Por Ronaldo Faria
Musicoólatras
DOIS APAIXONADOS POR MÚSICA A FALAREM DE VINIS, CDS E DVDS
quarta-feira, 29 de julho de 2026
Logo cedo?
terça-feira, 28 de julho de 2026
Bill Evans: um mestre do jazz ao piano *
Para se ter uma ideia melhor de sua influência, ele estava, no fim dos anos 1950, no sexteto de Miles Davis que culminou com o lançamento de "Kind of Blue", um disco que ajudou a redefinir a linguagem harmônica do jazz e é considerado um dos mais importantes da história do gênero.
Ao longo da década seguinte, seus trios estabeleceram novos padrões de interação entre piano, baixo e bateria, criando um diálogo mais democrático para a música improvisada.
Mas os anos 1970 muitos artistas estavam numa encruzilhada: o mercado se revirou com as novas tendências musicais, principalmente o pop e o rock, levando muitos deles a tentarem novos rumos. Alguns até fizeram sucesso, mas foram poucos.
Bill Evans, porém, decidiu não seguir modismos. Em vez disso, procurou se aprimorar naquilo que fazia de melhor, incorporando novos elementos ao seu universo sonoro. É nesse contexto que surge esse "The Bill Evans Album", com ele ao piano acústico e elétrico, Eddie Gomez no contrabaixo acústico e Marty Morell na bateria.
O trio demonstra uma impressionante unidade musical. E jazz, como se sabe, se baseia no improviso, onde a comunicação entre os músicos é essencial. No caso, ela é instantânea, permitindo que cada composição se desenvolva com grande liberdade e espontaneidade.
Ao não se apegar ao modismo da época, a impressão que passa é que Bill Evans era um artista tradicionalista, preso a uma única maneira de mostrar sua arte. Pois ao usar um piano elétrico Fender Rhodes no álbum, ele demostra a abertura de seus horizontes e que sua permanência no gênero não era sinal de teimosia, apenas de talento e de gosto musical. Um ótimo gosto musical por sinal, pois ele o novo instrumento sem abrir mão de suas características essenciais. O resultado não se aproxima do fusion mais agressivo praticado por outros músicos da época; ao contrário, mantém a elegância, o lirismo e a profundidade harmônica que sempre marcaram sua obra.
O LP original, lançado em 1971, tinha sete faixas. Ao produzir um CD do álbum, decidiram colocar mais três faixas, todas elas como "takes" alternativos. As sete faixas são de autoria de Bill Evans (somente numa delas ele tem a parceria de Carol Hall).
O repertório combina composições originais e releituras cuidadosamente escolhidas. Entre os destaques está “Funkallero”, uma peça que havia sido composta anos antes, mas que ganhou aqui sua primeira gravação oficial. A música revela uma faceta menos conhecida de Evans, marcada por um balanço sutil e por uma estrutura harmônica rica e inventiva. A composição tornou-se uma das favoritas dos admiradores do pianista e passou a integrar o repertório de inúmeros músicos de jazz.
Outra faixa importante é “The Two Lonely People”, que é a parceria de com a letrista Carol Hall. A melodia delicada e contemplativa exemplifica a capacidade do pianista de criar temas de grande beleza emocional sem recorrer ao sentimentalismo excessivo. A peça tornou-se uma das composições mais duradouras de seu catálogo.
O reconhecimento da crítica foi imediato. O álbum recebeu o Grammy de Melhor Performance Instrumental de Jazz por Grupo, um prêmio que confirmou a relevância artística do trabalho. Mais do que um simples sucesso de crítica, a gravação consolidou a imagem de Evans como um artista capaz de permanecer relevante em um cenário musical em constante transformação.
Bill Evans morreu 9 anos depois do lançamento desse disco, em 1980, aos 51 anos. Sua carreira foi encurtada devido a problemas com drogas que minaram severamente sua saúde. Apesar da saúde abalada, ele conseguiu manter um alto padrão de qualidade musical em sua discografia.
