mundo vazar? Feito foguete que vai e volta, tanto faz como tanto fez. Porque a dúvida bate na junção de mar em rio de Caraíva ou no Canal de Suez, onde todos nós temos a nossa vez.
-- Vamos ou não pedir outra?
-- Com certeza, sim.
-- E a colombina depende do arlequim?
-- Essa conversa logo em botequim? Coisa mais chinfrim,
Na mesa do lado, arquibaldos vazios, exterminados dos estádios, geraldinos destrambelhados, discutem se o VAR merece sordidez ou vagos aplausos.
terça-feira, 10 de fevereiro de 2026
O amigo da madrugada
Por Edmilson Siqueira
Em 1971 eu já tinha terminado o Clássico no Culto à Ciência no ano anterior e o serviço militar em junho, o que me deixava livre de qualquer coisa - não ia prestar vestibular - e ia dar um tempo pra procurar um emprego.
Assim, comecei acordar tarde, coisa que curto até hoje e, claro, dormir mais tarde ainda. Foi aí que adquirir o hábito de dormir ouvindo rádio.
Eu tinha um rádio Philips, a pilha, com AM e duas ondas curtas (FM ainda estava incipiente no Brasil) e costumava ligá-lo já na cama. Como eu ia dormir tarde, encontrei no dial a Rádio Globo. Isso porque a Rádio Educadora (atual Rádio Bandeirantes de Campinas) saía do ar à meia-noite e na mesma frequência dela entrava a Globo. Como eu ia dormir bem depois da meia-noite, quando ligava o rádio já estava no programa do Adelzon Alvez tocando belíssimos sambas e entrevistando sambistas do morro que ninguém conhecia ainda.
Mesmo depois que comecei a trabalhar, ainda cultivava ouvir pelo menos uma meia hora do programa dele, que começava depois do "Seu Redator Chefe", noticiário da meia-noite na Globo do Rio. Só que logo entrei na faculdade e, trabalhando e estudando, não dava pra ouvir nada. Era cair na cama e dormir. E tinha saudade do programa dos sambas do Adelzon.
Pois dia desses eu vi num desse podcasts do Youtube uma história interessante que envolve o Adelzon que hoje está com 88 anos. Quem conta a história é Edson Mauro, alagoano e radialista famoso da Rádio Globo. Ele diz no podcast que um dia, em 1972, foi procurado pelo Djavan, de quem ele era amigo desde Maceió, que lhe informou que estava voltando pras Alagoas, já que não conseguia mostrar sua música pra ninguém no Rio.
O encontro foi por volta das 11 horas da noite, na Rádio Globo, Edson estava comandando um programa esportivo e Djavan o abordou no último intervalo. Terminou o programa e Edson, sem saber o que fazer a não ser pedir para Djavan ficar, pois conhecia seu talento, viu entrando no estúdio o Adelzon que logo mais iniciaria o seu programa que se chamava "Adelzon Alvez, O Amigo da Madrugada".
Encantado com a produção do moço, Adelzon disse para ele voltar à tarde que ele ia levá-lo até a gravadora Som Livre, onde o diretor estava procurando por jovens talentos. Djavan voltou lá e, com Adelzon Alves, foi para a Som Livre. O resto é história.
O programa na Globo durou 24 anos e depois Adelzon andou por aí, teve um programa em Brasília, na última eleição tentou ser deputado federal e hoje parece que está na Rádio MEC do Rio.
Ele simplesmente descobriu ou ajudou na carreira artística Cartola, Candeia, Nelson Cavaquinho, Zagaia, Silas de Oliveira, Dona Ivone Lara, Geraldo Babão, Djalma Sabiá, Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Clara Nunes, João Nogueira, Roberto Ribeiro, Dona Ivone Lara e Wilson Moreira da Portela. E Djavan, claro.
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026
Quando o cadê a gente não vê
Por Ronaldo Faria
sábado, 7 de fevereiro de 2026
A espirrar poemas e prosopopeias poéticas
Por Ronaldo Faria
Espirro soturno, em credo de quem um dia irá parar, oriundo das entranhas tamanhas e tacanhas que tentam gerir o tempo que resta em Terra. Esferas estrambólicas feito cólicas da Pachamama na sua vida a revoar.
Espirro catastrófico, homônimo do fim. Num soltar de vento em ventania sem cantoria atemporal, dessa que cada gota de chuva traz junto com o temporal. Metáfora de deixar o pulmão respirar em silêncio autoral.
Na luminosidade que a cidade agora dá, faróis tentam iluminar notas em mil bemóis. Nos atóis que ainda restam no mar, a quebrarem as ressacas do amanhã e depois, peixes e sereias brincam com Iemanjá sobre qual é o seu lugar. Na orla orgástica transbordando de prazeres e algozes do amor, casais transitam casualmente no calçadão. Nalguma fresta de janela presta em declarar realidade àquilo que a anuência da sobriedade dá, um olhar Na barraquinha de cachorro-quente o vira-lata caramelo baba de prazer.
