Como pode um cantor com uma voz pequena, rouca e dramática fazer tanto sucesso? Nada disso é problema se estamos falando de Charles Aznavour (1924-2018), porque além de magnífico intérprete, ele foi também compositor e ator. Compôs cerca de 850 canções e atuou em mais de 60 filmes.
Mas foi pelas sus canções, com diversos parceiros (ele era o letrista) que o mundo tomou conhecimento desse francês de origem armênia. Seu destino parecia marcado: filho de pais artistas, foi introduzido ao mundo do teatro em tenra idade. Começou a atuar aos nove anos de idade e logo assumiu o nome artístico Charles Aznavour (seu nome de batismo era Shahnour Vaghinagh Aznavourian). Seu sucesso aconteceu quando a cantora Édith Piaf o ouviu cantar e o levou consigo numa turnê pela França e pelos Estados Unidos.
Durante uma carreira de aproximadamente sete décadas, gravou mais de mil e duzentas canções, em francês e também em inglês, espanhol, italiano e alemão. Sua produção alcançou dimensões internacionais, fazendo dele um dos grandes embaixadores da canção francesa no século XX.
Para conhecer um pouco, mas com profundidade, a obra de Charles Aznavour, a Polydisc lançou uma coletânea de 20 das mais expressivas cações de Aznavour, denominada, muto a propósito, "20 Super Sucessos". E claro, poderia lançar outra com o mesmo título e com canções diferentes, que haveria sucessos suficientes.
A seleção inclui títulos fundamentais de seu repertório, canções que se tornaram clássicas, como “La Bohème”, “Que c'est triste Venise”, “Hier encore”, “Les comédiens”, “La mamma” e “She”. No CD também estão algumas versões em inglês de suas próprias composições.
Não se pode dizer que o disco seja uma biografia musical completa diante da dimensão de uma obra tão extensa. É, melhor dizendo, uma fotografia. E uma ótima fotografia.
Ao final da audição das 20 faixas, fica a impressão de que o verdadeiro tema de quase todas essas músicas é o tempo. O tempo que leva os amores, muda os rostos, encerra as juventudes e transforma as lembranças em saudade. Mas também o tempo que amadurece uma voz e dá novas dimensões a uma interpretação.
"La Bohème" (Jacques Plante e Charles Aznavour) abre o disco e já mostra que a qualidade das canções será elevada. Talvez uma das canções mais emblemáticas do repertório de Aznavour, é uma evocação da juventude dos artistas pobres de Montmartre, época de dificuldades materiais, mas também de sonhos, amizade e liberdade. A canção se tornou uma espécie de símbolo da Paris boêmia.
Em “Et Pourtant” (Charles Aznavour e George Garvarentz), a segunda faixa do disco, o cantor mergulha novamente no território sentimental. Aznavour nunca teve medo do melodrama, mas sua interpretação raramente cai no exagero. Há sempre uma contenção que torna a emoção ainda mais forte.
Na terceira faixa “Emmenez-moi” (Charles Aznavour) aparece o desejo de partir, conhecer outros lugares e escapar da rotina como uma fantasia que qualquer pessoa pode compreender.
Na quarta faixa encontramos outro clássico: "Que c'est triste Venise” (Françoise Dorin e Charlez Aznavour). Veneza, cidade italiana tantas vezes celebrada como cenário romântico, surge aqui sob uma perspectiva diferente: a cidade se torna triste quando o amor desaparece. O contraste entre a beleza do lugar e a tristeza do personagem é um dos recursos dramáticos mais característicos do compositor.
Esse diálogo com lugares aparece também em “Yesterday When I Was Young”, (Charles Aznavou e Herbert Kretzmer), a quinta faixa, versão inglesa de “Hier encore”. Trata-se de uma das canções mais fortes de toda a coletânea que mostra que o tempo não pode ser recuperado.
“Je m'voyais déjà” (Charles Aznavour) apresenta outro personagem recorrente em seu repertório: o artista que sonha com o sucesso. Há humor, ironia e uma certa dose de autocrítica na narrativa. Aznavour conhecia bem as dificuldades da vida artística e sabia que o palco podia ser simultaneamente lugar de glória e de fracasso.
