quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Notícias de um Brasil

 Por Ronaldo Faria

 

-- E aí, me manda notícias do Brasil!
-- Boas ou ruins?
-- Tem escolha?
-- Não.
-- Então, manda ver.
-- Vai lá. Primeiro as boas. No final desta semana recomeça o Carnaval. Quer dizer, o oficial. Ele mesmo já está rolando extraoficialmente desde janeiro. Ou seja, gente na rua lotando blocos e ruas, avenidas. Muito agarra-agarra, beijos e sorrisos. O sol está ajudando e muito. Tem batido os 40 graus pela manhã, 50 ao meio-dia e fica nessa batida até o anoitecer. Aí cai para uns trinta e tantos, para aliviar a cuca da moçada que ninguém é feito de carvão em brasa.
-- Porra, então é o bicho!
-- Com certeza. E põe bicho nisso. Na verdade, as apostas nesse velho jogo tradicional estão à mingua. Apesar da atual longevidade da população, velhos saem menos de casa para apostar. Falta de grana e medo da violência. A onda agora por aqui é jogar a sorte no celular. Aposta na encolha e perde-se e ganha-se que nem. Quer dizer, ainda mais se perde. Mas essa não é a lógica do jogo?
-- Deve ser. Mas conta mais coisa boa.
-- Apesar do verão causticante, não faltou cerveja no mercado. Só não bebe quem não quer.
-- Aí sim...
-- As praias estão lotadas de gente morena, sorrinte, entregue às ondas e a possibilidade do amor carnal, espiritual ou similar. Daqui a nove meses veremos no que deu tudo isso.
-- O amor é lindo!
-- Decerto. Incerto é o sofrimento do depois.
-- Parou por aí?
-- Não. O samba de raiz, independente da época do ano, continua no coração da gente. A bossa nova também tem seu pedaço no batuque das emoções. Há senões também. Surgiu muita coisa ruim como “canção”. Mas aqui vou falar só das coisas boas. Deixe o restante esquecido. Ah, ainda estamos numa democracia. Frágil, quase pueril, onde os poderosos continuam a viver no céu das benesses e vários porcentos e o povo sobrevive das migalhas que caem daqui e acolá. Mas tem sobrevivido o tal de voto e coisa e tal. Ou seja, os eleitos de hoje são, pelo visto, cara e desejo da vontade popular. Quem sabe no próximo ano o tal de Congresso não terá gente a pensar mais no povão... Só que acho que não.
-- Vale torcida?
-- Claro que vale.
-- Então já comprei a camisa oficial e a bandeira pra na arquibancada da democracia vibrar e torcer que cada um veja no voto a sua própria vida.
-- As matas resistem à morte e a serra elétrica, em menor número e verde, mas se espraiam verdes e lindas, não tímidas, no que restou. Tem uma ou outra cachoeira a verter das montanhas água boa, praias com peixes, mesmo com seus plásticos a vomitar, um pássaro ou outro que chega nas manhãs para cantar sua paz.
-- Nossa, deu até vontade de voltar.
-- Não faça isso. Agora vou começar a falar das coisas ruins.
-- Precisa?
-- Foi você quem pediu. Lembra?
-- Mas acho que agora não quero ouvir. Melhor não. As coisas aqui estão meio ruins. Querem expulsar todos nós. Uma tal de xenofobia, como se o ser humano não fosse desde seus primórdios e surgimento um caminhante errante na busca de vida melhor. Trabalhamos no subemprego, ralamos por poucos centavos o sonho do sonho ultramarino ou continental, passamos apertos e saudades mil. Mas acreditamos que aonde agora há dor um dia existirá clamor de vitória e fé. Dá pra ficar só nas coisas boas?
-- Vá lá. Vou quebrar teu galho.
-- Obrigado. Valeu.
-- Opa, pera aí. Esqueci algo importante.
-- Puta merda, que não seja bosta!
-- Não é. O Flamengo está foda esse ano!
-- Meu Deus, aí você salvou minha semana de vez. Vida longa ao nosso Mengão! Mas agora deu o horário de descanso, vou ter de desligar.
-- Tudo bem. Valeu te ouvir.
-- Valeu por mim. E lembra: as coisas ruins guarda só pra ti. Ser brasileiro à distância é, como diz o hino, florão da América, iluminado ao sol do Novo Mundo! Fui!
 
(No som do grande Eduardo Gudin e Notícias Dum Brasil 3 Tempos)

terça-feira, 13 de outubro de 2026

Ser e estar

 Por Ronaldo Faria


Tem gente que acha que a gente é feliz só por ser. Tontos ou loucos o são. Certamente, na mente, não viveram o passado gasto no trato tétrico de lembrar, não revoaram o voar de desejos de felicidade, não sonharam em deitar e dormir feito mero sonhar. Pesadelos, por fim, seriam raros desmazelos sem zelo.
Tem gente que, alforriada da realidade por alguma fada madrinha, dessa que esquadrinha cada minuto da vida, crê que o importante é só ser e estar. Decerto tal assim será. Naquilo que restar, um quilo de desejo sombrio de na madrugada se matar. Mas, na inflação da vida, cada grama vale algo de tonelada mais.
Tem gente que, desmemoriada ou embriagada, não consegue ver além do próximo e próprio olhar. Dorme sem acordar e enxergar o luar brejeiro a se esconder nas nuvens parcas que a tempestade enlouquecida esqueceu. Mas, ser e estar não são algo a se procrastinar? Gentílico, o poeta sem saber apenas poetiza. E vê o tempo passar...

