Por Ronaldo Faria
Musicoólatras
DOIS APAIXONADOS POR MÚSICA A FALAREM DE VINIS, CDS E DVDS
segunda-feira, 19 de outubro de 2026
Gedeão, senão
sábado, 17 de outubro de 2026
Saudade é palavra sacana
Por Ronaldo Faria
Escrever para um público
diverso, complexo e quem sabe etéreo ou esotérico, de lugares múltiplos do planeta,
a falar da palavra saudade é maldade ou sacanagem. Afinal, tal palavra e lavra
só existem na língua portuguesa. Logo, fico a pensar: como o resto do povo desse
mundo grandão sente essa dorzinha encardida que vem e fica, se mortifica e
quantifica coisas inenarráveis que cortam feito navalha na carne e na alma? No
meu caso, quero chegar talvez aos 80 e ainda chorar em alguns caixões. Logo, ter
saudades mais. Mas como tudo é improvável e determinado em segundos, sei que
tal coisa é só querer. Assim como tantos (e os médicos também) falam que amanhã
pode ser algo nunca chegado. Sem carícia, beijo ou afago. No catado das emoções,
unções e presunções, famélicas e angelicais estradas nunca trilhadas ou tracejadas
em dor. No céu, o voo do condor vai e volta em volteios de só bossa (ou bosta).
Escrever para se entreter no
solene “eu em mim mesmo”, parece coisa de alcoólatra diametralmente lúcido após cada
ressaca dessas que as praias da Zona Sul carioca sabem o que são. Mas o que
seria das ondas se apenas chegassem, se jogassem nas areias quentes e deixassem
de ter vontade de voltar ao mar? Não haveria o som universal que em cada
continente chega assim, de repente, num rompante de espuma, e fica na cabeça e
ouvidos da gente. Crente e temente ao Deus que habita no interior da loucura própria,
feito hóstia que o ateu toma a se ver em desespero, o que vem é resto e arresto
de história. Canseira de memória, quase peremptória. Na lucidez e clarividência,
quase demência senil que surge, o mundo que urge dentro de si sentencia a
luxúria à turba que espera o tempo derrear.
Escrever para continuar a
viver é uma missão. Tipo aquela que se faz transversa numa reta irretocável e
fértil a fertilizar a vida que tenta brotar a cada sentença. Na demência das horas onde segundos segundam a chegada de minutos e esses de fugidios
dias e meses, anos a brotarem de um calendário que o dromedário do deserto seco
nem sabe existir, vamos a brincar de escrever e somatizar solidões e – porque não
dizer – saudades. Nas vestes que travestem seres e seus amores, sejam esses
quais forem, pois o desejo não é preso a gêneros efêmeros e finais, surjam
versos e poesias, heresias e frevos vindos da mais benvinda orgia. Daqui, entregue
ao cheiro da noite notívaga, a saber que o próximo dia irá cobrar tal fantasia,
vamos a bailar e mentir que o antônimo de saudade é felicidade. Será?
Na noite assombrada pelo som do passado, o gosto amargo de ter saudade até morrer...
quinta-feira, 15 de outubro de 2026
Notícias de um Brasil
Por Ronaldo Faria
terça-feira, 13 de outubro de 2026
Ser e estar
Por Ronaldo Faria
Tem gente que, alforriada da realidade por alguma fada madrinha, dessa que esquadrinha cada minuto da vida, crê que o importante é só ser e estar. Decerto tal assim será. Naquilo que restar, um quilo de desejo sombrio de na madrugada se matar. Mas, na inflação da vida, cada grama vale algo de tonelada mais.
Tem gente que, desmemoriada ou embriagada, não consegue ver além do próximo e próprio olhar. Dorme sem acordar e enxergar o luar brejeiro a se esconder nas nuvens parcas que a tempestade enlouquecida esqueceu. Mas, ser e estar não são algo a se procrastinar? Gentílico, o poeta sem saber apenas poetiza. E vê o tempo passar...
domingo, 11 de outubro de 2026
Gal canta Jobim
sexta-feira, 9 de outubro de 2026
Descobertas às cobertas
Por Ronaldo Faria
IV
quarta-feira, 7 de outubro de 2026
Sorte é a puta que pariu
-- E aí, sortudo?