A faixa seguinte, “Il faut savoir” (Charles Aznavour), o artista aborda a necessidade de aceitar as perdas e compreender que a vida exige renúncias. É uma das composições que melhor sintetizam sua filosofia artística. Aznavour não procurava esconder as partes dolorosas da vida; ao contrário, transformava-as em matéria-prima para a música.
Musicoólatras
DOIS APAIXONADOS POR MÚSICA A FALAREM DE VINIS, CDS E DVDS
domingo, 13 de setembro de 2026
O embaixador da canção francesa
sexta-feira, 11 de setembro de 2026
Quentura e agrura
Por Ronaldo Faria
-- Pelo amor de Deus, Claudionor: traz de vez o freezer pra cá!
O grito de Roberval, seco como o tempo, soou no bar e ecoou além. Nas mesas ao lado os outros famélicos de sede exigem o mesmo tratamento. “Se levar um freezer pra ele vai ter de trazer outro pra nós”, sentenciou um senhor já sem camisa e a verter bicas. “Nem fodendo: quero regalia igual”, bradou o rapaz que fazia cortesia à mulher oxigenada com o chapéu alheio do pai.
-- Viu a merda em que você me coloca, Roberval? Aqui só tem um lugar de guardar as cervejas e é pra todo mundo.
Parte do bar aplaudiu, outra vaiou peremptoriamente. O primeiro reclamante põe o rabo entre as pernas e aceita apenas pedir a mais gelada que ainda tiver. Ao derredor, na dor daqueles que têm de correr atrás da vida que lhes foi concedida, a realidade transita além dos 45 graus. Desses, quem tem uma sombra qualquer corre depressa antes que alguém dê fé. Aos quem não tem só resta arrestar o que lhe sobrar – beirada de poste, pedaço de galho, tantinho de nuvem passageira.
-- Deu! Traz a conta que eu vou pra casa me jogar no ar condicionado a cinco graus...
Assim pedido, assim feito. Conta paga, caminhar trôpego até o lar, porta aberta, aparelho ligado. Largado de tudo, do todo e de si, Roberval deita no sofá. Pensa em respirar tranquilo. Mas qual... Sobrecarga na rede derruba todo o sistema da região. Na escuridão calórica que sobra, soçobra no chão à espera de ao menos morrer num piso frio. Do alto, seja esse onde for, algum deus ri enrolado de tolha na sauna com os santos da hora e proclama sem drama toda a trama: “Gabriel, aumenta mais uns graus nessa bagaça!”
quarta-feira, 9 de setembro de 2026
Curtícula para terminar
Por Ronaldo Faria
Fármaco, álcool e incenso. Creiam nessa tríade. Como diz
Pedro Salomão, “eu já passei por tanta zica que nada vai me assustar. Se chover, viro mar”.
terça-feira, 8 de setembro de 2026
"Por que eu canto blues?"
segunda-feira, 7 de setembro de 2026
Sejamos prudentes, mas não como Prudêncio
Por Ronaldo Faria
Certamente demente, clemente de se abster de religião e candidíase, vai a correr pequenos pedaços de lembrar que, aos poucos, se tornam mesmices de relembrar. Na placidez que a escassez caça a cada vida, sobremaneira aflito pelo grito preso na garganta feito anta que rejeita cafuné, Prudência some em seu mundo de sol e orvalho. Brinca de ferida fechada feito fachada para continuar na escrita da pena molhada.
Na Torre de Babel que criamos à si, assimétrica como a dicotomia que desfez há muito na flacidez da tarde, da saúde e da morte, o perímetro que existe entre o número crível e a filosofia cível de nada ser ou estar. Afinal, o que devemos postar ou fazer no passado prostrar? Pois se somos universo de pouca coisa cheia de mistérios e senões, mistérios ou canções lembradas, criemos mundo próprio e utópico. Ótico e psicótico, quiçá.
Na certeza de que as próximas irrelevantes horas em nada se farão farsas de si mesmas, blasfêmias que poucas fêmeas seguirão, vamos a nadar em mares mil. Uns com correntezas que destroem o que há pela frente, outros com calmarias frígidas que nem moinhos de ventos sabem mexer. Entre o início e o fim, promíscuos apêndices que se misturam em alegria e dor. Em meio a tudo, o turbilhão que gira na lividez do amor.