domingo, 11 de outubro de 2026

Gal canta Jobim

 Por Edmilson Siqueira 



Um dos DVDs mais preciosos da minha pequena coleção é "Gal Costa Canta Tom Jobim". No folheto que acompanha o disco, um artigo escrito pelo grande Mauro Ferreira revela a excelência do produto: "Ao pisar no palco da casa paulista Palace, em setembro de 1999, para registrar ao vivo, em disco duplo, o show "Gal Costa Canta Tom Jobim", a cantora Maria da Graça Costa Penna Burgos reencontrou de certa forma a tímida menina baiana Gracinha, que ouvia, maravilhada, as canções bossa novistas de Tom na voz de João Gilberto. Era como se, naquele palco, Gal fechasse um ciclo de 35 anos de uma carreira das mais importantes na história da Música Popular Brasileira. Foi em 1965 que ela, contratada pela antiga RCA Victor (atual BMG), inaugurou sua discografia que trazia músicas de seus amigos e conterrâneos Caetano Velos ("Sim, Foi Você") e Gilberto Gil (a confessional "Eu Vim da Bahia"). E assim se passaram não 10 anos - como diz a letra do clássico bolero regravado por Gal em 1979 no disco "Gal Tropical" - mas 35 anos de compromisso com a melhor produção musical brasileira." 
Como se vê, estamos diante de uma sequência de obras primas do mestre Tom Jobim cantadas por uma das mais expressivas cantoras que a MPB já produziu. Gal faz parte de uma turminha que jamais deixou por menos: Elis, Elza, Elizeth e ela formam um quarteto imbatível, uma espécie de Olimpo da voz feminina brasileira. E, como toda grande artista, se juntou ao mestre soberano para registrar, ao vivo, 24 obras do nosso maior compositor popular. 
A produção do DVD é refinada. Além dos 80 minutos de puro prazer ouvindo Gal cantar Tom, também são oferecidos extras como legendas em inglês e espanhol, porque, claro, o disco deve ter corrido o mundo, como toda obra de Jobim. E um pequeno depoimento de Gal falando sobre como conheceu a música de Jobim e também sua relação de amizade com o compositor. Gal revela que, um dia antes de partir para Nova York para fazer um check-up, eles conversaram por telefone e combinaram que, na volta, eles se encontrariam para fazer um disco juntos. Infelizmente, não deu tempo, senão teríamos, com certeza, um disco à altura de "Elis & Tom", considerado por muitos como um dos melhores de toda a história da nossa MPB. 


Para a gravação do DVD, Gal se vestiu com roupa de gala. Claro que a simplicidade exterior da bossa nova e de muitas músicas de Jobim, contrasta com os acordes complicados, com o acompanhamento jazzístico e com a reverência que a música ganhou no mundo. Talvez por isso, Gal esteja elegantemente vestida, contrastando com aquela Gal mais despojada de seus shows. 
As músicas escolhidas para o show são mais que representativas de quase toda a carreira de Jobim. Além do onipresente Vinicius de Moraes, apenas outros quatro nomes aparecem: Newton Mendonça, Dolores Duran, Chico Buarque e Ray Gilbert. Aliás, esse último parceiro é meio controverso. É que há um outro, Gene Less que, numa entrevista, contou alguns fatos estranhos sobre a letra de "Bonita".  
Disse ele, segundo a Wikipedia:  "Jobim deu a letra que fiz para Bonita, que eu havia escrito em Nova York, para Ray Gilbert, que alterou uma ou duas frases e colocou seu nome nela. Se você olhar os créditos na contracapa do álbum intitulado "The Wonderful World of Antonio Carlos Jobim" você verá que o crédito de compositor em Bonita é Jobim/Gilbert. Gilbert produziu um álbum para a Warner Brothers no qual ele usou a música novamente, novamente levando o crédito pela letra... Fiquei furioso com ambos os discos e levei o assunto à American Guild of Authors and Composers. Uma audiência foi organizada, com Sheldon Harnick como presidente, e eu apresentei as provas da minha autoria. O comitê decidiu que era de fato minha letra, total ou parcialmente... A controvérsia sobre Bonita foi um dos motivos pelos quais me separei de Jobim."   
Controvérsias à parte, "Bonita" é uma das joias que Gal canta no disco. E há muitas outras. Claro que algumas podem ser preferidas do público, como "Garota de Ipanema", "Desafinado", ou "Corcovado", mas não há, entre as 24 gravações, nenhuma que possa ser classificada de "mais ou menos". São todas muito bonitas e excelentemente interpretadas por Gal Costa.  
Segue a lista (as músicas sem autores são de Jobim. Onde há parceria, o nome do parceiro aparece): 
- Fotografia 
- Por Causa de Você (com Dolores Duran) 
- Garota de Ipanema (com Vinicius de Moraes) 
- Derradeira Primavera (com Vinicius de Moraes) 
- Wave 
- Brigas Nunca Mais (com Vinicius de Moraes) 
- Discussão (com Newton Mendonça) 
- Piano na Mangueira (com Chico Buarque) 
- Esquecendo Você (com Vinicius de Moraes) 
- Chega de Saudade (com Vinicius de Moraes) 
- Samba do Avião 
- Anos Dourados (com Chico Buarque) 
- Desafinado (com Newton Mendonça) 
- Tema de Amor de Gabriela  
- Lígia  
- Janelas Abertas (com Vinicius de Moraes) 
- Corcovado 
- Falando de Amor 
- A Felicidade (com Vinicius de Moraes) 
- Frevo (com Vinicius de Moraes) 
- Se Todos Fossem Iguais a Você (com Vinicius de Moraes) 
O DVD está à venda em todos os sites do ramo e também pode ser visto e ouvido na íntegra em https://www.youtube.com/watch?v=lDwt6ajCjlY&list=PLQbQDjAzaXz9XsZlHDlzOZq8wHQIwP9P0


 . 

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Descobertas às cobertas

 Por Ronaldo Faria

 
-- Pra virar parceria acho que faltou maestria. Ou um cara mais ligado do logon.
-- Mas uma só canção já não está bom?
-- Se você pensar num só tom, tá.
-- Então já foi. Está tudo nos conformes: escreveu, publicou, fez música, plantou árvores, teve filhos, amores, dores, alegrias e vida. Até a dor da morte. Deu!
-- Tem razão. Só nasci no tempo errado. Onde foda se faz sem antes se ouvir um fado. Fosse antes... até flores surgiriam nas mãos da amada.
-- Não existe antes. É só o agora e aquilo que foi. O resto é delirar. Para e pensa: cada um no seu quadrado. Você até que avançou bem além.
-- Amém! Oxalá!
 