De acordo com o famoso crítico de jazz Joachim E. Berendt, "Evans foi o primeiro pianista moderno modal. Seu fraseado elegante e suas harmonias sofisticadas indicam influências de Debussy, Ravel e, recuando um pouco no tempo, até mesmo Chopin."
Hoje, mais de cinco décadas após seu lançamento, The Bill Evans Album continua sendo uma obra fundamental para compreender a evolução do pianista e do próprio jazz.
O CD pode ser comprado nos bons sites do ramo (encontrei na Amazon) e pode ser ouvido na integra no YouTube em https://www.youtube.com/watch?v=IDDx9icnm28&list=PLgc-c3Upo-dCu8ORREuzQwhqsZu670Spy .
segunda-feira, 27 de julho de 2026
Na novidade
Por Ronaldo Faria
Coisa nova, porque afinal toda novidade merece ter de nascer, que chegue e se achegue num maior florescer. Assim, na leviandade da vida, na idade que o calendário lendário e etário nos dá, se crie e se torne solstício no recriar. No caminhar dos dias, a dialética, disléxica, seja apenas uma pena que a ave no voo derrama por inteira.
sábado, 25 de julho de 2026
Vale a pena ser enlouquecido
Por Ronaldo Faria
Conversas antigas, antagônicas
e afônicas, atônitas de ter acontecido, sobressaem no entardecer que a penumbra
traz e traduz. Decerto, alhures, algum beijo está a acontecer. E terá sido dado
por um casal que, fugaz, sequer sabe por que está a sorrir. Afinal, conversas transversas
e voláteis surgem e somem sem mais ou fugazes ais. Mas, decerto, existem.
E persistem encruadas e criadas num mundo sobremaneira disperso e entre a realidade
e a etérea luz. Nalgum momento o amor decerto se traduz...
quinta-feira, 23 de julho de 2026
Com Zé Renato
Por Ronaldo Faria
Na mesa do bar, a filtrar a cena que acena aos olhos que ainda podem enxergar, José vê-se às benesses que o resto de lucidez dá. Enxerga os limites translúcidos que a finitude deixa estar, caminha feito Pero Vaz de Caminha a dizer que em se plantando tudo pode dar, mente a si mesmo que o dia de amanhã será feito em reluzir. Andarilho de suas trilhas desde os desertos do Saara aos mares das Antilhas, José se sente Josué a abrir mares e marés, sempre na falsa fé. Perpetua a lua translúcida que reluz no céu que transborda de escurecer o ser a queimar os dedos no incenso sem noção daquilo a que veio fazer. “Sacanagem sofrer na dor quando se perpetua e se perpetra um tanto de tal querer...”
Nas notas que denotam outros tons e letras que a canção dá, onde gemer pode virar foder, a vida vira orelhão perdido numa esquina, a sina do amor se reveste na rede a balançar perdida no passado, os corpos se revestem de nudez e prazer. E casas derrubadas e calcinadas trazem recordações fátuas, tocares táteis e imponderáveis soluções malucas e fáceis. Feito mamelucas, rosários frágeis que nem a maior carola sabe recitar, emoções permeiam toques frígidos e voláteis. Na tristeza de um vai e outro vem, num vaivém, a rede a se dependurar nas paredes que as estrelas reluzem no infinito de alguém. Talvez algum violão solitário, uma voz em santuário, a incerteza de ser só querer ser. E assim, a ressoar ou ressonar, as casas perdidas numa rua do até logo em até mais se esmeram de tudo saudar.
terça-feira, 21 de julho de 2026
Questiúnculas
-- De novo essa pergunta sem noção e já com a resposta sabida?
-- Desculpe. Foi só pra saber se você sabe e antecipa a realidade logo ali próxima.
-- Claro que sei. Mas, se não existir isso, resta o que mais para aqui fazer?
-- Tem razão. Bebamos e sejamos, então...
domingo, 19 de julho de 2026
Cannonball de novo. Agora bossa nova
Agora imagine um dos grandes saxofonistas do jazz dos EUA se juntando a esse time para gravar um disco só de músicas brasileiras, mais precisamente da bossa nova.
Pois pode parar de imaginar que esse disco existe e se chama: "Cannonball Adderley and the Bossa Nova Rio Sexteto.