Nas notas denotadas das canções que correm pelo ar, um princípio criogênico de felicidade e algo halogênico que nem o melhor químico saberá descrever ou criar. Mas, creiam, é isso que faz crer ao poeta que amanhã amanhecerá em mais outro amanhecer. Há muito ainda a escrever, descrever, fazer voltar, ser. Na fila de quem não pôde aqui cumprir seus escritos, pela morte e não pelos críticos, somos e estamos crisântemos a brotar.
sábado, 5 de setembro de 2026
A matar um bosta de um mosquito na tela do computador
Por Ronaldo Faria
Verossimilhança entre a
lucidez e a loucura. Mistura de dor e ternura. Âmbar que sai da ambulância em
fortuita discrepância. Anuência do que resta de restar. Pois o restante é
somente semente que se joga ao chão na crença de brotar. Na placa do mundo tem
placa exposta de felicidade para se alugar. Mas precisa de fiador, imóvel
próprio, heterodoxos parentes cheios da grana para tal loucura bancar. Ou seja,
tudo será apenas falácia feito comer escargot com torresmo. Em mim, mero esmero.
Feito pintassilgo que bebe da chuva passageira o último pingo, vamos a tocar a
versão beta de ser. A viver a caçada de Cara de Cavalo nos telhados da Tijuca,
tartarugas d’água num insípido lugar de cimento, o lamento efêmero de incêndios
a queimar em flashes de memória. Na mera calmaria que a quimera da farmacologia dá,
anginas pernoitam sob a esquina. Decerto, logo perto, alguém optou pela
estricnina.
quinta-feira, 3 de setembro de 2026
Rola e dói
Por Ronaldo Faria
-- Quem sabe. Junta remédio e álcool e a coisa dá uma freada brusca, dessas de cavalo de pau.
-- E isso é bom?
-- Bosta nenhuma. Mas se entregar de todo à dor é foda. Aí é melhor virar cinzas de vez.
-- Tem razão. E se é pra ter dor, vamos compensar com o que der pra compensar sem muito pensar.
-- É isso aí. Foda-se o resto. Se eu não presto, de corpo, que seja préstimo de cavalo de escritor que já passou dessa pra outra melhor...
Batista e Fulgêncio se entregavam em mistérios de um Algarves da paz, mesmo com oceano distante entre Madureira e as terras lusitanas. Cerveja sobre a mesa de plástico prático do subúrbio, vermelha e queimada de sol, brindavam a pouca vida e brincavam de ainda estar por aqui.
-- Pedir apenas para não sentir dor ao sentar é muito pedir?
-- Na boa, de boa, acho que não.
-- Então, caralho, custa alguém lá em cima ouvir o pedido?
-- Em cima de onde? A pomba no fio quase pronta pra cagar na gente ou as nuvens que o avião voa a algum lugar torcendo para não cair? Ambos aceitarem crer na sua fé?
-- Que seja. Que alguém seja só pra não deixar o resto de vida ser um só se foder...
-- Vou chamar outra pra fazer o papo valer. Demétrio, desce um périplo de geladas!
No rodear do lugar, gente corre e percorre suada do dia findo e trabalhado, cansado, encruado de vidas à espera do único dia de descanso onde nada irá acontecer. Talvez chuva inesperada, a parada encruada da Carreta Furacão, o maluco que queimou um cachimbo e achou de ficar doidão. Mas todos sequer sabem que a própria coluna podia ter sido ao menos a do Cavaleiro da Esperança, que fez história no calendário brasileiro. E ao contrário, para o bem da história escrita, não os levou ao desterro.
-- Você ainda tem um mínimo de esperança?
-- Em quê?
-- No amanhã, sei lá...
-- Quem poderá saber, quem saberá poder.
No ônibus que transita na pista, a mulher gorda dorme resiliente e crente. O office boy acredita que um dia ainda será patrão. O Zé Ninguém e a Maria Migalha se olham crentes no amor que a vista primeira dá. Na esquina, o policial militar espera não ter de nesse dia ter que se mijar. O vendedor ambulante é quase transeunte a mais na vigília pífia de sublimar a dor que vem do mar. Nalgum lugar alguém acende um incenso para dar cor de cheiro ao anseio de chegar.