II
 
-- Next year, baby!
-- Uai?
-- Nada. Só queria delirar que falo a língua do opressor.
-- Deveria ter pensado isso décadas atrás.
No derredor, sob um sol escaldante e flamejante, o casal se acasala agora no chão da churrascaria a servir a melhor peça bovina da Argentina.
 
III
 
O Carnaval está chegando e o oceano que bate em Recife surge e ressurge, ruge e urge nas costas que trazem até tubarões. Em Olinda, essa coisa repetitivamente linda, casarios e rios de lágrimas descem e sobem ladeiras nas maneiras que se há, a beber delírios. Na vaga devassa que desabrocha da rosa esturricada, a calada prosa que se arranca da voz calada do poeta sem voz. Atroz, o Cordel do Fogo Encantado grita que sonhos há, aqui. Na grandiloquência da ciência que a aquiescência dá, brincadeiras se incandescem em burburinhos feito os ovos passarinheiros surgem nos ninhos de um já morto janeiro. Na luz da veia, vertigens ligeiras. Só irá desmaiar quem em si não conseguir se ouvir. Daqui, algo, decerto, ainda haverá de surgir.
 
IV
 
-- Como esperar que algo surja de bom no beneplácito do tempo enfumaçado?
-- Não espere. Do segundo seguinte nada há a se esperar. Viva o agora que logo poderá ser nada ou apenas finito depois. Se dispa de crenças e esperanças, surgir de salvadores e odores de suores e corpos quentes a se trocarem em beijos e líquidos. Se deixe liquefeito como fosse tudo perfeito. Refeito da realidade, se jogue na própria cidade. Embriague-se. Faça da dor, como diz o poeta, “da madrugada um samba”. Bambo, na corda bamba da vida, balance na insípida retina. Enxergue enquanto há algo a olhar. Respire o odor que possa te pirar. Aqui ou em qualquer lugar, transborde de gargalhar bêbado e ébrio. Afinal, o que é a realidade além de um mero tédio? No prédio, certamente, mora alguém no seu etéreo presídio e credo.
 
V
 
Os atabaques tocam e entortam trajetos dos fetos que nunca nascerão e bordões das famélicas diásporas do senão. No sumidouro que se perfaz e apraz, os sons do Nordeste preste a lembrar que há uma carta nunca escrita assim: “Que merda que tudo se deu. Coisa cortada de forma uníssona por duas tias que se arvoraram em ser donas da verdade e do destino futuro. E cravaram que ‘daqui nada vai sair’. Afinal, quem lhes deu esse direito? Crias doidas em genes passados? Mas tem que ser tudo assim, fato determinado? A ciência hoje diz que não. Mas o que esperar de ambas num tempo sombrio? Que na eternidade estejam felizes no seu varal. Afinal, alguém, nalgum lugar, escutou seus sinais.”
 
VI
 
Gedeão, irmão de perdão, anfitrião da solidão, pede um momento de ser ouvido.
-- Vamos tocar a boiada? Afinal de nós pouco ou nada mais se espera.
-- Monta logo no tordilho e segue a trilha esturricada de seca e louvor.
-- Que assim seja, meu irmão.
No trote dos passos dos quadrúpedes descompassados, vão ambos na doidivanas vida a gastar minutos que ainda têm de viver, a ver. No pisar das ferraduras duras que se prendem com pregos nos animais, a certeza incerta de que viver é ser. Seja lá o que isso for. Na tela esteta e cadavérica de toques de letras negras ou pretas, algo viaja das cabeças ao se largar no insípido lagar.
 
VII
 
No táxi lunar um Uber que sequer saiu do lugar trafega trôpego e sôfrego no nunca feito viajar. Diáspora anacrônica e cômica do que existe entre ser e desejar, balaústres bailam a soprar no incongruente da mente a criar. Na compaixão que a paixão povoa sem saber aos tristes o que dizer, a procissão proseia com Deus o adeus que se dá a cada chegar. No frevo que surge a cada mulher, a brejeira satisfação de que para ser feliz basta se crer na solidão.
 
(Com nordestinos cantores e seus louvores)

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Sorte é a puta que pariu

 Por Ronaldo Faria



-- E aí, sortudo?
-- Tá de sacanagem?
-- Como assim?
-- Porra, você sabe. O mundo cai do céu e fode meu barraco, inunda de água e frustração tudo em volta, traz até a tal de dengue junto, e você vem dizer que eu tenho sorte?
-- Desculpa. Fica calmo.
-- Calma? Tenho isso desde que Noé resolveu juntar um barco cheio de bichos prontos só pra se comer ou trepar. Acho que já deu...
-- Para com isso. A vida é bela, só nos resta viver!
-- E que caralho tenho feito até agora? Aqui o trem já passou, foi e voltou e eu esqueci de ficar de prontidão na estação.
O sol, desses de ferver trilho de aço e enlouquecer mesmo burguês em temperatura refrigerada de menos três graus, certamente havia frigido o cérebro de Abraão. Também quem mandou trabalhar de operário na expansão do metrô que existe só para fazer valer os 30% do deputado que trabalha para seu estado.
-- Cacete, Jorjão, segura essa tua onda de ver algo de bom em tudo. O que bom tive hoje? Me aprumei todo, sonhei desembestado, esperei, acreditei. Pra quê?
-- É porque algo melhor ainda está por vir. Levanta as mãos pro céu.
-- Isso se algum amanhã ainda chegar pra gente ver...
A cerveja quente nos copos copula com o suor que cai vidro americano a fora.
-- Chico, manda outra pra essa mesa de plástico cagado!
Com cara de pouco ou nenhum amigo, o garçom só tem uma resposta posta: “Devagar com o andor. Aqui também tem um operário de salário mínimo”.
-- Abraão, a gente não sabe os caminhos e descaminhos desse mundo. As coisas vão acontecendo e sequer sabemos se o tal de destino é sacana ou bacana. Ao menos a gente pode encher a cara. E amanhã, na ressaca, achar que tudo é sol raiando mesmo no maior breu.
-- Puta que pariu, virou esses caras que faturam com autoajuda para otários?
-- Não. Só acho que sempre tem algo no ar que a gente não vê.
-- Sei, tipo astrônomo, meteorologista ou vidente?
-- Pode ser...
-- Cara, você é muito fora do prumo. Prefiro essa minha realidade maldita.
-- Pra quê?
-- Para não correr o risco da gente achar que essa bosta pode ainda foder tudo mais daqui pra frente.
-- Mas viu, o dilúvio sumiu e voltou. Não é milagre?
-- Chico, traz uma porção de jiló frito e vinagre!
-- Viu, até fez rimar a merda em poesia...
O tempo agora lá fora é de calor menor e estupor. Quem estava de guarda-chuva até acredita que a noite será festa. Na fresta que se incesta presta, a alegria de fim do dia sai dos pássaros a buscar seu aninho. No boteco, quase vendinha, a vendeta é saber se pecado é querer crer ou se querer acreditar é o pecado da vez...

