domingo, 7 de junho de 2026

Uma coletânea do Manhattan Transfer*

 Por Edmilson Siqueira


Há um ano eu escrevi aqui um artigo sobre um disco do grupo Manhattan Transfer, que eu gosto muito. Ótimas músicas e, principalmente, uma enorme qualidade vocal aliada à excelentes arranjos.   
E hoje volto ao grupo, mas para falar de uma coletânea dele que me chegou. São 16 faixas que dão uma boa ideia da qualidade de seus quatro componentes - dois homens e duas mulheres.   
O disco tem o singelo nome de "The Best Of", usado para a maioria das coletâneas e foi produzido na Alemanha. Tem uma parca produção gráfica. Só a capa com o nome das músicas que se repete na contracapa, sem nome de qualquer compositor nem a data da gravação.  
Essas falhas acabam sendo perdoáveis quando a qualidade do disco compensa, como é o caso. Mas dá muito mais trabalho procurar na rede, às vezes música por música para colocar o nome dos autores. A IA ajuda nessas horas.   
Minha admiração pelo grupo começou há tempos, quando ouvi em alguma rádio de jazz ou comprei o primeiro CD lá na Hully Gully Discos. Apesar da admiração, só tenho dois discos deles. Mas garimpando no YouTube e transformando as músicas em MP3, tenho no micro várias músicas interpretadas pelo grupo.  
Eles começaram em 1969 e, na verdade, poucos grupos vocais conseguiram atravessar décadas mantendo um padrão artístico tão elevado quanto o The Manhattan Transfer. O quarteto tornou-se uma referência mundial na arte da harmonia vocal, transitando com rara elegância entre jazz, pop, rhythm and blues, doo-wop e música vocal contemporânea. Essa coletânea reúne alguns dos momentos mais marcantes dessa trajetória, funcionando tanto como porta de entrada para novos ouvintes quanto como uma celebração da impressionante carreira do grupo. Cabe assinalar que ela foi gravada no fim dos anos 1980, deixando de fora, obviamente, o que se produziu depois e não foi pouco.  
Dessa safra, que termina em 1987, o último CD foi um chamado Brasil, com músicas de Djavan, Ivan Lins, Vitor Martins, Milton Nascimento e Márcio Borges, além de alguns compositores norte-americanos.  
O som do Manhattan Transfer pode ser considerado como uma identidade única. Enquanto muitos grupos vocais se limitavam a um único estilo, eles abraçaram uma enorme diversidade musical. O resultado foi uma discografia rica e sofisticada, marcada por arranjos complexos e uma afinação impecável.   


A coletânea apresenta sucessos que ajudaram a transformar o grupo em um fenômeno internacional. Entre eles está a inesquecível “Birdland”, composição do grupo Weather Report que ganhou uma versão vocal considerada por muitos uma obra-prima do vocal jazz. O arranjo demonstra a habilidade do quarteto em transformar uma peça instrumental complexa em uma experiência vocal fascinante. As vozes funcionam como instrumentos, reproduzindo linhas melódicas e texturas que desafiam os limites da música vocal tradicional.  
Outro destaque é “Boy From New York City”, uma gravação contagiante que levou o grupo às paradas de sucesso no início dos anos 1980. A faixa combina elementos do doo-wop dos anos 1950 com uma produção moderna e vibrante. Seu clima descontraído ajuda a explicar por que se tornou um dos maiores êxitos da carreira do conjunto.  
A coletânea também evidencia a paixão do grupo pelo jazz. Em diversas faixas, o ouvinte encontra referências à era das big bands e ao swing clássico. O Manhattan Transfer não apenas homenageia esse repertório, mas o recria com uma abordagem contemporânea. Os arranjos são sofisticados sem perder a leveza, e a técnica vocal impressiona sem soar exibicionista.  
Grande parte desse sucesso deve-se à formação clássica do grupo, composta por Tim Hauser, Janis Siegel, Alan Paul e Cheryl Bentyne. Juntos, eles desenvolveram uma química rara. Cada voz possui personalidade própria, mas o resultado coletivo é sempre harmonioso e equilibrado. Essa combinação tornou-se uma das marcas registradas do grupo.  
De 1987 até dezembro de 2023, o grupo gravou muita coisa, mas foi nesse ano que a atividade foi encerrada. Uma apresentação no Walt Disney Concert Hall, em Los Angeles, marcou o fim da "Final World Tour", a turnê de despedida que comemorou os 50 anos de história e do legado do quarteto.  
A seleção de músicas, com seus respectivos autores (obrigado IA) é a seguinte:  
- Tuxedo Junction (Erkskine Hawkins, William Johnson, Buddy Feyne e Julian Dash)  
- Operator (William Spivery)  
- Chançon D'Amour (Wayne Shanklin)  
- On a Little Street in Singapoure (Peter DeRose e Billy Hill)  
- Four Brothers (Jimmy Giuffre, Jon Hendricks)  
- Twilight Zone A (Bernard Herrmann, Jay Graydon e Alan Paul)  
- Twilight Tone B (Bernard Herrmann, Jay Graydon e Alan Paul)  
- Trickle Trickle (Clarence Bassett)  
- Birdland (Joe Zawinul, Jon Hendricks)  
- The Boy From New York City (John Taylor e George Davis)  
- On The Boulevard (Richard Page)  
- This Independence (John Capek e Marc Jordan)  
- Spice of Life (Rod Temperton e Derek Bramble)  
- Ray's Rockhouse (Ray Charles e Jon Hendricks)  
- That's Killer Joe (Jon Hendricks e Benny Golson)  
- Soul Food to Go (Djavan)  
O disco pode ser encontrado nos bons sites do ramo. Não encontrei no YouTube o disco completo, mas há um endereço com 23 gravações do Manhattan, com várias das músicas do disco: https://www.youtube.com/watch?v=vr2X-wO3_3M&list=PLcvZ5KmI-bv5H7hOsWJmcWs_jaTIWcYcc .  