-- Tá de sacanagem?
-- Como assim?
-- Porra, você sabe. O mundo cai do céu e fode meu barraco, inunda de água e frustração tudo em volta, traz até a tal de dengue junto, e você vem dizer que eu tenho sorte?
-- Desculpa. Fica calmo.
-- Calma? Tenho isso desde que Noé resolveu juntar um barco cheio de bichos prontos só pra se comer ou trepar. Acho que já deu...
-- Para com isso. A vida é bela, só nos resta viver!
-- E que caralho tenho feito até agora? Aqui o trem já passou, foi e voltou e eu esqueci de ficar de prontidão na estação.
O sol, desses de ferver trilho de aço e enlouquecer mesmo burguês em temperatura refrigerada de menos três graus, certamente havia frigido o cérebro de Abraão. Também quem mandou trabalhar de operário na expansão do metrô que existe só para fazer valer os 30% do deputado que trabalha para seu estado.
-- Cacete, Jorjão, segura essa tua onda de ver algo de bom em tudo. O que bom tive hoje? Me aprumei todo, sonhei desembestado, esperei, acreditei. Pra quê?
-- É porque algo melhor ainda está por vir. Levanta as mãos pro céu.
-- Isso se algum amanhã ainda chegar pra gente ver...
A cerveja quente nos copos copula com o suor que cai vidro americano a fora.
-- Chico, manda outra pra essa mesa de plástico cagado!
Com cara de pouco ou nenhum amigo, o garçom só tem uma resposta posta: “Devagar com o andor. Aqui também tem um operário de salário mínimo”.
-- Abraão, a gente não sabe os caminhos e descaminhos desse mundo. As coisas vão acontecendo e sequer sabemos se o tal de destino é sacana ou bacana. Ao menos a gente pode encher a cara. E amanhã, na ressaca, achar que tudo é sol raiando mesmo no maior breu.
-- Puta que pariu, virou esses caras que faturam com autoajuda para otários?
-- Não. Só acho que sempre tem algo no ar que a gente não vê.
-- Sei, tipo astrônomo, meteorologista ou vidente?
-- Pode ser...
-- Cara, você é muito fora do prumo. Prefiro essa minha realidade maldita.
-- Pra quê?
-- Para não correr o risco da gente achar que essa bosta pode ainda foder tudo mais daqui pra frente.
-- Mas viu, o dilúvio sumiu e voltou. Não é milagre?
-- Chico, traz uma porção de jiló frito e vinagre!
-- Viu, até fez rimar a merda em poesia...
O tempo agora lá fora é de calor menor e estupor. Quem estava de guarda-chuva até acredita que a noite será festa. Na fresta que se incesta presta, a alegria de fim do dia sai dos pássaros a buscar seu aninho. No boteco, quase vendinha, a vendeta é saber se pecado é querer crer ou se querer acreditar é o pecado da vez...
(Com Celso Fonseca, porque alguém nessa vida tem de ser porreta)
terça-feira, 6 de outubro de 2026
O brilho dos Stones aos 45 anos
segunda-feira, 5 de outubro de 2026
Papo de não saber o que 2
Por Ronaldo Faria
sábado, 3 de outubro de 2026
Papo de não saber o que
-- Pode ser ou não.
-- Como assim?
-- Depende. Se você estiver virado para a parede ou meio embriagado, é meio. Se estiver de frente no alvo e bombado, vem merda por aí.
O papo quase escatológico de João e José vem sem pé e nem cabeça. Na retreta da treta, histórias diferentes e rentes. Descrentes e tementes de inviabilizar amizade desde a infância que já se foi desde seis décadas, seguem bêbados e unilaterais a se ouvirem na cabeça de cada um (que na verdade é uma mesma e só).
No mundo que inunda o profano devasso e retórico há pouco a deduzir. Talvez um luzir de faróis, anzóis que jogamos ao léu à felicidade pescar, retreta de tango tangente e pungente. Na verdade, de verdade verdadeira que se esgueira na solidão, há ao menos um espelho que reflete a felicidade num pedaço de dia à revelia. Meio realidade e outro tanto de nostalgia. Catarse que surge e arde à perfídia para se tornar somente si. Ensimesmada de saudade e vontade de ver, falar, beijar. Na volúpia que somente Cazuza sabe cantar. Aqui e na loucura, outro lugar.