(Com Celso Fonseca, porque alguém nessa vida tem de ser porreta)

terça-feira, 6 de outubro de 2026

O brilho dos Stones aos 45 anos

 Por Edmilson Siqueira 



Tenho uma pequena coleção de DVDs, pouco mais de 40. A maioria é de música, mas há também alguns filmes, como a trilogia de “Godfather”, a também obra prima “Pulp Fiction”, filmes dos Beatles (“A Hard Day’s Night” e Help) e um ou outro documentário, como a saga do meu time na conquista da terceira Libertadores em 2005 ou um panorama de Campinas na década de 1950. 
Mas, como disse, a maioria é de apresentações musicais realizadas especialmente para a produção do DVD e, uma ou outra, tirada de séries televisivas ou de várias apresentações. Nesses dois últimos casos, duas quase raridades: uma coletânea dos programas de televisão de Nat King Cole (que durou só um ano por puro racismo de eventuais patrocinadores) e outra de várias apresentações do “Credence Clearwater Revival”, um grupo de muito sucesso no fim dos anos 1960 e início de 1970, cujas músicas tocam até hoje por aí. 
Como, depois de centenas e centenas de artigos sobre os CDs que tenho, o estoque está acabando, resolvi me dedicar um pouco aos DVDs. 
E como escrevi sobre um membro dos Rolling Stones no último artigo, prossigo aqui com o grupo completo e um DVD especial deles. Gravado em duas apresentações, em 2007, no Beacon Theatre de Nova York, o filme é dirigido por ninguém menos que Martin Scorsese e foi lançado no ano seguinte. 
"Shine a Light", esse é o nome do disco, é simplesmente uma apresentação especial dos Stones em comemoração aos 45 anos da banda. O DVD ainda oferece como "extras" um "making of", um "slide show", um "trailer" e quatro músicas. 
A crítica brasileira adorou. Na contracapa do DVD, estão duas citações. Uma do jornal Valor Econômico: "O filme de Scorsese e dos Stones é um convite para a festa. Vendo-o minha vontade era de ficar em pé, bater palmas e cantar junto". A outra é do extinto e saudoso Jornal da Tarde: "O espectador respira o mesmo ar que Jagger, Richards, Wood e Cjarli Watts". E junto com os quatro Stones (hoje são só três, já que o baterista Charlie morreu em 2021), também estão, em participações especiais, Christina Aguilera, Buddy Guy e Jack White. 


Como esse elenco e essa direção, o resultado só poderia ser primoroso. E, como se não bastasse essa qualidade toda sobre o palco, a comemoração só teve músicas que os roqueiros e fãs da banda consagraram como grandes sucessos. 
O filme começa mostrando o caos da produção do espetáculo. Sim, caos. Um Scorsese preocupado com o filme e os artistas preocupados com as músicas. Há várias listas e nenhuma é a certa. O palco montado no teatro, para caber o grupo, os músicos acompanhantes e as câmeras (várias delas, fixas ou não e, pelo menos uma, sobrevoando o palco) não agradou Jagger. E há convidados ilustres, como o Jimmy Carter, presidente dos EUA que chegou com 30 convidados. E, por fim, alguns segundos antes do show começar, Scorsese recebe a lista final das músicas e, então, orienta a câmera principal para focar no solo de guitarra de Keith Richards que inicia "Jump Jack Flash" para delírio da plateia. 
Ao fim da primeira música, o filme é interrompido para um pequeno depoimento de um jovem, quase imberbe, Mick Jagger, dizendo que já estava cantando há dois anos e não imaginava que fariam sucesso e que, talvez, durassem mais um ano ou dois.  
Depois da quarta música, surgem flashes de apresentações no início da banda e trechos de entrevistas com os jovens Stones, ainda tímidos diante da imprensa, bem como trechos de reportagens de prisões de Jagger e Richard em diferentes países, por porte de drogas ou alguma arruaça.  
O DVD se encerra com a música "Shine a Light", precedida da inevitável "Satisfaction". Na última, Scorsese queria uma iluminação total e o técnico lhe avisa no início do filme: "Se eles ficarem mais de 18 segundo sob essa luz, eles vão arder!". "Arder como?, pergunta o diretor. "Vão arder, queimar, incendiar!". Scorsese se assusta um pouco e diz: "Nós não podemos queimar Mick Jagger". No fim, todos saem, ilesos.  
Segue a sequência das músicas. As que não são da dupla Jagger e Richards estão acompanhadas de seus autores. 
"Jumpin' Jack Flash" 
"Shattered" 
"She Was Hot" 
"All Down the Line" 
"Loving Cup" – with Jack White 
"As Tears Go By" (Jagger/Richards/Oldham) 
"Some Girls" 
"Just My Imagination" (Norman Whitfield/Barrett Strong) 
"Far Away Eyes" 
"Champagne & Reefer" (Muddy Waters) – with Buddy Guy
"Tumbling Dice"  
"You Got the Silver" 
"Connection"  
"Sympathy for the Devil" 
"Live with Me" – with Christina Aguilera 
"Start Me Up" 
"Brown Sugar" 
"(I Can't Get No) Satisfaction" 
"Shine a Light" 
O DVD pode ser comprado nos bons sites do ramo e pode ser visto e ouvido na íntegra em https://www.youtube.com/watch?v=3P39TJ6J-Wk&list=PLXPnQelBVFNf27EXSaPv-Hn1rZL_VyphF