-- A cerveja está mais quente ou é só impressão?
-- Sei responder não.
-- A porra do calor só fode com nós!
Em alguma caixa de som proibida pela Prefeitura, mas que rola solta, o cantor diz que amor da boca pra fora não é amor. Fulgêncio e Batista há tempos ouvem apenas o interior. E sambam daqui até o Olympia. Uma roda surge com pandeiro, tamborim, surdo, cavaquinho e cuíca pra animar geral. À vida, de forma literal a obliterar, o tempo passa a vagar rápido e eterno, etéreo. Terno, dirão os mais otimistas. Perverso, saberão os realistas. Tanto faz, como tanto fez. No amanhã nem todos terão vez. Afinal, ao invés de promessas sem felicidade, ao lado vive a cidade. Tópica, utópica, afônica, histriônica, catatônica, fervilhante, demente, frígida, louca a gemer. No morro que se mostra logo depois do último raio de sol, feito dois irmãos, o mundo diz que o mundo não vive, mas tem que aplaudir.
terça-feira, 1 de setembro de 2026
Ela voltou ou sempre esteve aqui
Por Ronaldo Faria
A dor voltou prenunciando a
faca que etra nas costas, a rasgar. Veio assim malandra, se aconchegando
devagar e berrou com tudo: "Cheguei". Retornou com fé e força. Destrambelhou geral. A carcomer
o pouco que ainda sobra para comer. A tornar cada gesto do corpo um sestro a
ser expurgado. A ordem é dar espaço à dor. Deixar tudo mero bagaço. Sem
direito sequer ao trago salvador. Nem aos deuses de umbanda poder pedir um tempo
regulamentar para conseguir ao menos num minuto ter mero tranquilo respirar. Na
azáfama do que isso seja lá o quer for virar...
(Com os Novos Baianos tentando amenizar a dor)
domingo, 30 de agosto de 2026
Ella is back!
sexta-feira, 28 de agosto de 2026
Vital Farias na paz de quem se vai
Por Ronaldo Faria
Tudo se vai um dia. Se esvai quando falta o respirar, os olhos perdem a visão, o tempo para de repente, como repente que o cantor faz brotar no seu cantar. E vai embora a entornar o que ainda resta num copo. Feito o que não foi feito por falta de tempo, de entrega, nesga de poesia no final da tarde. Vai como o pássaro que voa e revoa de galho em galho na busca de um dormir. Como casa ou jardim. E chega e se aconchega, se achega, igual burrega na noite tardia que nasce no morrer do dia. Na ilusão sombria da morte, alegria em ter saudade da vida nos restos que ainda brincam de torpor e dor, à sandice de crer na alegria. E assim o poeta e cantador dedilha métricas e notas a esperar que a eternidade lhe traga ao menos o fim dos lamentos. Ao longe surgem os derradeiros ventos e repentistas a lhe convidarem para na eternidade cantar e profetizar o amor na ilusão. Tudo meio poesia e outra metade canção.
(Vital Farias 1943/2025)
quarta-feira, 26 de agosto de 2026
Volteio da volta
Por Ronaldo Faria
terça-feira, 25 de agosto de 2026
A primeira-dama
Por Edmilson Siqueira
segunda-feira, 24 de agosto de 2026
Carinho de dedos e gargalhadas
Por Ronaldo Faria
sábado, 22 de agosto de 2026
Clarividência bêbada e lúcida
Por Ronaldo Faria
quinta-feira, 20 de agosto de 2026
A Capital capital
Por Ronaldo Faria
O embaixador da canção francesa
Por Edmilson Siqueira Como pode um cantor com uma voz pequena, rouca e dramática fazer tanto sucesso? Nada disso é problema se estamos f...
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Por Ronaldo Faria -- E aí, vamos? -- Claro. Só se for agora... Carlos e Kelé, amigos de infância, suburbanos desde os primeiros panos de ...
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Por Ronaldo Faria A chuva miúda amiúde traz flamboyants vermelhos a juntarem o casal que viaja em ervas mil onde o senhor mais senil pensa...













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