O leitor mais atendo deve estar perguntando: "Dois artigos seguidos sobre Cannonball?" Pois é. O artigo da semana passada era do saxofonista e sua união com Mlies Davis, jazz puro na veia.
Mas, ao acessar aquele CD na gaveta do armário, esse outro estava, obviamente, junto, já que tento manter a ordem alfabética na minha humilde coleção. E como estava pensando em escrever sobre algum artista brasileiro, acabei juntando tudo: um grande artista norte-americano e nada menos que seis grandes artistas brasileiros.
O crítico de jazz Orrin Keepnews, escreve logo na abertura de seu texto no encarte do disco: "Este álbum, que combina, de forma única, os talentos de uma grande estrela com os talentos de um excelente grupo de jovens brasileiros, não é apenas mais uma apresentação fascinante dessa irresistível música latina conhecida como bossa nova, é também alguma coisa verdadeiramente inédita".
O termo "jovens brasileiros" não foi alguma generosidade do crítico: o disco foi gravado em 1962, ou seja, há 64 anos, quando a maioria dessa turma era quase imberbe. Sérgio Mendes, por exemplo, que morreu em 2024, tinha, 22 anos. Um dos mais velhos, Paulo Moura, estava com 30. O próprio Cannonball estava com 34.
Informa Orrin Keepnews novamente: "O Bossa Rio veio para Nova York apenas para uma única apresentação, mas seu entusiasmo por sua música, fez com que Cannonball conseguisse uma audiência privada com eles. E ele foi imediatamente tomado pela ideia de gravar com eles, uma sugestão que a que todos aderiram rapidamente."
Essa única apresentação era aquela famosa do Carneggie Hall que aconteceu em novembro de 1962.
Em 1985, Orrin Keepnews voltou a escrever sobre o disco: "Ao ouvi-lo novamente depois de tantos anos, ainda o considero incomum — e valioso. O álbum traz ritmos de uma autenticidade rara e melodias maravilhosas, incluindo duas das melhores composições de Antônio Carlos Jobim e outras quatro criadas em parceria por Maurício Einhorn e o violonista da banda, Durval Ferreira. Conta também com Cannonball em apresentações que estão, provavelmente, entre as mais líricas e profundamente românticas de sua carreira, lembrando de forma marcante que suas raízes musicais pessoais remontam a nomes como Benny Carter e Johnny Hodges, indo além de Charlie Parker. É um disco alegre e exuberante, e é muito bom tê-lo de volta.
Acho que não precisa dizer mais nada, né?
As faixas são as seguintes:
- Clouds (Durval Ferreira e Maurício Einhorn)
- Minha Saudade (João Donato)
- Corcovado (Tom Jobim)
- Batida Diferente (Durval Ferreira e Maurício Einhorn)
- Joyce's Samba (Durval Ferreira e Maurício Einhorn)
- Groovy Samba (Sérgio Mendes)
- O Amor em Paz (Tom Jobim e Vinicius de Moraes)
- Sambops (Durval Ferreira e Maurício Einhorn)
- Corcovado (Tom Jobim)
- Clouds (single version) (Durval Ferreira e Maurício Einhorn)
sexta-feira, 17 de julho de 2026
Com Astor Piazzolla e Ilan Rogoff
Por Ronaldo Faria
-- O senhor deseja outra taça?
A voz do garçom, solícito e a crer que o melhor na descrença é tentar ser, lhe soa como último pedido em cadafalso.
-- Pode trazer, claro. Aliás, traga a garrafa e a deixe aqui.
Agora um piano personifica no salão as teclas ascetas que invadem a alma sem pedir permissão. E vem a lembrança ancha de paixão e famélica na ausência do amor. No torpor que o fim de tudo traz, as dores repicam pelo corpo. De fora vem o odor de damas da noite com seus perfumes baratos. Nos esgotos, vê-se um ou outro rato. Um motorista tresloucado buzina sem parar. Do alto do prédio o zumbi homofóbico grita a plenos pulmões: “Viado!” No bar, em sua acústica solitária, atávica, plenipotenciária, nada se ouve. As notas da canção são o verbo único e final.