*A pesquisa para este artigo foi auxiliada pela IA do ChatGPT. 

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Passarinhando no mundo

 Por Ronaldo Faria 


O passarinho mais desavisado pensou ter acordado no lugar errado. As flores brotaram do dia para a noite, os frutos já começavam a despencar das árvores de tão maduros, o riacho antes quase seco jorrava água para a terra que dormiu esturricada e amanheceu dando loas à vida. Tentou piar para avisar outras aves do milagre que aconteceu, mas já era notícia velha. Elas já sabiam desde antes e ressonavam de bico e barriga cheios. Então, era apenas a hora de saciar igualmente a fome tardia.
O cachorro, que dormiu magérrimo e com vermes a devorá-lo por dentro, despertou, de repente, sorridente em seus poucos dentes. As dores já não lhe consumiam e até o pelo reluzia ao sol ameno. Seu pote de água estava cheio e a ração minguada havia se transformado numa tigela de bifes no ponto (se bem que tinha um mal passado). Levantou-se desperto e certo de que milagres acontecem e latiu com gosto de latido bom. Afinal, seu dono tinha se esquecido de prendê-lo na coleira e estava livre para correr pelo pasto.
Aliás, no pasto, o gado acordou a mugir gostoso. O mato estava alto e verde. O cocho cheio de sal e de água. Havia um mundo inteiro verde e redundantemente verdejante. Os bezerros não estavam separados de suas mães e sorviam leite fresco e quente. Até os machos escolhidos para o abate estavam felizes. E vivos. O caminhão que iria buscá-los fundiu o motor e seu reparo estava marcado para pelo menos uns meses a mais. Imponente, o touro via a sua manada viver em paz e sem medo da morte.
Os carneiros, igualmente, quando abriram os olhos até acharam que tinham sido levados para outro lugar. O curral onde ficavam apertados e prontos para o abate e corte do facão de cima até embaixo, com suas tripas e órgãos jogados numa gamela, estavam livres e dividiam o pasto com o gado e até alguns porcos longe de sua execrável lavagem. Com seu pelo branco, aa ovelhas branqueavam a cena de cor. E brincavam de correr e pular, a emitirem sons e sílabas que só carneiros de presépio sabem ter.
As galinhas quando deixaram o poleiro se depararam com um chão forrado de espigas e grãos de milho, num tal de verde/amarelo que os olhos ciscavam sem parar. E chamaram seus rebentos amarelos a piar para crerem que vida há. Os galos cantaram fora de hora, bateram asas num ritual informal e até esqueceram de cobrir suas amadas de penas. E era um tal de cacarejar que o dia se tornou mais claro e vivo. Diante do quadro, até a raposa decidiu que a partir dali iria virar vegetariana ou vegana.
E nesse ritmo o carcará, a coruja, bodes e cabras, abelhas africanas ou não, burros, jumentos, tanajuras, vagalumes, peixes em suas lagoas transbordando e rios caudalosos, assim como toda a bicharada que ainda vivesse se integraram à festa. O mundo virou um salão de dança e andança pela vida. Mesmo Deus, o tal Todo Poderoso, esqueceu seu poder e resolveu requebrar ao som de arcanjos e anjos com seus instrumentos celestiais. Se um grande artista tentasse escrever a cena, não conseguiria.
O homem? Quem? Ah, o ser humano... Esse estava extinto do planeta após a hecatombe provocada por ele mesmo. Afinal, raro e caro leitor, como tal conto existiria com a presença de tal canastrão e ator sobre a Terra? Devagar, a cortina do teatro da natureza se fecha para o derradeiro ato. A plateia vazia com a bilheteria fechada não aplaude a temporada. Para sorte da trama, sem drama. Amedrontada, a garotinha que foi poupada do fim apenas reza de mãozinhas juntas para que o livro da redenção traga um Adão que seja Eva e uma Eva que dispense o tal Adão. No seu sonho, salve a promissão.
 
(Com Os Gil no ar)

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Xamegô

 Por Ronaldo Faria


De repente, no rompante da vida, Maria vê José diante da janela que esqueceu de fechar a tramela. Na gamela, bofes do carneiro que berrou até morrer, rasgado de cima até embaixo no facão do boiadeiro. E agora? Abrir a porta de madeira ou não? O coração falou mais alto e as mãos, com as unhas pintadas de vermelho em sangria da pétala carente de virar flor, abriram a porta, déspota das emoções com o coração a frigir óvulos do mundo e do tempo.
-- Obrigado Maria por abrir a porta. Na verdade, só vim aqui pra beber um gole da água do pote.
-- Tudo bem. Te trago um copo agora.
No fole da sanfona desafinada da vida, a água desce a garganta ancha de amor e solicitude. Na vida que corre do lado de fora, a ânfora está cheia de meias verdades, saudades etéreas, simulacros mil. Ou seja, a pantomima da vida.
-- Muita secura aí fora?
-- Com certeza. Meu cavalo quase morre de sede...
-- Quer que encha o cocho pra ele?
-- Se puder, agradeço junto com o alazão.
Animal sedento afinal saciado, a história poderia ter fim. Mas qual... A cena dentro da cena principal é primordial. Nela, o tempo terminal se faz atemporal. Nele se juntam saudade e efemérides nunca comtempladas de festejos. No ensejo do nada, mil fadas em fodas com anjos e arcanjos arqueados pelo tempo.
E assim, Maria e José, feito escrituras da bíblia escrita e republicada com mil mudanças que a fé e crença têm que ter no seu tempo, viram realidade na tristeza e na dor como fossem só amor. E se abraçam e desatam, se camuflam na realidade da saudade, tramam nova realidade. E assim são sonhadoras e utopia, senão. Afinal, diásporas da vida, vivem a ilusão de ainda ser...