-- Afinal, me responde: fodido é meio fodido ou fodido e meio?
-- Sei lá, caralho. E nem estou aí para saber.
Diante do colóquio sem noção da mesa, Gastão, garçom que conhecia há tempos os dois, coloca logo um balde com seis garrafas deitadas no monte de gelo a suar.
-- Valeu parceiro nosso. Os dez por cento estão cravados, marcados e garantidos.
Do garçom surge um riso claudicante. E a conversa ressurge no mesmo instante.
-- E aí, crava ou não crava?
-- Porra, João, se é tão importante pra você, vai. Foda-se, irmão.
No som do local rola Águas de Março. E ainda estamos em fevereiro fervendo a mil graus.
-- Vamos parar. Nosso escriba tomou uma garrafa de vinho e a tal cerveja alemã de 500 ml.
-- Paremos. Deu! Deixemos pra discutir a vida quando estivermos apenas na loucura que já temos por genealogia e DNA.
-- Isso. Posso dizer algo de coração: você é do caralho.
-- Eu sei, eu sei...
-- Sabe nada. Precisa de mim pra fazer valer.
No entorno, no torto desvencilhar do mundo, o tempo é atemporal e pira, decepcionado, por ser apenas algo pirado.
-- Cacete, cadê a erva que você sonhou que o doidão da terra da maconha achou que ia rolar?
quinta-feira, 1 de outubro de 2026
Com a cinta magnética e Caetano
Por Ronaldo Faria
Caetano a ser beta e Bethânia. Epifânia e drama. Coisa de expressa certeza do universo que o verso em veredas se envereda por nada ou qualquer dor. Ou seja, seja o que tiver de ser e for. No louvor dos orixás e chás alucinógenos, presenças de bares de esquinas como uma cidade em bar. A desabar. Como na fuga do louco de um grupo saudoso e sem que ninguém desse a mínima sequer. Mimetizado e alcoólico, volátil e calado nos seus gritos fundados em anos de ser, a certeza errante do navegante. E assim, entre a sanidade e o outrossim, nos cantaneemos e insurjamos nos trajetos dos fetos àquilo que ainda temos a decantar. Ou...
terça-feira, 29 de setembro de 2026
Quem sabe não tem volta
Por Ronaldo Faria
-- Nem fodendo.
-- Por que não?
-- Por que não quero. Isso não basta?
-- Claro que não. Você é meu paciente. Está ciente disso?
-- Estou. A minha conta bancária sabe bem disso. Nunca no pagar fui omisso.
-- Não estou falando de dinheiro. E sim do seu aconchego.
-- O quê? Será mesmo?
Astrogildo, puto da vida, responde as perguntas do seu psicanalista. “Caralho, deixei de ver Flamengo e Vasco para estar aqui escrevendo a toa E esse corno, “doutor”, quer saber se estou bem? Pau no cu do angu!”
-- Astrogildo, você ouviu o que eu perguntei?
-- E você, seu babaca, sabe se o Arrascaeta fez um golaço no time mais rebaixado do Rio de Janeiro?
O psicanalista, quem nem precisa de diploma de Medicina ou Psicologia para dizer o que é certo ou errado (mesmo sendo nada), fica estarrecido.
-- Como assim?
-- Preciso repetir ou mandar você tomar no cu uma vez já não é o bastante?