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Papo de não saber o que 2

 Por Ronaldo Faria 


Relembrar. Destravar. Desgovernar. Recordar. Falar. Calar. Coisa pungente. Dor gemente. Demente. Da gente. Candente. Cadente. No tempo destemperado. Dependurado na solidão que geme. E treme. Cansa. Dança. Rodopia. Dependura-se no parapeito. Ruma sem destino e sem jeito. Mal pensa no passar e repassar. Feito escola de samba a desfilar...

sábado, 3 de outubro de 2026

Papo de não saber o que

 Por Ronaldo Faria


-- Fodido é fodido e meio?
-- Pode ser ou não.
-- Como assim?
-- Depende. Se você estiver virado para a parede ou meio embriagado, é meio. Se estiver de frente no alvo e bombado, vem merda por aí.
O papo quase escatológico de João e José vem sem pé e nem cabeça. Na retreta da treta, histórias diferentes e rentes. Descrentes e tementes de inviabilizar amizade desde a infância que já se foi desde seis décadas, seguem bêbados e unilaterais a se ouvirem na cabeça de cada um (que na verdade é uma mesma e só).
No mundo que inunda o profano devasso e retórico há pouco a deduzir. Talvez um luzir de faróis, anzóis que jogamos ao léu à felicidade pescar, retreta de tango tangente e pungente. Na verdade, de verdade verdadeira que se esgueira na solidão, há ao menos um espelho que reflete a felicidade num pedaço de dia à revelia. Meio realidade e outro tanto de nostalgia. Catarse que surge e arde à perfídia para se tornar somente si. Ensimesmada de saudade e vontade de ver, falar, beijar. Na volúpia que somente Cazuza sabe cantar. Aqui e na loucura, outro lugar.
-- Afinal, me responde: fodido é meio fodido ou fodido e meio?
-- Sei lá, caralho. E nem estou aí para saber.
Diante do colóquio sem noção da mesa, Gastão, garçom que conhecia há tempos os dois, coloca logo um balde com seis garrafas deitadas no monte de gelo a suar.
-- Valeu parceiro nosso. Os dez por cento estão cravados, marcados e garantidos.
Do garçom surge um riso claudicante. E a conversa ressurge no mesmo instante.
-- E aí, crava ou não crava?
-- Porra, João, se é tão importante pra você, vai. Foda-se, irmão.
No som do local rola Águas de Março. E ainda estamos em fevereiro fervendo a mil graus.
-- Vamos parar. Nosso escriba tomou uma garrafa de vinho e a tal cerveja alemã de 500 ml.
-- Paremos. Deu! Deixemos pra discutir a vida quando estivermos apenas na loucura que já temos por genealogia e DNA.
-- Isso. Posso dizer algo de coração: você é do caralho.
-- Eu sei, eu sei...
-- Sabe nada. Precisa de mim pra fazer valer.
No entorno, no torto desvencilhar do mundo, o tempo é atemporal e pira, decepcionado, por ser apenas algo pirado.
-- Cacete, cadê a erva que você sonhou que o doidão da terra da maconha achou que ia rolar? 

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Com a cinta magnética e Caetano

 Por Ronaldo Faria


Caetano a caetanear, ao limite entre a loucura, a sanidade e a tudo apraz que nos traz paz. No corpo uma cinta que, creiam, magnetiza tudo. E a dor se esvai. Cai num vai e não vai. Loucura? Sei lá. Pode ser. E nem fumamos aquele do bom que dá o tom. Como pode algo de tão pouco dinheiro valer um tempo inteiro? Tanta dor e vontade de morrer e se juntar à filha que dorme em cinzas do lado existia? Ainda há, sobre a filha. E sumir e se deixar afogar na contemporaneidade que a idade já não dá. Talvez a certeza incerta de que exista algo além do mar. E o mar aqui se faça qualquer lugar. Nos milhares de quilômetros a trilhar.
Caetano a ser beta e Bethânia. Epifânia e drama. Coisa de expressa certeza do universo que o verso em veredas se envereda por nada ou qualquer dor. Ou seja, seja o que tiver de ser e for. No louvor dos orixás e chás alucinógenos, presenças de bares de esquinas como uma cidade em bar. A desabar. Como na fuga do louco de um grupo saudoso e sem que ninguém desse a mínima sequer. Mimetizado e alcoólico, volátil e calado nos seus gritos fundados em anos de ser, a certeza errante do navegante. E assim, entre a sanidade e o outrossim, nos cantaneemos e insurjamos nos trajetos dos fetos àquilo que ainda temos a decantar. Ou... 