terça-feira, 2 de junho de 2026

Bessie Smtih, a pioneira do blues e do jazz*

  Por Edmilson Siqueira


O disco se chama "I’m Wild About That Thing" e reúne algumas das gravações mais representativas de Bessie Smith, uma artista que ajudou a moldar a linguagem do blues urbano e abriu caminho para praticamente todas as grandes intérpretes do jazz e da música popular negra do século XX. O título do álbum vem da canção homônima registrada em 1929, um com muito humor, sensualidade e dramaticidade> por suas interpretações precisas, oferecendo à música o sentimento sincero, ela passou a ser chamada de “Imperatriz do Blues”. 
Bessie nasceu no Tennesse, no fim do século 19 e viveu apenas 43 anos. Morreu em 1937, mas foi a mais popular cantora de blues das décadas de 1920 e 1930. 
Sua vida não foi fácil. Aos 9 anos já era órfã de pai, quando sua mãe também morreu e sua irmã mais velha, Viola, ficou encarregada de cuidar de seus irmãos e irmãs. 
Para arranjar algum dinheiro, Bessie e seu irmão Andrew começaram a se apresentar nas ruas de Chattanooga como um dueto, ela cantando e dançando, ele acompanhando no violão, principalmente na frente do White Elephant Saloon no coração da comunidade afro-americana da cidade. 
Mas por volta ded 1920, ela alcançou um grande sucesso com seu primeiro lançamento, uma mistura de "Gulf Coast Blues" e "Downhearted Blues", que sua compositora, Alberta Hunter, já havia transformado em um sucesso na Paramount Records. Bessie se transformou a atração principal no circuito de teatros negros e acabou se tornando sua atração mais popular na década de 1920. Trabalhando no teatro e fazendo turnês, ela se transformou na artista negra mais bem paga de sua época. Sua gravadora, a Columbia apelidou-a de "Rainha do Blues", mas uma jogada de marketing passou o título dela para "Imperatriz". 
Sua morte aconteceu devido a um acidente de carro. 
Ao ouvir esse disco hoje, mais de nove décadas depois das gravações originais, a força emocional da cantora ainda impressiona. As gravações padecem de um a tecnologia atual, obviamente, mas percebe-se claramente que estamos ouvindo uma excelente cantora.  
Não à toa, tornou-se a maior estrela do blues clássico feminino, vendendo milhares de discos e excursionando por todo os Estados Unidos.  
As faixas de "I’m Wild About That Thing" mostram uma cantora já plenamente madura artisticamente. Críticos afirmam que "diferentemente de muitas intérpretes da época, que apostavam em exageros sentimentais, Bessie equilibrava emoção e controle técnico com rara sofisticação. Sua voz possuía potência quase operística, mas nunca perdia o balanço do blues. Ela dominava o fraseado com naturalidade impressionante, atrasando ou antecipando sílabas para criar tensão rítmica e dramaticidade."


Outro aspecto fascinante do disco é a qualidade dos músicos acompanhantes. Muitas dessas sessões contavam com alguns dos maiores instrumentistas do jazz primitivo e do blues urbano.  
Sua importância pode ser medida pela influência duradoura que exerceu em artistas como Billie Holiday, Dinah Washington, Nina Simone e Janis Joplin. Todas herdaram, em maior ou menor grau, essa capacidade de transformar vulnerabilidade em força expressiva. 
Portanto, mais do que uma simples coletânea histórica, "I’m Wild About That Thing" funciona como retrato de uma artista monumental. Sua arte ajudou a estabelecer as bases do canto jazzístico moderno e redefiniu o papel da intérprete feminina na música popular. 
Todas as faixas foram gravadas nos anos de 1927 (5 delas), 1928 (3), 1929 (2) e 1933 (1) e são as seguintes: 
- Alexander's Ragtime Band (Berlin) 
- Tromboine Cholly (Brooks) 
- Lock and Key (Creamer e Johnson) 
- A Good Man Is Hard to Find (Green) 
- Dyin' By the Hour (Brooks) 
- Foolish Man Blues (Smith) 
- Thinking Blues (Smith) 
 Devil's Gonna Get You (Granger) 
- I Used To Be Your Sweet Mama (Miller) 
- Standing in the Rain (Smith) 
- I'm Wild About That Thing (Willians) 
- You've Got to Give me Some (Willians) 
- Kitchen Man (Razaf e Belledna) 
- He's Got Me Goin' (Gray) 
- Blue Spirit Blues (Willians) 
- Do Your Duty (Wilson) 
- Gimme a Pig Foot (Wilson) 
O CD pode ser encontrado nos bons sites do ramo e, embora eu não tenha encontrado esse disco no YouTube, há uma página lá com 49 canções delas, muitas das quais estão nessa coletânea: https://www.youtube.com/watch?v=Mfsq8bqAVB4&list=PLk2hj6N_gFGqL6mMUOjwOI486fR0ZhHnP . 

*A pesquisa para este artigo foi auxiliada pela IA do ChatGPT.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Vira o disco!

  Por Ronaldo Faria


-- Vamos lá! Concentração! Se liga que a discografia mudou. Agora rola Luiz Tatit.
Os neurônios demoram a se ligar. Mas, passo vagaroso com outro passo no passadio da escrita, vão se tornando escrito e escritura de verdade. Ainda não rolou o barato, mas surge ao menos o fato. Tátil.
 
Ps aos privilegiados que bebem: não deixar rolar a primeira vazão mictória. Se ela rolar, outras muitas virão no desenrolar.
 