O vinho, Devil’s Carnival, desce pela garganta entregue ao silêncio profano. No altar colocado no canto do bar, um anjo arcanjo abençoa a cena. Diante dos dedos que correm dos instrumentos em lamento, o casal – ele com perfil anasalado e ela esguia como enguia que aprendeu a bailar – dança no salão. Adamastor, contrito na sua dor, vê e revê o bailar da amada nas areias da praia que se entrega ao mar embriagada e tragada de ondas a pulular. E no seu silêncio que grita ao mundo seu sofrer, catatônico e atônito no limiar da lucidez, beija a tez da escolhida num tormento em lumiar. Defronte de tudo, encolhida de medo, uma criança sequer sabe por que está na narrativa de sortilégios que nem o autor, perdido na sua imensidão, consegue explicar.
quarta-feira, 15 de julho de 2026
Poeminha para o mar
Por Ronaldo Faria
terça-feira, 14 de julho de 2026
Um quinteto de gênios e uma obra prima*
Mas a "ajuda" de Miles no disco não foi apenas algo que se faz para um amigo nas horas vagas. O resultado do disco é considerado uma obra-prima. A crítica até hoje se refere ao disco como um clássico eterno. Só que muitos críticos dizem também que "Somethin' Else", embora seja creditado a Cannonball Adderley, é reconhecido como uma das obras-primas da carreira de Miles Davis. Gravado na Blue Note Records, ele reuniu esse quinteto extraordinário e se tornou um dos discos mais influentes da história do jazz.
Hoje, "Somethin' Else" ocupa um lugar privilegiado entre os clássicos do jazz e tal façanha é muito mais creditada a Miles que Cannoball. Gravado em 9 de março de 1958 no lendário estúdio de Rudy Van Gelder, em Hackensack, Nova Jersey, o álbum representa o auge do hard bop, mas já antecipa a linguagem mais lírica e modal que Miles desenvolveria pouco mais de um ano depois em Kind of Blue.
Depois dessa gravação, Cannoball ainda participou do "Kind Of Blue", mas no mesmo ano formou outro quinteto e durante os próximos 16 anos foi colecionando sucessos com quintetos ou sextetos por onde passaram músicos como Yusef Lateef, Charles Lloyd, Barry Harris, Victor Feldman, Joe Zawinul, George Duke, Hal Galper, Sam Jones e Louis Hayes.
Mas na época da gravação, Cannonball Adderley ainda integrava o sexteto de Miles Davis ao lado de John Coltrane. O saxofonista, nascido na Flórida, em 1928, havia conquistado respeito por seu fraseado exuberante, pela sonoridade calorosa e pela capacidade de unir virtuosismo e profundo sentimento blues. Seu estilo contrastava de forma elegante com a abordagem econômica e introspectiva de Miles Davis. Essa combinação de opostos se transformou em um dos maiores atrativos de "Somethin' Else".
O quinteto desse álbum, como assinalei, é formado por músicos extraordinários. Além de Cannonball Adderley no saxofone alto e Miles Davis no trompete, estão Hank Jones ao piano, Sam Jones no contrabaixo e Art Blakey na bateria. Curiosamente, Blakey é o único integrante do Jazz Messengers presente na sessão. O pianista habitual do grupo de Miles, Red Garland, não participou da gravação, e Hank Jones trouxe uma delicadeza que contribuiu decisivamente para o clima sofisticado do álbum.
A primeira música é "Autumn Leaves" (J. Kosma e J. Mercer), que, com longos 10 minutos e 55 segundos, se tornou referência absoluta dessa composição. Em vez de uma execução rápida, Miles opta por um andamento moderado, permitindo que cada músico explore todas as nuances harmônicas.
Segue-se "Love for Sale", um clássico de Cole Porter, apresentada com um balanço irresistível, demonstrando perfeita integração, enquanto Cannonball desfila ideias melódicas praticamente inesgotáveis. Miles, como sempre, aliás, prefere a economia de notas, mostrando que poucas frases bem colocadas podem produzir enorme impacto. O contraste é prazeroso.