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Quem sabe não tem volta

 Por Ronaldo Faria


-- E aí? Vamos falar dos tais tormentos?
-- Nem fodendo.
-- Por que não?
-- Por que não quero. Isso não basta?
-- Claro que não. Você é meu paciente. Está ciente disso?
-- Estou. A minha conta bancária sabe bem disso. Nunca no pagar fui omisso.
-- Não estou falando de dinheiro. E sim do seu aconchego.
-- O quê? Será mesmo?
Astrogildo, puto da vida, responde as perguntas do seu psicanalista. “Caralho, deixei de ver Flamengo e Vasco para estar aqui escrevendo a toa E esse corno, “doutor”, quer saber se estou bem? Pau no cu do angu!”
-- Astrogildo, você ouviu o que eu perguntei?
-- E você, seu babaca, sabe se o Arrascaeta fez um golaço no time mais rebaixado do Rio de Janeiro?
O psicanalista, quem nem precisa de diploma de Medicina ou Psicologia para dizer o que é certo ou errado (mesmo sendo nada), fica estarrecido.
-- Como assim?
-- Preciso repetir ou mandar você tomar no cu uma vez já não é o bastante?
Astrogildo, certo de que ao menos agora irá irritar seu vizinho com os gritos de gol, levanta e sai do consultório. Desce à rua feliz e refeito de si. Amanhã, se tiver ressaca da falta de remédios tarja preta, não haverá problema, No dilema sobrenatural, no fonema atual de continuar infeliz ou não, sabe que tudo depende apenas de si. E assim se traduz na luz etérea da tela que pisca e brinca de uns como Caetano Veloso cioso de cantar o mundo musical.

domingo, 27 de setembro de 2026

Keth Richards e as cinzas do pai

 Por Edmilson Siqueira 


"Keith Richards cheirou as cinzas do próprio pai". Essa frase andou circulando por aí por um bom tempo. E não era pra achá-la um absurdo, afinal, o Rolling Stone era famoso por ser um grande consumidor de drogas aspiráveis. Claro que aspirar cinzas, seja do que ou de quem for, não é uma atitude, digamos, saudável. Claro que aspirar drogas também não é, mas a consequência de uma deve ser bem diferente da outra. Digo "deve ser" porque jamais cheirei qualquer droga (se tivesse cheirado eu diria tranquilamente). Imagino que cocaína, por exemplo, deva dar uma sensação prazerosa em quem a cheira e cinzas, bem, cinzas deve ser horrível.  
Pois a história de que Keith havia aspirado os restos mortais transformados em cinzas de seu pai correu o mundo, a ponto de até Ruy Castro, em sua coluna da Folha, um dia ter escrito isso, no meio de um texto pertinente. 
Como tenho com Ruy uma espécie de amizade epistolar (nós só nos encontramos uma vez, em Campinas, para uma entrevista e, alguns anos depois iniciamos uma esporádica correspondência por e-mail que já dura mais de 30 anos e uns duzentos e-mails), escrevi pra ele dizendo que a coisa não era bem assim, que Keith não cheirou as cinzas do pai como andaram dizendo por aí. 
E, para comprovar, mandei o trecho do livro "Vida", autobiografia do velho Stone. Está lá a história, na página 610: "Bert tinha morrido em 2002, mas a memória dele foi abalada antes de Doris (a mãe de Keith) por causa de uma grande história criada na imprensa por um jornalista que alegou que eu revelara ter cheirado um pouco das cinzas do meu pai junto com uma linha de cocaína. Houve manchetes, colunas, editoriais sobre o canibalismo, foi um ressurgimento daquela velha indignação puritana contra os Stones. Dizem que John Humpphrys perguntou ao vivo no rádio no horário nobre: 'Você acha que desta vez Keith Richards foi longe demais?' Mas o que ele quis dizer com desta vez? Também houve artigos dizendo que aquilo era algo perfeitamente normal, que a ingestão dos nossos ancestrais era algo que remontava à Antiguidade. Havia duas escolas de pensamento. Como sou macaco velho, declarei que a coisa tinha sido tirada fora do contexto. Nem neguei, nem confirmei. "A verdade é que" - lia-se num memorando que escrevi para Jane Rose quando a história ameaçou fugir do controle - "depois de guardar as cinzas do meu pai numa caixa preta por seis anos, e porque eu realmente não tinha coragem de espalhá-las ao vento, eu finalmente resolvi plantar um carvalho-vermelho ao redor do qual eu espalharia as cinzas. Quando destampei a caixa, um pouco das cinzas dele voaram e foram parar na mesa. Eu não podia simplesmente espanar meu pai, então passei o dedo nas cinzas e cheirei o resíduo. O pó retorna ao pó, o pai retorna ao filho. Ele agora está ajudando um carvalho a crescer e, tenho certeza de que teria ficado muito orgulhoso disso". 


Ruy me respondeu, brincando, que quando a lenda é melhor que a história real, publica-se a lenda.  
Mas, como se vê se vê há um pequeno fundo de verdade na história que, obviamente, foi aumentada às alturas por alguém em busca de publicidade (fosse atualmente, eu diria de "likes" e compartilhamentos) até virar uma lenda. O fato é que, com ou sem cinzas, Keith Richards, Mick Jagger e Ron Wood continuam na ativa para alegria geral do milhões de apreciadores do bom e velho rock'nd roll. 