Acácio, arcanjo de si mesmo, a esmo, malevolente e finito no infinito que a loucura da criação dá, pede passagem à miragem que o resto de vida traz. Sábio de si, sabe que o restante do mundo real não tem muito mais a vir. Talvez um momento feliz intercalado do momento findo, à solicitude frágil e fácil de sete palmos jogado. Senão, a fragilizada tormenta duplamente fragilizada do mundo trágico. Talvez a inenarrável saudade. Mas, para Acácio, vilipendiado em si mesmo, pouco importa. A porta fechada ou aberta é só coisa ilusória.
-- E aí, mano, vamos encher a cara?
-- Tem opção?
-- Não.
-- Então vamos lá!
No boteco, coisa feito treco que tem que existir pra vida coexistir, a resposta é a posta insalubre do cardápio e do linguajar. E Acácio e seu parceiro fetal viram um só a tentar se encontrar. Umas doses vêm e outras não voltam. Todas se jogam nos copos em cópulas com as bocas e gargantas dos descritos personagens. A paisagem é mera voltagem 110 em tomada 220. Para mudar a realidade, um garçom solícito e carente dos 10% é só perguntas: “Vai outra?” A cena, enfim, é mero numerário.
-- Vamos pra saideira?
-- Com toda a certeza...
Na mesa de plástico que nunca veria o pior mármore sobre si, os amigos minguam ao tempo para saber que o destino é desconhecido e ínfimo, infame. Na canção que a vida dá, a poesia pergunta quem abraçou quem. Para o Criador, a rir de tudo, a vida não vale um vintém.

sábado, 30 de maio de 2026

Com Celso Fonseca

 Por Ronaldo Faria


Batuque que nem tuk-tuk ou toque-toque. Tanto faz se puder rimar. Afinal, daqui, longe do mar, a vida é apenas um deserto novo. Tergiversando o tempo, o lamento da foto antiga a fazer a vida voltar. E tem gente a curtir o passado que, quisera, fosse presente apenas por ser. Mas a vida, ávida de crer que pode ser eterna ou terna, é como trena que mede os milímetros que faz cada um de nós ainda sobreviver. Atemporal ao temporal de Verão, versão 2025, vamos saber com a realidade que, se ela dança, eu danço. Aliás, o que não falta a cada um de nós é dançar, sambar, girar, rodopiar, beijar... até o dia de não acordar.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Tempo hoje na espera de um amanhã

 Por Ronaldo Faria


Amâncio, o manso aos tempos promíscuos, reza mais um terço aos anjos do mundo terreno. Com terra nos pés por causa da rua nunca asfaltada, mesmo com promessas eleitorais de candidatos mil, senta para ouvir o rádio dizer que a chuva não vai parar. “Mas, deixa pra lá. O teto de amianto vai me salvar”, pensa em seu aceitar eterno. Lá fora, São Pedro pensa diferente. Puto com a humanidade e rente às perguntas da vida, manda a água cair e detonar. Mas Amâncio não está nem aí. Importante é ter sono pra dormir e poder acordar outra vez. De repente, entre um estrondo e outro de trovão com raios a despencarem do céu, ouve a porta em batidas se aperceber.
-- Amâncio, abre essa porra!  Estou molhada até a calcinha!
A voz era de Manuela, sua enamorada platônica. Atônito, corre para destrancar o cadeado da porta que o afasta dela. “Perdão, Manu. Só ouvi agora. Estava no banheiro. O barulho da descarga não deixou ouvir antes e vir te abrir a porta.
-- Tudo bem. Deixa eu entrar.
-- Claro, por favor.
Entre um e outro relâmpago, Manuela entra na casa de poucos e efêmeros cômodos sem se incomodar.
-- Não repara a bagunça. Homem solteiro é isso.
-- Tudo bem, nesse dilúvio só deu tempo de entrar aqui.
-- Bendito dilúvio... Quer dizer, que merda de chuva...
-- Tem uma breja aí?
-- Claro, claro. Já vou buscar.
“Deus existe? Essa chuva de baldes caindo do céu só veio pra me trazer ela?” – pensa Amâncio em seus poucos neurônios.
-- Pronto, está aqui, nos trinques!
-- Valeu. Estava com a garganta seca, apesar da água que está caindo.
-- Tudo bem. Tem mais umas oito na geladeira. Espero que dê pra molhar sua garganta...
Papo veio e papo foi. Reto ou controverso. Gargalhadas também. Um ou outro olhar atravessado, falsos olhares enviesados.
-- Afinal, Amâncio, porque você vive só?
-- Sei lá. Acho que ainda não encontrei a minha cara metade. Ou a metade da minha laranja apodreceu sem eu saber.
-- Amâncio, você é muito comédia!
“Comédia? Será que foi elogio? Talvez seja melhor do que ser tragédia”, pensou. Lá fora, aforismo de tudo, a chuva não dá trégua. E alaga ruas, caminhos, vielas. A favela despenca às pencas. Até a biqueira resolveu suspender o delivery. Mas no casebre de Amâncio a chuva contagia a vida como fosse apenas um tempo mínimo na vida que há.
-- Você tem algo mais forte que uma cerva?
-- Tenho uma branquinha de alambique. Vai?
-- Claro. Manda ver.
A partir daí foram risadas, toques malemolentes, proximidades perigosas, abraços perpétuos, bocas sugadas em sofreguidão. Amâncio e Manuela sendo dois num só. Afinal, milagres de início de ano também existem. E até Pedrão do Céu aceitou o amor que a chuva causou e decide fechar a bica celestial para não atrapalhar o casal. Um sol meio bundão até chega pela manhã. Porém, o casal casual, na cama a rolar, não liga para o tempo formal. Milagre de réveillon atrasado, os dois transam como se a vida não tivesse novo porvir. E assim, poesia e canção, são a unção daquilo que, entre desejos e senões, não tem fim. 