No frio que as correntes marítimas trazem para o mar, onde até pinguins podem desaguar, um casal troca beijos que nem milênios próximos poderão decifrar. Assim, nas jusantes das marés, nos revés da vida que singra oceanos e lembranças anchas, um braço surge a navegar ao longe, translúcido e lúdico, a terminar e determinar a cena perene que flutua na lua encalacrada do céu. E assim, assintomática saudade que toda maldade traz, a vida se esvai na tormenta incrédula que nem a fécula mais comível sabe digerir.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026
Anuário planetário
Por Ronaldo Faria
-- E aí, janeiro? Foi bom pra Januário na seca da terra?
-- Cê tá de sacanagem... Claro que não. Não tenho como fazer chover por lá e nem sequer nas vidas secas. Sou janeiro, não São Pedro.
-- E você, fevereiro, deixou o frevo cair na ladeira?
-- Sabe que sim. Também, mesmo que eu não existisse o povo sairia para dançar de qualquer jeito. Como esperar o restante dos dias à frente se não houver um pouco de orgia?
-- Março, você então foi um marco, não?
-- Marco de quê? Só se for do narco. Eu fiz começar de verdade o ano sendo xingado por uma metade e execrado pela outra fatia. Acho que Deus só me criou para sofrer.
-- Mas, abril, esse foi de foder, não?
-- Com certeza, fui sim. Fui do caralho. Bom pra cacete, além da conta. Insuperável. Secular. Inesquecível. Inexequível. Tudo isso e mais um pouco, não fosse meu o dia primeiro.
-- Mas, junho, você arrasou quarteirão?
-- Quarteirão, florestas mil transformadas em gravetos de fogueiras, sanfonas e rodas que terminaram em final que se não dá saudade, dá dor na gente de ser gente.
-- Caralho, mas você, julho, tem que ter sido bom...
-- Pra quem? Só se for pra dizer que a segunda metade já está quase no fim do começo. Sempre ao avesso.
-- Caramba, vocês estão muito deprês. Mas tenho a certeza de que setembro está pra cima.
-- Troque o “i” pelo “o” da sua última palavra e eu estou respondido.
-- Mas, me salva outubro. Você esteve no modo turbo?
-- Acho que você andou fumando um do bom há mês mais ou menos uns meses. Mas larica de tanto tempo eu estou pra ver...
-- Novembro, posso te colocar em destaque? Que barulho foi esse?
-- Tua resposta: um traque...
-- Só me restou você, dezembro. Vê se não me fode geral.
(Silêncio total)
-- Dezembro, dezembro do cacete cadê você? Onde foi parar essa porra de mês? Alguém o viu? Não posso, como calendário, ficar de onze meses. Vocês querem me foder?
Sem resposta posta, o calendário tardiamente descobriu que nem tudo na vida é numeral. Visceral, o tempo escorre no fio tênue que separa o começo do fim. Na sala o prego que segura o tanto de papel rasgado enferruja com a goteira da chuva que brinca de lavar o que ainda restar. No lixo alguém viu o calendário de mês só faltando chorar.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2026
Ao gênio de Irará
Por Ronaldo Faria
Só pra homenagear e desejar vida
mais do que longa, mais do que eterna, longeva além do tempo. Que a Mama Água mumifique sua música.
Para o sempre na eternidade que a maternidade desde a criação nos dá. Assim,
apelo ao apelo (leiam com entonações diferentes que essa língua maluca do
português nos dá) que qualquer santo diz ter e ser de que os quase 90 virem mais tantos e vários oitos em coitos com a criação que a loucura nos (lhe) dá. Hosana, Tom Zé...
domingo, 1 de fevereiro de 2026
Chick Corea e Lionel Hamptom: encontro histórico
O disco se chama, mui propriamente, Chick Corea and Friends =Lionel Hamptom- e, além de ser um encontro especial entre gerações do jazz, registra um espírito de celebração e profundo respeito pela tradição. Gravado em 1978, mas lançado somente no fim dos anos 1980, o álbum reúne Corea à frente de um time de grandes músicos para homenagear Lionel Hampton, que ajudou a moldar a linguagem do jazz desde a era do swing.
Lionel Hampton não foi apenas um virtuose do vibrafone. Foi também um elo fundamental entre o jazz das big bands e a modernidade do bebop. Sua energia explosiva, senso rítmico contagiante e carisma como líder influenciaram músicos de diferentes épocas. Chick Corea, sempre atento à história do jazz, propõe neste disco uma releitura viva e atual dessa herança, evitando qualquer tom meramente reverencial ou museológico.
A formação reúne nomes de peso da cena jazzística norte-americana, músicos capazes de transitar com naturalidade entre o vocabulário clássico e a linguagem moderna. Essa combinação dá ao disco um caráter híbrido: ao mesmo tempo festivo, elegante e intelectualmente sofisticado.
Além de Corea e Hamptom (piano e vibrafone, respectivamente), o grupo foi formado também por Dave Holland, no contrabaixo, Jack DeJohnette na bateria, Hubert Laws na flauta e Woody Shaw no trompete.
