Mas a "ajuda" de Miles no disco não foi apenas algo que se faz para um amigo nas horas vagas. O resultado do disco é considerado uma obra-prima. A crítica até hoje se refere ao disco como um clássico eterno. Só que muitos críticos dizem também que "Somethin' Else", embora seja creditado a Cannonball Adderley, é reconhecido como uma das obras-primas da carreira de Miles Davis. Gravado na Blue Note Records, ele reuniu esse quinteto extraordinário e se tornou um dos discos mais influentes da história do jazz.
Hoje, "Somethin' Else" ocupa um lugar privilegiado entre os clássicos do jazz e tal façanha é muito mais creditada a Miles que Cannoball. Gravado em 9 de março de 1958 no lendário estúdio de Rudy Van Gelder, em Hackensack, Nova Jersey, o álbum representa o auge do hard bop, mas já antecipa a linguagem mais lírica e modal que Miles desenvolveria pouco mais de um ano depois em Kind of Blue.
Depois dessa gravação, Cannoball ainda participou do "Kind Of Blue", mas no mesmo ano formou outro quinteto e durante os próximos 16 anos foi colecionando sucessos com quintetos ou sextetos por onde passaram músicos como Yusef Lateef, Charles Lloyd, Barry Harris, Victor Feldman, Joe Zawinul, George Duke, Hal Galper, Sam Jones e Louis Hayes.
Mas na época da gravação, Cannonball Adderley ainda integrava o sexteto de Miles Davis ao lado de John Coltrane. O saxofonista, nascido na Flórida, em 1928, havia conquistado respeito por seu fraseado exuberante, pela sonoridade calorosa e pela capacidade de unir virtuosismo e profundo sentimento blues. Seu estilo contrastava de forma elegante com a abordagem econômica e introspectiva de Miles Davis. Essa combinação de opostos se transformou em um dos maiores atrativos de "Somethin' Else".
O quinteto desse álbum, como assinalei, é formado por músicos extraordinários. Além de Cannonball Adderley no saxofone alto e Miles Davis no trompete, estão Hank Jones ao piano, Sam Jones no contrabaixo e Art Blakey na bateria. Curiosamente, Blakey é o único integrante do Jazz Messengers presente na sessão. O pianista habitual do grupo de Miles, Red Garland, não participou da gravação, e Hank Jones trouxe uma delicadeza que contribuiu decisivamente para o clima sofisticado do álbum.
A primeira música é "Autumn Leaves" (J. Kosma e J. Mercer), que, com longos 10 minutos e 55 segundos, se tornou referência absoluta dessa composição. Em vez de uma execução rápida, Miles opta por um andamento moderado, permitindo que cada músico explore todas as nuances harmônicas.
Segue-se "Love for Sale", um clássico de Cole Porter, apresentada com um balanço irresistível, demonstrando perfeita integração, enquanto Cannonball desfila ideias melódicas praticamente inesgotáveis. Miles, como sempre, aliás, prefere a economia de notas, mostrando que poucas frases bem colocadas podem produzir enorme impacto. O contraste é prazeroso.
A terceira faixa é a que deu nome ao disco e foi composta por Miles Davis especialmente para esta sessão. Trata-se de um blues sofisticado que sintetiza muitas das características do álbum. A melodia simples serve como ponto de partida para improvisações extremamente criativas. O tema evidencia o quanto Miles já buscava uma abordagem menos baseada na velocidade ou em demonstrações de virtuosismo, e mais na construção melódica, na qual ele iria se tornar notável nos anos seguintes.
"Dancing in the Dark", a quarta faixa é outro clássico, de Arthur Schwartz e Howard Dietz, e revela outro aspecto importante do disco: a valorização da canção popular americana como matéria-prima para improvisações refinadas. A interpretação preserva a beleza da melodia original, sem jamais sacrificar a liberdade criativa dos músicos. O solo de Cannonball, dizem os críticos, figura entre os momentos mais inspirados de sua carreira em estúdio.
O disco lançado em 1958 se encerra com "One for Daddy-O", de Nat Adderley, irmão de Cannonball. A música devolve ao álbum uma atmosfera mais descontraída com esse blues moderno, permitindo que Art Blakey demonstre toda sua força rítmica, impulsionando os improvisadores com energia.
No CD, lançado em 1999, foi acrescentada uma faixa: "Bangoon" (Hank Jones). Nela, o clima alegra volta a imperar, com Miles contribuindo com longo solo e Cannoball respondendo com o mesmo ímpeto que caracteriza seu sopro.
O fato é que ao longo das décadas, "Somethin' Else" tornou-se um álbum obrigatório tanto para ouvintes iniciantes quanto para especialistas. Mais de seis décadas após sua gravação, ele continua soando surpreendentemente moderno. Para muitos críticos, trata-se não apenas do maior álbum da carreira de Cannonball Adderley, mas também de uma das gravações essenciais da história do jazz.
O disco, tanto o LP original, quanto o CD, estão à venda nos bons sites do ramo. O LP, com uma música a menos, está muito mais caro que o CD. E pode ser ouvido na íntegra em https://www.youtube.com/watch?v=u37RF5xKNq8&list=PLTIb4fKCEAevQGcDKFIXdimOXsMK4uVNv .




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