(Com Celso Fonseca a rolar)

terça-feira, 26 de maio de 2026

Restolhando

 Por Ronaldo Faria

 

Restinho de lucidez na fluidez que a vida dá. O incenso terminou, a cerveja quase derreou, as teclas do computador permanecem inglórias na glória do escrever e escrevinhar. É hora de apagar para no amanhã (inevitável) tentar despertar.

domingo, 24 de maio de 2026

Uma coletânea de Teddy Wilson

 Por Edmilson Siqueira


O disco que tenho dele foi lançado em 1995, dentro de uma coleção chamada simplesmente de "Jazz" da "Ediciones del Prado", espanhola, por supuesto. No pequeno encarte, apesar do bom trabalho com as fichas de cada música, não há nada mais, apenas um aviso que "esta brabación no puede ser vendida separadamente de la coleción". Mas foi.  
Segundo descobri nas internets da vida, a editora "fue una de las editoriales españolas más influyentes en el mundo de las colecciones por fascículos. Fundada a finales de los años 80 en Madrid, se convirtió rápidamente en un referente gracias a sus publicaciones culturales, históricas y educativas, así como a sus famosas series de miniaturas y modelos coleccionables distribuidos en quioscos." Como se vê, a editora foi grande, Aliás, distribuía os famosos gibis do Asterix, de quem fui, e sou, grande fã. Mas encerrou suas atividades em 2007. 
A coleção "Jazz", não encontrei na rápida pesquisa que fiz. Mas o que interessa aqui é que o disco de Teddy Wilson é um divertido exemplar de um jazz que quase não se encontra mais por aí, a não ser em conjuntos que tentam preservar o rico passado do gênero. 
As gravações variam de 1934 a 1945, um fértil período do jazz nos Estados Unidos, principalmente em Nova York, onde foram feitas todas as gravações, com exceção de apenas uma delas. Das 13 faixas, uma delas é um solo, obviamente, ao piano. Seis delas é com a "Teddy Wilson and his Orchestra"; duas com sua "Big Band", duas com um sexteto, uma com um quarteto e uma com um trio. Como se vê, nesses 11 anos que as gravações abrangem, Teddy passeou por vários formatos de grupos. 
A Wikipédia nos informa que Teddy Wilson "foi descrito pelo crítico Scott Yanow como o 'pianista balanço definitivo', com um estilo sofisticado e elegante que foi destaque nos registros de muitos dos maiores nomes do jazz, incluindo Louis Armstrong, Lena Horne, Benny Goodman, Billie Holiday e Ella Fitzgerald. Com Goodman, ele foi um dos primeiros músicos negros a aparecer com destaque com músicos brancos. Além de seu extenso trabalho como sideman, Wilson também liderou seus próprios grupos e sessões de gravação do final dos anos 1920 aos 1980. 


Wilson nasceu em 1912 e morreu em 1986, aos 73 anos. Começou sua carreira profissional em 1929 com a banda de Speed Webb . Depois de excursionar com a banda, ele decidiu ficar em Chicago e trabalhou com Louis Armstrong e sua orquestra entre 1931 e 1933. Ele também foi substituto de Earl Hines na Grand Terrace Cafe Orchestra de Hines antes de se mudar para Nova York para se apresentar com os Chocolate Dandies de Benny Carter em 1933.  
O nome da coletânea que tenho é "China Boy" que vem a ser a décima faixa. A interpretação de dessa música por Teddy Wilson é um belo exemplo do swing elegante e sofisticado que marcou a carreira do pianista. A canção, composta em 1922 por Phil Boutelje e Dick Winfree, tornou-se um standard do jazz e foi gravada por inúmeros artistas ao longo das décadas, entre eles Benny Goodman, Louis Armstrong e Coleman Hawkins.  
No caso de Teddy Wilson, “China Boy” ganha um tratamento refinado, marcado por seu toque leve, fluidez melódica e senso impecável de swing. Wilson foi um dos pianistas mais importantes da era do swing, conhecido pela clareza harmônica e pela capacidade de unir sofisticação técnica e naturalidade. Seu estilo influenciou gerações de pianistas de jazz. 
Além de "China Boy", o disco tem as seguintes músicas, com o respectivo ano da gravação: 
- "Somebody Loves Me" (G. Gersh, B. De Sylva e B. McDonald) - 1934 
- "I'm Paintin the Town Red" (C. Newman e S. Stept) - 1935 
- "All My Life" (S. Mitchel e S. Stept) - 1936 
- "Why Do I Lie to My Wifw About You?" (J. Fred Coots e B. David)  
- "Salin' (T. Wilson) - 1936 
- "I've Found a New Baby" (S. Willians e J. Palmer) - 1937 
- "If Dreams Come True" (E. Sampson, B. Goodman e L. Mills) - 1938 
- "Wham" (E, Durham e T. Miller) - 1939 
- "71" (B. Webster) - 1940 
-  "China Boy"  (D. Winfree e P. Boutelje) - 1941 
- "Indiana" (J. Hanley e B. McDonald) - 1944 
- "i Want Be Happy" (V. Youmans e L. Caesar) - 1944 
- "Rose Room" (A. Hickman  e H. Williams) - 1945 
O CD está à venda nos bons sites do ramo. Não encontrei no Youtube, mas nesse endereço https://www.youtube.com/watch?v=u7zJgXyI_e0&list=PLyqAz2idXOaXyFWqXPPEnT6k6pj4IWaPT há tudo que ele gravou na Verve. São mais de 100 títulos. 