Chick Corea atua como curador do projeto. Sem protagonismo excessivo, ele funciona como eixo de diálogo entre os solistas. Em vez de impor uma performance pessoal, Corea prefere abrir espaço para a interação coletiva, respeitando o espírito expansivo que sempre marcou a música de Lionel Hampton. O resultado é um som vibrante, com solos cheios de swing e arranjos que respiram espontaneidade.
O vibrafone ocupa papel central. Seu timbre metálico remete diretamente às grandes orquestras do jazz clássico, mas aqui ele está integrado a uma abordagem mais contemporânea, com harmonias sofisticadas e improvisações abertas. Essa convivência entre passado e presente é um dos grandes méritos do álbum.
O álbum também destaca o aspecto comunitário do jazz. A noção de “and Friends” não é decorativa: trata-se de músicos ouvindo uns aos outros, reagindo em tempo real e compartilhando a alegria do fazer musical. Essa sensação de camaradagem atravessa todas as faixas e aproxima o ouvinte da experiência de uma jam session de alto nível.
Tanto assim é que, no conjunto da obra de Chick Corea, este disco ocupa um lugar especial como um gesto de reconhecimento da obra e da importância de Lionel Hampton.
Assim, o disco se afirma como caloroso, capaz de agradar tanto aos amantes do jazz clássico quanto aos ouvintes interessados na leitura moderna dessa tradição. É uma celebração da memória, do swing e da amizade — valores centrais na história do jazz.
O repertório, todo com espaço para grandes improvisos, é composto de apenas cinco faixas, mas a menor tem quase 4 minutos e meio e a maior mais de dez minutos:
- Seabressze (Chick Corea)
- I Ain't Mad At You (Chick Corea e Lionel Hamptom)
- Moment's Notice (John Coltrane)
- Blues for Oliver (Lionel Hamptom)
- It Don't Mean a Thing If It Ain't Got That Swing (Duke Ellington e Irving Mills)
O CD pode ser encontrados nos bons sites do ramo e pode ser ouvido na íntegra no YouTube em https://www.youtube.com/watch?v=OnpsExv3hZA .
*A pesquisa para este artigo teve o auxílio da IA do ChatGPT.
sexta-feira, 30 de janeiro de 2026
Devaneios do meio...
Por Ronaldo Faria
-- Claro que vale. Sem ela não existiria a criação.
O papo, diáspora da vida, segue na mesa regada de copos que descem gargantas a dentro. E segue em insolvências vestais, carências letais, saudades mortais. Rompe métricas e rimas, se absorve de sordidez ou amores límpidos, desses que a gente ama até o fim da vida. E não importa se a amada não abrirá a porta, se a vida estiver ávida e torta ou o prenúncio da coisa finda irá vingar. Nos goles que parecem gaitas de foles a contar passado e presente, a cantar presságios e hediondos clamores, o importante é singrar mares e voltar aos portos rotos e impróprios que cada amanhecer nos dá.
-- Uma boa noite a todos nós, sem nós futuros no destino.
-- Coisa bonita. Pensou agora?
-- Rolou João Bosco e o Bêbado e o Equilibrista. Afinal somos isso mesmo...
-- Aí sim, com certeza. Sobremaneira.
No invólucro envolto da cena, que podia ser em Londres ou Barbacena, a pena do escritor se derrama para o alvorecer em que ele nem devia se meter. No imbróglio que vidas se espremem e viram tragédias, comédias ou roteiros para tangos, o tempo temporiza entre a orgia e a coriza. Gosto de incenso indiano na boca, sem saber se engolir masala dá barato, vão os dois em ambos num só a seguir na loucura que a transitória rima dá.
-- Cacete, precisava segurar o incenso na boca pra fechar a caixa?
-- Não, mas não me peça lucidez na fluidez da criação. Se der merda, deu. Logo, oremos a Deus...
O som agora traz Chico Buarque como baluarte daquilo que pode vir a rolar. Na singularidade do lugar, um louco se põe a declamar. Para o mundo, o tempo está apenas, sob a pena, a declinar. O momento, fugaz, traz ao nada a solidão do lugar. E eis que em decúbito o súbito espera a incerteza da ilusão chegar. Nesse quadro, o súdito do destino dorme em desatino na esperança da felicidade poder cantar.
quarta-feira, 28 de janeiro de 2026
Entre um gole e outro
Por Ronaldo Faria
Santos na chuva
Por Ronaldo Faria Os santos se entreolham durante a chuva mansa que cai fora da pequena capela perdida na estradinha de terra que ri de f...
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Por Ronaldo Faria O CD Cazas de Cazuza – A Ópera-Rock é de 2000. Dez anos após a sua morte, vítima da Aids. Dos discos que homenagearam d...
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Por Ronaldo Faria -- E aí, vamos? -- Claro. Só se for agora... Carlos e Kelé, amigos de infância, suburbanos desde os primeiros panos de ...