A terceira faixa é a que deu nome ao disco e foi composta por Miles Davis especialmente para esta sessão. Trata-se de um blues sofisticado que sintetiza muitas das características do álbum. A melodia simples serve como ponto de partida para improvisações extremamente criativas. O tema evidencia o quanto Miles já buscava uma abordagem menos baseada na velocidade ou em demonstrações de virtuosismo, e mais na construção melódica, na qual ele iria se tornar notável nos anos seguintes.
"Dancing in the Dark", a quarta faixa é outro clássico, de Arthur Schwartz e Howard Dietz, e revela outro aspecto importante do disco: a valorização da canção popular americana como matéria-prima para improvisações refinadas. A interpretação preserva a beleza da melodia original, sem jamais sacrificar a liberdade criativa dos músicos. O solo de Cannonball, dizem os críticos, figura entre os momentos mais inspirados de sua carreira em estúdio.
O disco lançado em 1958 se encerra com "One for Daddy-O", de Nat Adderley, irmão de Cannonball. A música devolve ao álbum uma atmosfera mais descontraída com esse blues moderno, permitindo que Art Blakey demonstre toda sua força rítmica, impulsionando os improvisadores com energia.
No CD, lançado em 1999, foi acrescentada uma faixa: "Bangoon" (Hank Jones). Nela, o clima alegra volta a imperar, com Miles contribuindo com longo solo e Cannoball respondendo com o mesmo ímpeto que caracteriza seu sopro.
O fato é que ao longo das décadas, "Somethin' Else" tornou-se um álbum obrigatório tanto para ouvintes iniciantes quanto para especialistas. Mais de seis décadas após sua gravação, ele continua soando surpreendentemente moderno. Para muitos críticos, trata-se não apenas do maior álbum da carreira de Cannonball Adderley, mas também de uma das gravações essenciais da história do jazz.
O disco, tanto o LP original, quanto o CD, estão à venda nos bons sites do ramo. O LP, com uma música a menos, está muito mais caro que o CD. E pode ser ouvido na íntegra em https://www.youtube.com/watch?v=u37RF5xKNq8&list=PLTIb4fKCEAevQGcDKFIXdimOXsMK4uVNv .
segunda-feira, 13 de julho de 2026
No tom de Jobim
Por Ronaldo Faria
No céu a lua brinca de fugir das nuvens, alhures sejam elas suas amantes primeiras e brejeiras. Ao derredor, sem dor, a vida se expõe frágil de segundos e se põe a ditar o fim como fosse essa quimera a principal ilusão. José e Maria, meros dois a mais como fossem melros e nadar num oceano de prazeres, se dão às crenças de que saudade não é somente separação. Afinal, a lembrança, ancha de paixão, é a certeza primeira de que há luz na escuridão a brilhar.
Na cabeça do criador, a busca de como criar mais outro algo que exista depois de milhares de criações. Em ações e notas em diapasões, o fortuito esperar que de gole em gole algo surja na mente como num fole de acordeão. Na janela o último incenso queima e foge da Índia para chegar ao quadrado milimétrico chamado Brasil. José e Maria, entretanto, no tanto que o porém pode ser, seguem a caminhar nas pedras portuguesas que se revestem da areia que brota na brisa do mar.
E se amam, se beijam, juntam os corpos, rejuntam saudades, trocam salivas e desejos, ensejos mil. Sabem que estão separados, mas tecem em cada metro de afastamento o tormento que a tormenta dos dias espera derrear. Juntos e misturados à noite que se entrega na trégua do tempo, caminham com passo presto a se embriagarem de amor. À beira do calçadão, um ambulante vende maçãs embrulhadas de açúcar colorido. E promete que, se ela for comida junto pelo casal, não haverá reza ou praga que permita separação. Envergonhado pela lábia estrábica do vendedor, o tempo prefere parar. No quadro derradeiro e primeiro, o homem e a mulher se fazem um só. E assim, sem dó, a vida lhes dá a certeza de que a orgia da felicidade nunca terá fim.
sábado, 11 de julho de 2026
A vida é uma dança só. Logo, Wanderléa nela
Por Ronaldo Faria
quinta-feira, 9 de julho de 2026
Haja calor...