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Procê

 Por Ronaldo Faria 


A menina, infinda e ferida nunca sarada do coração, caminha na calçada que existe entre o emaranhado do sim e do não. Musa da poesia tardia que a antevisão faz, efeméride perdida no calendário que nem as corcovas do dromedário trazem, é apenas juras de um passado esférico como a Terra que roda em si mesma sem parar.
A menina, há muito mulher formada, performática e atávica, dramática e sórdida, utópica e calórica, ilusionista ao tempo que foi, segue na noite a desvirginar onde um castrado amor ainda pensa em chegar. Na dor, fragilizada em poemas e torpor, sabe que a festa traduz a luz que o sol coberto de nuvens não traz mais.
Mas a menina, grandiloquente e rente entre a loucura e o dissabor, sabe ainda que cada beijo seu perdido ao nada é apenas uma pena que o vento deixou de fazer voar. Sobremaneira, entre uma eira e outra beira, segue linda e infinda a pisar no chão que agradece por ela existir. Longe, olhares mil a fazem reluzir em crível brilhar.
No traduzir da poesia infinita, procura rebrilhar em algum pesar. Na cena, a menina caminha profícua e célere à chegada que traduz nova procura. Alhures à serenidade da serena que na poesia se traduz, resta a tradução do descobrir, ter e perder. Na inenarrável e perdida lucidez que ainda resta, a mulher para e vê nos olhares que a seguem que, longe, ainda há aonde chegar.
 
A ti, pra ti, por ti, em ti, para a eternidade que não há ou existe a resistir.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Derradeira na dor da coluna

 Por Ronaldo Faria


No xingamento que o lamento da artrose traz, a iluminura lumia a doçura da lua que faz luz pra chegança da madrugada madrigal e tardia. No alpendre que se espraia cilíndrico e tímido pra tanto viver, a rede balança com o corpo ancho que logo nela irá morrer. Na chamada última do boiadeiro com sua bezerrada, as mães de cada bovino menino ou menina mugem de saudade desgarrada de vontade da cria lamber e rever.
No sentimento ermo que termina no findo espaço de sobreviver, a cada palmo proscrito e retinto de ferver o coração mais gélido e pérfido, o andor de andar nos braços daqueles que acreditam que há um Deus em meio a tanto torpor. A porta fechou-se sozinha? Saber-se-á. O incenso aceso e que faz a fumaça brotar vira mais um novo esperar. Na derradeira premência, o prenúncio da nova madrugada a brotar e pedir pra chegar.

(Com Elba Ramalho e Dominguinhos)

terça-feira, 19 de maio de 2026

O primeiro - e antológico - disco de "jazz samba"

 Por Edmilson Siqueira


São apenas sete músicas e as faixas consomem pouco mais de trinta minutos. Era um LP que virou CD e todos sabem que LPs eram limitados dentro desse tempo. Mas a categoria dos dois intérpretes compensa: Stan Getz e Charlie Byrd fizeram, com seus sax e violão, um disco icônico da bossa nova, pelo menos para os Estados Unidos. O disco se chama "Jazz Samba".  
Stan Getz, como quem gosta de bossa nova deve saber, foi um dos primeiros músicos norte-americanos ligados ao jazz a se "apropriar" da bossa nova e com ela fazer muito dinheiro, inclusive muito mais que Jobim ou João Gilberto, estrelas em seus discos com músicas brasileiras. Ruy Castro, no livro "Chega de Saudade" explica bem essa relação de esperteza do gringo. 
Mas, claro, isso não invalida o excelente saxofonista que era (ele morreu em 1991, aos 64 anos) e que gravou muita coisa boa além de bossa nova.  
Seu parceiro nesse precioso disco é ninguém menos que Charlie Byrd, outro grande músico que também se apaixonou pela música brasileira e, jazzista que era, deu-lhe grandes interpretações, gravando não só esse, mas outros discos com a nossa música mais internacional. 
Stan Getz, de pais ucranianos, nasceu na Filadélfia, mas logo seus pais se mudaram para Nova York em busca de melhores condições de trabalho.  
Aos 14 anos, já dominando o sax, Getz entra para a banda de Jack Teagarden, e toca, também, com Nat King Cole e Lionel Hampton. Após tocar com Stan Kenton, Jimmy Dorsey e Benny Goodman, Getz torna-se solista com Woody Herman, de 1947 a 1949, destacando-se como um dos principais saxofonistas da banda, conhecida como "os quatro irmãos"; os outros eram Serge Chaloff, Zoot Sims e Herbie Steward. Com Herman, Getz alcança um primeiro êxito com "Early Autumn". Após deixar a banda, inicia a sua carreira a solo. A partir de 1950, seria o líder na quase totalidade das gravações que participaria. 
Portanto, antes de conhecer a música de Jobim e companhia, Getz já era um músico mais que experiente. 
Em 1961, depois de passar dois anos em Copenhague para se livrar das drogas, Getz volta aos EUA e, com Charlie Bird grava esse "Jazz Samba", que se tornaria um clássico do jazz também.   
Charlie Byrd nasceu em Suffolk (Virgínia) em 1925. Depois de estudos até de violão clássico, de participar da Segunda Guerra e de se apresentar em Paris, aos 33 anos ele conhece a música brasileira apresentado a ela que foi por Felix Grant , um amigo e radialista que tinha contatos no Brasil no final da década de 1950 e que era bem conhecido lá em 1960 devido aos esforços do radialista brasileiro Paulo Santos. 