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

À cátedra da catedral

 Por Ronaldo Faria


A carótida bate na hóstia. O padre, disperso no seu amplexo, errou a boca do fiel. Assim, o milagre vira fel. Sob o véu de Maria, a carola fica espantada. O pobre sacristão vê-se atônito e crônico na sua asma: “Certamente foi carma” - pensou. No silêncio da catedral, só a sacristia gera o murmurar da mulher que conta seus pecados depravados a Deus. “Comprei um vestido que não cabia no orçamento”, diz arrependida. “Reze dez padres nossos e quinze ave marias”. Na penitência permitida, vai a mulher a sorrir e pensar no próximo e perdulário crediário. Do lado de fora da igreja, mendigos indignos de perdão pedem centavos aos salvos de suas dores em oração.
No ponto de ônibus, Aderbal espera chegar o circular. A pulular, a turba caminha em idas e vindas para chegar e voltar. E sua sob o sol, exala sal dos poros sem o quadro erótico que se faz quando estão em dois corpos deitados e nus a se amar. Nos pontos de ônibus, cones dividem onde estar ou não. De um lado, alegria. Do outro, solidão. No meio de tudo, o soturno dispor que existe entre a felicidade e o torpor. No céu que se desenha de cores e desdenha o que pode ainda vir, o avião sobrevoa a cena em centenas de quilômetros abestalhados e tachados de máquinas de voar. No ar, os canos dos carros ventilam sua poluição.
Para Aderbal, a beligerância está entre o momento de agora e a fonte em que se beberá amanhã. Está na conta ainda não paga, bárbara de ser, cataclismo do universo onde o verso não cabe versejar. Na essência da famélica cidade que se perde em ruas, esquinas, CEPs e o que mais há a dividir bairros, zonas e vidas, a canção ecoa a toa nos ouvidos dos descrentes de que a gente do lado estará junto no apocalipse final. Letal, Aderbal está a remoer seu passado castrado pelo medo atávico e pálido. No seu hálito, uma bala de hortelã. Se o seu amor por fim chegar, a boca estará a cheirar.
Devagar, a vagar nas loucuras, o mundo do protagonista se sobrepõe ao bélico discurso do obtuso narrador que prega a dor como salvação. Caminha calmo e eterno ao terno que vive consigo. Na etérea e trôpega ilusão, caso perdido e vazio no coração de todos nós, em nós que nenhuma Nossa Senhora conseguirá desatar, o vento natural ventila o nariz de Aderbal e as crenças de todos que o cercam. Chega como brisa do mar e cigarro natural. Faz-se brilhante, como aquele que diz que a felicidade estará logo ali adiante. Radiante. E para aquele que não quiser crer, Aderbal mandará se foder.
No entorno que derrama tornos de novos mistérios móveis, mesmo que estejam todos presos num nada sem ser, o senhor central dessa história criada por um louco traduz a luz onde luz não há. Aderbal, que pensa ter vencido todo seu mal, é apenas feto a espera de nascer. A voltar ao passado, atrasado no tempo, vendeta da mulher que jogou praga às gerações futuras, mesmo que essas nada tenham a ver com o fato de uma bicicleta a atropelar, ele pede apenas para o show continuar. Enquanto a cortina não deixar o palco sumir nos raros aplausos que apaziguarão, continuará a trilhar sua trilha diminuta e inculta feito cafetão a amar sua puta.
E assim, no tal fim que toda história tem, Aderbal acelera a espera que quer ter. E brinca de ser dono do seu mundo performático e atávico (repetiu-se a frase e a sina?). Enfim chega o ônibus desejado. Está cheio e vazio. Tem gente no seu porvir e crente que ora à Bíblia como fosse certeza da alegria. Sobe, passa o cartão, senta no banco livre ao lado de um senhor que tosse sem parar. “Foda-se o escambau”. E assim, assimétrico e elétrico, feito o tal veículo que o leva para longe das trevas, passa e repassa lugares onde está cansado de ver e rever. Na sentença da crença absurda de tudo num repente se resolver, dorme no balançar de buracos e asfaltos mal arranjados. E aí, e só então, vira ele mesmo, ser a esmo no mundo por apenas querer viver.

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Já que a dor é exequível, façamo-nos

Por Ronaldo Faria


Aqui, a brincar com as letras esotéricas e elétricas que surgem bêbadas e cansadas de se repetirem, a frágil frigidez do idílico rememorar. Passarinhos a dormir não pedem para surgir no revoar de rodopios. Neles, não há um pio. Quietos e verdadeiros equilibristas que não caem dos galhos onde mal se seguram na árvore alquebrada e calada, são arbóreos e calcinados, seres inatos. Que ainda voam e se adaptam à realidade da verdade na própria sorte. Fossem minimamente plausíveis, voariam para o que resta da Amazônia atônita em se ver virar pasto.
Daqui, a resistir na dor da coluna que sequer sabe a história nas vitórias de Luís Carlos Prestes e desiste rápido de lutar, viramos resistente que acredita na brincadeira de ser responsável por algo do além repetir. Obaluaê é Atotô no silêncio que ao fim de todos nós sobrará. Tudo feito fetiche que nos engana em ser feliz. No destino pressentido de nordestino que nasceu errado por causa do pai que mais quis à realidade dobrar e se equilibrar num esmeris. Mas, se fizemos igual, que mal há? A tal realidade não será somente e apenas eterna saudade viral?
No mundo virtual, sem começo, chegada ou local, que se faça o próximo passo o antepasto que não comeremos amanhã. Na manha que entorna e se torna factível ao célere fatal sem fim, sejamos alguém quem sabe total. Feito o animal que dorme nas cinzas da espera do humano chegar, possamos nos embriagar e reencontrar frases, vozes, lembranças, andanças, reentrâncias que já esquecemos, emoções guardadas e fatais. Ademais, para que serve, na verve, crer que a criação vira mansidão? Em todos nós, que sobreviva a inerte e fátua ilusão.
 
(No som de Luiz Tatit)