Por Ronaldo Faria
-- Não dá pra ficar aqui. Acho que a chapa vai queimar além do tempo e vai apitar em morte ou dor.
Resolvido a escapar do calor, Adamastor decide correr para o asfalto, pegar o metrô e bater numa praia qualquer da Zona Sul. Ao menos no vagão já terá respiro melhor. Fecha a porta do barraco, desliga o ventilador, coloca o termostato da geladeira no máximo e sai a se esgueirar numa sombra ou outra que a rua em descida lhe dá. Na boca da estação do metrô, desce a escada em quase velocidade olímpica. Era como escapar das portas abertas do inferno. “A cidade até pode ser maravilhosa, mas está muito foda” – pensou.
No horário, a maioria dos vagões estava quase vazia. Sentou debaixo de um ar-condicionado quase como um confinado ou condenado a não querer levantar. Foi até a última estação, desceu e pegou o carro pra voltar. Afinal, ali já era algo monumental. Contudo, como tudo que é bom dura pouco na tradição popular, o metrô lotou na hora das pessoas largarem seus empregos de sobrevida. “Agora já deu. Esse povo vai foder com o friozinho” – sentenciou.
“A verdade é uma só: ser rico e morar por aqui é tudo de bom. Se eu um dia ganhar numa loteria, compro um apê da hora” – sonhou ao ver o Morro Dois Irmãos rebrilhar nas luzes que lhe tomam as moradias dependuradas.
Não entrou no mar porque estava de bermuda e tinha esquecido a roupa de banho. “Sabia que tinha dado falta de algo” – elucubrou. Mas sentou no banco perto de um quiosque, pediu a cerveja da promoção tome quatro e pague três. E lá ficou a olhar as ondas que batiam e rebatiam na areia que começava a esquecer que queimou a sola dos pés de desavisados sem sandália. Desanuviado das dores da vida, Adamastor sonhou que sua realidade podia ter sido diferente. Lembrou até de uma tal de meritocracia, fosse lá o que isso quisesse dizer ou ser.
terça-feira, 7 de julho de 2026
Com a Rita a se fazer uma antiga calça Lee
Por Ronaldo Faria
domingo, 5 de julho de 2026
Tom, Chico e... Simonal
O disco foi lançado em 1970, quando Simonal ainda gozava de prestígio. Como se sabe, seu envolvimento com agentes do Dops e com um empregado seu que, supostamente, estava desviando dinheiro, acabou provocando a ira da patrulha ideológica da época que levou o cantor ao ostracismo, já que a classe artística em sua maioria - ou pelo menos a maioria com a qual Simonal se relacionava - acusou-o de informante da repressão (o que ele não era) e foi totalmente boicotado, praticamente encerrando sua carreira.
Em "Wilson Simonal Canta Tom & Chico" há uma clara ideia do que era esse cantor que foi do auge - considerado o melhor do Brasil à época - ao fracasso por decisões erradas e pelo clima político vigente numa dos mais duros períodos da ditadura militar. Sua inocência como "informante" foi comprovada, mas o estrago já estava feito. A bebida, onde ele se refugiou, lhe provocou uma cirrose hepática que iria encerrar também sua vida e, 2000, aos 62 anos.
Na Wikipédia ha um relato sobre o processo que inocentou Simonal: "Em 2002, a pedido da família, a Comissão Nacional de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) abriu um processo para apurar a veracidade das suspeitas de colaboração do cantor com os órgãos de informação do regime militar. A comissão analisou documentos da época, manteve contato com pessoas do meio artístico, como o comediante Chico Anysio e os cantores Ronnie Von e Jair Rodrigues, e analisou reportagens publicadas nos jornais. Em notícia veiculada em 1992 pelo Jornal da Tarde, por exemplo, Gilberto Gil e Caetano Veloso, oficialmente perseguidos pelo regime militar, declararam não ter tido problemas de convivência com Simonal, sendo que Veloso ainda elogiou as qualidades de Simonal como artista.
