Por Ronaldo Faria
-- E aí, me manda notícias do
Brasil!
-- Boas ou ruins?
-- Tem escolha?
-- Não.
-- Então, manda ver.
-- Vai lá. Primeiro as boas. No
final desta semana recomeça o Carnaval. Quer dizer, o oficial. Ele mesmo já
está rolando extraoficialmente desde janeiro. Ou seja, gente na rua lotando
blocos e ruas, avenidas. Muito agarra-agarra, beijos e sorrisos. O sol está ajudando
e muito. Tem batido os 40 graus pela manhã, 50 ao meio-dia e fica nessa batida
até o anoitecer. Aí cai para uns trinta e tantos, para aliviar a cuca da moçada
que ninguém é feito de carvão em brasa.
-- Porra, então é o bicho!
-- Com certeza. E põe bicho nisso.
Na verdade, as apostas nesse velho jogo tradicional estão à mingua. Apesar da
atual longevidade da população, velhos saem menos de casa para apostar. Falta
de grana e medo da violência. A onda agora por aqui é jogar a sorte no celular.
Aposta na encolha e perde-se e ganha-se que nem. Quer dizer, ainda mais se
perde. Mas essa não é a lógica do jogo?
-- Deve ser. Mas conta mais
coisa boa.
-- Apesar do verão causticante,
não faltou cerveja no mercado. Só não bebe quem não quer.
-- Aí sim...
-- As praias estão lotadas de
gente morena, sorrinte, entregue às ondas e a possibilidade do amor carnal,
espiritual ou similar. Daqui a nove meses veremos no que deu tudo isso.
-- O amor é lindo!
-- Decerto. Incerto é o sofrimento
do depois.
-- Parou por aí?
-- Não. O samba de raiz,
independente da época do ano, continua no coração da gente. A bossa nova também
tem seu pedaço no batuque das emoções. Há senões também. Surgiu muita coisa ruim
como “canção”. Mas aqui vou falar só das coisas boas. Deixe o restante
esquecido. Ah, ainda estamos numa democracia. Frágil, quase pueril, onde os
poderosos continuam a viver no céu das benesses e vários porcentos e o povo
sobrevive das migalhas que caem daqui e acolá. Mas tem sobrevivido o tal de
voto e coisa e tal. Ou seja, os eleitos de hoje são, pelo visto, cara e desejo
da vontade popular. Quem sabe no próximo ano o tal de Congresso não terá gente
a pensar mais no povão... Só que acho que não.
-- Vale torcida?
-- Claro que vale.
-- Então já comprei a camisa
oficial e a bandeira pra na arquibancada da democracia vibrar e torcer que cada
um veja no voto a sua própria vida.
-- As matas resistem à morte e
a serra elétrica, em menor número e verde, mas se espraiam verdes e lindas, não
tímidas, no que restou. Tem uma ou outra cachoeira a verter das montanhas água
boa, praias com peixes, mesmo com seus plásticos a vomitar, um pássaro ou outro
que chega nas manhãs para cantar sua paz.
-- Nossa, deu até vontade de
voltar.
-- Não faça isso. Agora vou
começar a falar das coisas ruins.
-- Precisa?
-- Foi você quem pediu. Lembra?
-- Mas acho que agora não quero
ouvir. Melhor não. As coisas aqui estão meio ruins. Querem expulsar todos nós. Uma
tal de xenofobia, como se o ser humano não fosse desde seus primórdios e surgimento
um caminhante errante na busca de vida melhor. Trabalhamos no subemprego,
ralamos por poucos centavos o sonho do sonho ultramarino ou continental,
passamos apertos e saudades mil. Mas acreditamos que aonde agora há dor um dia
existirá clamor de vitória e fé. Dá pra ficar só nas coisas boas?
-- Vá lá. Vou quebrar teu
galho.
-- Obrigado. Valeu.
-- Opa, pera aí. Esqueci algo importante.
-- Puta merda, que não seja bosta!
-- Não é. O Flamengo está foda
esse ano!
-- Meu Deus, aí você salvou
minha semana de vez. Vida longa ao nosso Mengão! Mas agora deu o horário de
descanso, vou ter de desligar.
-- Tudo bem. Valeu te ouvir.
-- Valeu por mim. E lembra: as coisas ruins guarda só pra ti. Ser brasileiro
à distância é, como diz o hino, florão
da América, iluminado ao sol do Novo Mundo! Fui!
(No som do grande Eduardo Gudin e
Notícias Dum Brasil 3 Tempos)





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