Quem nos informa é a Wikipédia: "Após uma viagem diplomática pela América do Sul (incluindo o Brasil) em 1961 para o Departamento de Estado, Byrd voltou para casa e encontrou-se com Stan Getz no Showboat Lounge. Byrd convidou Getz para ouvir em sua casa algumas gravações de bossa nova de João Gilberto e Antonio Carlos Jobim que ele havia trazido. Getz gostou do que ouviu e os dois decidiram que queriam fazer um álbum com as músicas. A tarefa de criar um som autêntico, no entanto, provou ser muito mais desafiadora do que qualquer um dos dois havia previsto.  
Taylor e Byrd reuniram um grupo de músicos que conheciam. Essas primeiras sessões não agradaram a nenhum dos dois, então Byrd reuniu um grupo de músicos que já haviam estado com ele no Brasil e ensaiou com eles em Washington até que os considerasse prontos para gravar. O grupo incluía seu irmão Gene ("Joe") Byrd, bem como Keter Betts , Bill Reichenbach e Buddy Deppenschmidt . Reichenbach e Deppenschmidt eram bateristas, e a combinação facilitou a obtenção do ritmo de samba. Finalmente, o grupo foi considerado pronto e Getz e Taylor chegaram a Washington em 13 de fevereiro de 1962.  
"Jazz Samba" foi lançado em abril de 1962 e, em setembro, já havia entrado na parada de álbuns pop da Billboard. Em março do ano seguinte, o álbum alcançou o primeiro lugar. O termo "bossa nova" só foi usado posteriormente. O álbum permaneceu nas paradas por setenta semanas e Getz logo superou John Coltrane em uma pesquisa da revista DownBeat . Uma das músicas mais populares do álbum foi um sucesso de Jobim e Newton Mendonça, 'Desafinado'." 
Esse disco é considerado o verdadeiro introdutor da bossa nova nos EUA e de sua miscigenação com o jazz.  
A primeira faixa, "Desafinado" já foi e continua sendo tema de abertura de muitos programas de jazz no mundo. 
As outras faixas são as seguintes: 
- Samba Dees Days (Charlie Byrd) 
- O Pato (Silva e Teixeira) 
- Samba Triste (Baden Powell e Billy Blanco) 
- Samba de Uma Nota Só (Jobim e Newton Mendonça) 
- É Luxo Só (Ari BArroso e Luiz Peixoto) 
- Bahia (Ari Barroso) 
O CD e o LP (esse com preços bem elevados) encontram-se à venda nos bons sites do ramo. E pode ser ouvido na íntegra no YouTube em https://www.youtube.com/watch?v=npKGdsiQz9Q&list=PLshZGiYN-cEwE9cjnIlDFjVJHR2RLin9f . 

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Pra ver e rever

Por Ronaldo Faria

 

A estrada estradeira e besta de tão distante e presenteira se interpõe no aposto de quem segue querendo ir e voltar, quiçá chegar nalgum lugar. É cheia de pó, pedriscos e terra batida. Num canto qualquer tem até cruz pra marcar a morte que ali aconteceu. Mas tem também cruz pra marcar o anjinho que não viu sequer a terra enxergar. Aprumado no seu cavalo, Severino, severo em seu prumar, segue até a feira de Feira de Santana pra comprar um cortado de cetim para seu amor.
Na estrada, caminho de inda e de vinda, de gente que vai e vem, rumo do sonhador e daquele que há muito deixou de crer, surgem o sol e o entardecer, limiar e ar que faltam na morte certa. Na reza da mulher de luto, o preto do vestido é o instinto retinto que o tempo traz. No caixão, deitado pra nunca mais levantar, derradeiro lamento do qual não irá participar, Bastião descansa enfim seu chegar. No poleiro, as galinhas voltam do ciscar para dormir e fugir da raposa que as espera para saciar a fome da seca.
Na estrada que podia se bastar num estrado se lá estivesse Maria, Severino segue no prumo que a tudo faz chegar. O Sol, que se espraia na terra esturricada sem ter dó de quem o recebe (“É tudo plebe”, diz), segue seu calor a vazar. O cavalo magro e pálido que o conduz pede apenas que valha a pena um descansar quando chegar. No embornal, pedidos da feira que aperreia quem não pode vislumbrar as barracas que são quase mil na avenida de compras no ver o sonho sonhar.
Na estrada que agora já se vê na cidade desejada terminar, no píncaro de uma glória inglória, pessoas impessoais e perfeitas, ou talvez imperfeitas, se aglomeram para pechinchar e comprar. “Carne de bode a 15 reais o quilo? Você criou o bicho com ração internacional?”. Nela, Severino sorri ao ver o final da saga de fazer Maria sorrir. Agora é encontrar a barraca certa de vender corte de cetim pra fazer ela alegrar. Prende o cavalo entorpecido, desce devagar e sai a vagar.
-- E aí, vaqueiro, vai um chapéu de couro novo? Um gibão, quiçá...
Severino passa batido aos pedidos de consumo do vendedor. Sem pudor, até podia comprar o informado, mas era para Maria que ele estava lá. “Vou seguir a feira e encontrar o lugar.” Assim, com a certeza de quem crê no milagre do amor maior, eis que atenta a barraca devida. “Moça, quero seis metros do pano mais procurado e bonito que você puder me dar. Não se prenda no preço. É para o meu amor.” Compra feita na desfeita da feira, hora de voltar. O rumo agora é seguir o que canta o garnizé.
No alvorecer do dia, ultimato do mato que sabe somente acordar e adormecer, Severino, menino que ainda dorme a lembrar o cheiro de querosene do lampião e o bater de asas dos morcegos notívagos, vai feliz a felicitar o momento que restou. Do alto, a lua cheia sombreia o pouco de vida que existe e ainda há. O cavalo, agora descansado, trota rápido a saber que logo mais encontrará  a égua branca no curral. Ao aprendiz de poeta que quer sempre aprender, corre agora uma lágrima do olho no xaxado sentido de amor e dor...
 