Além de depoimentos de artistas e de material enviado por familiares e amigos, constou do processo um documento de janeiro de 1991, assinado pelo então secretário nacional de Direitos Humanos, José Gregori, no qual atestava que, após pesquisa realizada nos arquivos de órgãos federais, como o SNI e o CIEx, não foram encontrados registros de que Simonal tivesse sido colaborador, servidor ou prestador de serviços daquelas organizações.
Em 2003, concluído o processo, Wilson Simonal foi moralmente reabilitado pela Comissão Nacional de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), em julgamento simbólico."
Voltando ao disco, "Wilson Simonal Canta Tom & Chico" hoje ocupa um lugar especial na discografia de Wilson Simonal. Em vez de apostar na diversidade de compositores que caracterizava muitos de seus trabalhos anteriores, Simonal dedicou um disco inteiro à obra de dois dos maiores autores da música popular brasileira.
Há que se dizer que as músicas de Tom ganham uma energia diferente na voz de Simonal. O cantor preserva a sofisticação harmônica das composições, mas acrescenta um calor que não vemos em intepretações mais fiéis ao espírito da bossa nova. O resultado é uma abordagem menos contemplativa e mais comunicativa, aproximando o repertório de um público amplo sem sacrificar sua qualidade artística.
Nas canções de Chico Buarque, Simonal encontra terreno fértil para explorar seu talento narrativo e rítmico.
Os arranjos desempenham papel fundamental no álbum combinando elementos da bossa nova, do samba e da moderna música popular da época. O resultado sonoro chega a ser sofisticado,
A interpretação de Simonal também ajuda a compreender por que ele foi um dos maiores comunicadores da música nacional. Seu canto possuía uma característica rara: conseguia ser tecnicamente impecável e popular ao mesmo tempo. Ele transitava com naturalidade entre o samba, a bossa nova, a música romântica e os repertórios mais sofisticados, sempre mantendo uma identidade própria.
Com o passar dos anos, Wilson Simonal Canta Tom & Chico tornou-se uma obra valorizada por colecionadores e estudiosos da música brasileira.
O fato é que mais de meio século após seu lançamento, o disco permanece como um testemunho da riqueza dessa nossa MPB, pois une a força da interpretação de um cantor único com a qualidade da composição. Para quem deseja conhecer um Simonal mais sofisticado e intimista, sem abrir mão do carisma que o tornou famoso, "Wilson Simonal Canta Tom & Chico" continua sendo uma audição indispensável.
São 12 as faixas do disco:
- Inútil Paisagem (Tom Jobim e Aluyzio de Oliveira)
- Só Saudade (Tom Jobim e Newton Mendonça)
-Tem Mais Samba (Chico Buarque)
- Ana Luiz (Tom Jobim)
- Fotografia (Tom Jobim)
- Cordão (Chico Buarque)
- Se Todos Fossem Iguais a Você (Tom Jobim e Vinicius de Moraes)
- Discussão (Tom Jobim e Newton Mendonça)
- Sonho de um Carnaval (Chico Buarque)
- Só tinha de Ser com Você (Tom Jobim e Aluyzio de Oliveira)
- Lígia (Tom Jobim)
- A Banda (Chico Buarque)
O CD está à venda nos bons sites do ramo. Não o encontrei inteiro no YouTube, mas 8 das 12 músicas podem ser ouvidas em https://www.youtube.com/watch?v=yRRPgz0inBs&list=OLAK5uy_m_17aClvnAkov5Jc-6E1nkYHzUwVNnCT8 . Curiosamente, no Spotify, o disco também está com as mesmas 8 faixas aos invés das 12.
Logo cedo?
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Por Ronaldo Faria O CD Cazas de Cazuza – A Ópera-Rock é de 2000. Dez anos após a sua morte, vítima da Aids. Dos discos que homenagearam d...
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Por Ronaldo Faria -- E aí, vamos? -- Claro. Só se for agora... Carlos e Kelé, amigos de infância, suburbanos desde os primeiros panos de ...

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