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Histórias do Menesca

 Por Edmilson Siqueira 

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Além de compositor essencial da bossa nova, Roberto Menescal (Menesca para alguns amigos) é também um grande produtor musical. Trabalhou em várias gravadoras, sempre melhorando produtos que tinham potencial, mas não conseguiam chegar a um grande público. Foi assim, por exemplo, com Emílio Santiago. O cantor vendia cerca de 70 mil LPs a cada lançamento. Depois que Menescal passou a produzi-lo, convenceu-o a iniciar a série Aquarela Brasileira. Passou a vender 800 mil e a fazer shows por todo o Brasil.  
Com Elis fez algo parecido. A cantora já era famosa e quando o escalaram para ser seu produtor musical, Elis foi logo impondo sua banca: "Quero duas músicas do Chico, duas do Jobim, duas do Baden...". Menescal tentou ponderar: "Não é bem assim, né? Esses compositores têm filas de intérpretes pedindo música". Elis não recuou: "Se não for assim, não gravo!" 
Eu disse que recebia muitas fitas na gravadora e que podia ter algum coisa boa por lá. Disse pra ela me dar um mês que eu ia ouvir. Ouvi tudo e garimpei uma que eu gostei. Era "Bala com Bala", de uma dupla nova, João Bosco e Aldir Blanc.  
Mas, em entrevista recente, Menescal explicou: "Elis era uma grande intérprete, talvez a maior do Brasil, mas era difícil de vender discos. Vendia uns 15 mil, o que era pouco pro investimento. Então tentei melhorar, não a cantora, mas o repertório. Aos poucos ela foi aceitando e o disco vendeu mais de 150 mil cópias".  
Mas há uma outra história desse disco. Ele foi pedir músicas para o Francis Hime, parceiro do Chico. E Hime tinha mesmo três músicas dele com o Chico que ofereceu a Menescal. Mas avisou: "Elas não são lá uma Brastemp, viu?".  
Menescal levou a fita para Elis (fita cassete, diga-se) e ouviram as três músicas. Elis resmungou: "Pros outros eles dão cada puta música. Pra mim essas merdas!" Menescal, como sempre calmo, tentou ponderar, mas as músicas não eram boas mesmo. Enquanto discutiam, a fita continuou rodando em silêncio, mas, de repente, uma outra música começou: "Quando olhaste bem nos olhos meus e o teu olhar era de adeus..." 
Os dois se calaram e Elis quase gritou: "O que que é isso?". Ouviram a música inteira. Bem, quase inteira. Ela ia, com letra, até a frase "...e reclamei baixinho...". Dali pra frente só tinha um lái-a-lá do Francis acompanhando a segunda parte da melodia.  
Menescal então ligou pro Francis e explicou a situação. Francis se assustou: "Isso tava na fita?  Então eu aproveitei uma fita antiga. Essa música faz três anos que a gente tá fazendo e não consegue". Menescal confirmou se a melodia era aquela mesmo e falou: "Deixa comigo". 
"Aí, César Camargo Mariano fez um arranjo maravilhoso, Elis gravou o que tinha da letra e na parte sem letra cantarolou um lái-a-lá sentido." 


Menescal pegou a gravação (numa fita cassete) e ligou pro Chico. "Posso ir aí? Tenho que lhe mostrar uma música. Você tem gravador de fita cassete?" Chico disse que tinha, mas não sabia onde estava. 
Lá chegando, descobriram o gravador na cozinha, sobre a geladeira. Menescal botou a fita e Chico achou bonita a introdução, sem saber que música era. Quando Elis começou a cantar, Chico reconheceu e disse: "Mas eu não terminei essa letra, trem três anos que estou tentando..."  
Quando a música chegou na segunda parte, aquela do lái-a-lá, Chico pegou um papel de pão que estava sobre a mesa e começou a escrever o resto. Em segundos, o fim da música apareceu: "Dei pra maldizer o nosso lar, pra sujar teu nome te humilhar e me vingar a qualquer preço, te adorando pelo avesso, só pra mostrar que ainda sou tua, até provar que ainda sou tua...". 
Menescal continua:  "Fui pra casa, liguei pra Elis e disse que Chico tinha acabado a letra e que levaria pra ela no dia seguinte. Ela não aceitou, pediu pra eu levar naquela hora. E lá fui eu até a casa dela, acho que lá pelas três da manhã." 
(A segunda foto é de uma gravação ao vivo de "Atrás da Porta" com Elis. Visceral.)

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

No mar de Assumpção

 Por Ronaldo Faria


Astrolábio da sua boca a gerir a loucura que corre e percorre no infinito a finitude de um corpo preso e enraizado feito presente e passado. Na claustrofobia utópica e tópica que surge no menino que sobrevive no corpo de quase ancião, a voz do sol, do sal, do céu escuro e soturno no operário que cumpre seu turno. Na loucura que persegue o poema e o poeta a cada hora, segundo, minuto, mês, ano, década e dia, uma barraca nordestina da feira mais popular de Xique-Xique. No todo, eterno repenique dos tiques.
No meio do Brasil, interior feito de vida para não se perder e nem se achar, o caminho sem aninho e ninho de pardal que viverá depois do ovo desabrochar. Isso se o pardal macho, na hora H, não brochar. Na vitrola, que já foi eletrola, o som de um preto (Itamar) brás. Quem sabe um Nego Dito. Daqui se espera que a mudança de horário do remédio em quase descrédito vire mais do que a urina vermelha. No odor, um incenso indiano chamado warning. Que o aviso seja apenas da ressaca prevista à vista.
A próxima música é paixonite aguda. Ou a certeza de que a boca espuma entre o amor e ódio. Na esperança, que se ouça isca de polícia. Propícia, a loucura faz espocar rimas e rótulos. No trânsito intransitável e viável que desperta da fécula não digerida, o voo imaginável e tragável que o próximo poema traz. Se mais ou demais, a verve do vocabulário perdulário que se entrega há mais de 50 anos e teima em não querer se repetir. No frigir de tudo, o obscuro mundo que deve existir do ateu ao filho batizado e confirmado de santos ancestrais e negros.
No meio do bicho de sete cabeças, cabisbaixo à realidade, o escriba em eterno crer e acreditar que há o que subscrever do além que vai e vem, se deleita enquanto não deita pra dormir. No sorver de algo a surgir da performance ilusória da história sua, nua e crua, vamos a surgir nos palcos ilusórios e simplórios do pouco a se fazer ou surgir. Daqui ou por algum canto ali, a luta entre o famélico sobrevivente e Mohamed Ali. Na lona, dura e gostosa de cair, nunca peça, nem em prece, cerveja alemã para no dia prometido vir.

Notícias de um Brasil

 Por Ronaldo Faria   -- E aí, me manda notícias do Brasil! -- Boas ou ruins? -- Tem escolha? -- Não. -- Então, manda ver. -- Vai lá. Prime...