(Com o eterno e terno Dominguinhos)

sábado, 16 de maio de 2026

Logando no samba que vai voltar

 Por Ronaldo Faria


O samba rola solto no asfalto. No alto do morro, porém, Guimarães, que não é capitão, está quieto no barraco. Macambuzio e sorumbático, sem um puto no bolso pra gastar, preferiu a solidão ao barracão que fervilhava samba-enredo e ilusão. Sem Marilene, matriarca da sua paixão encruada há tempos, melhor era pensar que toda esperança na Escola era nada. Na árvore despetalada e galhos aos bugalhos, só um pardal pardeia a pardala que pia sem piar. No todo, essência do lugar.
No Sambódromo, o mestre de bateria manda a moçada descer a mão no surdo, no reco-reco e no tamborim. Pede força no agogô, na cuíca, no repique e na caixa de guerra. Do alto do carro de som, os puxadores gritam aos mais altos brados à exaltação a Iemanjá. As alas se misturam na concentração. Aos poucos a escola toma forma com seus carros alegóricos. As velhas baianas nascidas num morro carioca giram sem parar. Mestre-sala e porta-bandeira seguem unos a se bailar ao luar.
Mas Guimarães está só. Com o copo de pinga na frente e quieto na mesa de fórmica clara, à espera das mãos do dono da cena para descer goela abaixo, vê uma mosca já embriagada pousar. Depois chega outra e outras mais. “Quem disse que não tem mosca pinguça”, - pensou. Taciturno, diurno nas madrugadas tragadas de tiros com balas cintilantes no céu, ele brinca de ser, crer e acreditar. Sua escola, onde Marilene rebola, já está para entrar na avenida. “Melhor nem ligar a tevê.”
Devagar, a cidade explode com a força da arquibancada que banca o samba no pé logo abaixo e balança em cada nota que percorre o corre do lugar. Aos poucos a Escola desce os metros que cobram todo um ano de esperança e agradece aplausos vindos do alto. Seus integrantes sublimam pesadelo e atropelos, vaticinam a apuração e dão ouvidos ao coração. Nos passos milimetricamente marcados, homens e mulheres, quiçá todes, seguem o enredo desejado. O mais fica para o acaso.
No seu invólucro quadrado, Guimarães já é pouco diante das quimeras das próximas manhãs. Vãs, suas lembranças não são anchas. Há pouco o que dizer. No seu lazer inócuo e trôpego, sôfrego ao coração, vai de antemão caminhar à servidão do amor sagrado. Mas, como amado, vê seu valor desaguar feito água que escorre no esgoto de um mero temporal. Por fim, cansado de tanto chorar, decide ver na dispersão o final da saga da sua agremiação. Pega o ônibus vazio e vai...
Quase no soar da sirene que tira pontos da agremiação, sua Escola desagua certa de que fez um desfile de primeira. Arteira, Marilene é chamada pela Globo para dar entrevista como a passista mais bonita a desfilar. Cabrocha que faz o mais brocha levantar e levitar, diz que tudo foi feito por amor: “Pra mim, a Escola é a minha paz.” Atrasado, Guimarães sequer isso vê. De pé na área de ninguém, mal enxerga a escola adversária não bater o cronômetro depois. Com o título no asfalto, a beleza do seu amor ganhava mais um título na avenida.
 
(Com Mariana Aydar a rolar)

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Troca na troca

 Por Ronaldo Faria



Ramiro, que nunca foi a retiro por viver num desde a nascença, está a olhar a noite pela janela principal. Letal, a lua cris ilumina, em eclipse, os últimos seres que ainda teimam em caminhar e rodar em quatro rodas na sórdida avenida cercada de ruas e esquinas, sinas. Para Ramiro, ser que a madrugada já viu ser tragado em tragos mil nunca derradeiros, o inóspito e próximo dia é apenas uma parte que pode dar em qualquer destino. Quem sabe um desvio a levar barcos desse imenso mar de crenças a marés e tormentas que a lugar nenhum aportarão. Com suas resmas de papel a acreditar que escrever pode redimir a tristeza e a solidão, segue frenético e quase clérigo a dar hóstias para seus medos e ilusões. O vinho ele guarda para si mesmo.
Sônia, na insônia que a noite traz, se apraz das loucuras tardias, do dia que chamou de louco e tarado seu amor pequeno. Mal sabia ela que naquele momento havia, numa beliche, a bola que acertou todos os pinos na pista de boliche. Dona de um hotel que era na verdade pensão, Sônia carregava um filho a tiracolo que espantaria de si até mesmo o homem mais venal. Sexo é bom, mas tudo tem um final que não pode terminar no zero a zero. E Sônia, sonífero da imensa realidade que há entre a terra e o céu, acredita que a desdita possa num momento terminar. A germinar num quintal qualquer, no cheiro de si, mulher, brota em ruas e olhares. Nos lânguidos e cândidos poemas e versos, vira epígrafe que se eternizará.
Ramiro, na mira impregnada de desamores e desejos que se esvaneceram muito mais cedo do que tardiamente, demente, no desmonte que as emoções fazem chegar, sabe que tudo aquilo que provar pouco será. Sua alma, à venda, parece um cesto estendido e entregue ao sol que esturrica na futrica que as tias e vizinhas septuagenárias jogam ao léu.
Sônia, enlouquecida na busca de alguém de alma nova que aceite o rebento como se ele fosse 100% bom e bem, senta no assento que a leva de volta às minas gerais. Se esperava a companhia de um menino/homem e homem/menino louco por seu hímen, quando o motorista pai da sua cria zarpou descobriu que nem todas as toadas são feitas de desejos encardidos ou encarnados.
Ramiro, no seu intranquilo ser, continuará a vagar em busca do par perfeito que a laranja promete juntar em lado e traço. Besteira que alguém criou. Logo descobrirá que nada disso não há.
Sônia desceu na rodoviária de um pouso qualquer e assumiu seu posto com gosto. Hoje, feliz, agradece a Deus (esse ser inexistente e ausente) que o louco e tarado não a acompanhou. 
Na escrita de oito, quatro, dois e um parágrafos, grafismos escritos e até hoje inalterados, "pelamor", como disse o poeta das ruas na juntada de letras, saberemos que o passado não foi apenas bola dividida. Foi sorte ardida. Da arquibancada, a torcida grita mesmo que desiludida...


Uma coletânea do Manhattan Transfer*

  Por Edmilson Siqueira Há um ano eu escrevi aqui um artigo sobre um disco do grupo Manhattan Transfer, que eu gosto muito. Ótimas músicas e...