Astrogildo, certo de que ao menos agora irá irritar seu vizinho com os gritos de gol, levanta e sai do consultório. Desce à rua feliz e refeito de si. Amanhã, se tiver ressaca da falta de remédios tarja preta, não haverá problema, No dilema sobrenatural, no fonema atual de continuar infeliz ou não, sabe que tudo depende apenas de si. E assim se traduz na luz etérea da tela que pisca e brinca de uns como Caetano Veloso cioso de cantar o mundo musical.
domingo, 27 de setembro de 2026
Keth Richards e as cinzas do pai
sexta-feira, 25 de setembro de 2026
À cátedra da catedral
Por Ronaldo Faria
No ponto de ônibus, Aderbal espera chegar o circular. A pulular, a turba caminha em idas e vindas para chegar e voltar. E sua sob o sol, exala sal dos poros sem o quadro erótico que se faz quando estão em dois corpos deitados e nus a se amar. Nos pontos de ônibus, cones dividem onde estar ou não. De um lado, alegria. Do outro, solidão. No meio de tudo, o soturno dispor que existe entre a felicidade e o torpor. No céu que se desenha de cores e desdenha o que pode ainda vir, o avião sobrevoa a cena em centenas de quilômetros abestalhados e tachados de máquinas de voar. No ar, os canos dos carros ventilam sua poluição.
Para Aderbal, a beligerância está entre o momento de agora e a fonte em que se beberá amanhã. Está na conta ainda não paga, bárbara de ser, cataclismo do universo onde o verso não cabe versejar. Na essência da famélica cidade que se perde em ruas, esquinas, CEPs e o que mais há a dividir bairros, zonas e vidas, a canção ecoa a toa nos ouvidos dos descrentes de que a gente do lado estará junto no apocalipse final. Letal, Aderbal está a remoer seu passado castrado pelo medo atávico e pálido. No seu hálito, uma bala de hortelã. Se o seu amor por fim chegar, a boca estará a cheirar.
Devagar, a vagar nas loucuras, o mundo do protagonista se sobrepõe ao bélico discurso do obtuso narrador que prega a dor como salvação. Caminha calmo e eterno ao terno que vive consigo. Na etérea e trôpega ilusão, caso perdido e vazio no coração de todos nós, em nós que nenhuma Nossa Senhora conseguirá desatar, o vento natural ventila o nariz de Aderbal e as crenças de todos que o cercam. Chega como brisa do mar e cigarro natural. Faz-se brilhante, como aquele que diz que a felicidade estará logo ali adiante. Radiante. E para aquele que não quiser crer, Aderbal mandará se foder.
No entorno que derrama tornos de novos mistérios móveis, mesmo que estejam todos presos num nada sem ser, o senhor central dessa história criada por um louco traduz a luz onde luz não há. Aderbal, que pensa ter vencido todo seu mal, é apenas feto a espera de nascer. A voltar ao passado, atrasado no tempo, vendeta da mulher que jogou praga às gerações futuras, mesmo que essas nada tenham a ver com o fato de uma bicicleta a atropelar, ele pede apenas para o show continuar. Enquanto a cortina não deixar o palco sumir nos raros aplausos que apaziguarão, continuará a trilhar sua trilha diminuta e inculta feito cafetão a amar sua puta.
E assim, no tal fim que toda história tem, Aderbal acelera a espera que quer ter. E brinca de ser dono do seu mundo performático e atávico (repetiu-se a frase e a sina?). Enfim chega o ônibus desejado. Está cheio e vazio. Tem gente no seu porvir e crente que ora à Bíblia como fosse certeza da alegria. Sobe, passa o cartão, senta no banco livre ao lado de um senhor que tosse sem parar. “Foda-se o escambau”. E assim, assimétrico e elétrico, feito o tal veículo que o leva para longe das trevas, passa e repassa lugares onde está cansado de ver e rever. Na sentença da crença absurda de tudo num repente se resolver, dorme no balançar de buracos e asfaltos mal arranjados. E aí, e só então, vira ele mesmo, ser a esmo no mundo por apenas querer viver.
quarta-feira, 23 de setembro de 2026
Já que a dor é exequível, façamo-nos
Por Ronaldo Faria
Gedeão, senão
Por Ronaldo Faria Gedeão, sem noção sobre seu futuro, sua ao sol sobre seu cavalo que sua ainda mais a trotar. O vento, inexistente, sopr...
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Por Ronaldo Faria -- E aí, vamos? -- Claro. Só se for agora... Carlos e Kelé, amigos de infância, suburbanos desde os primeiros panos de ...
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Por Ronaldo Faria A chuva miúda amiúde traz flamboyants vermelhos a juntarem o casal que viaja em ervas mil onde o senhor mais senil pensa...






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