Por Ronaldo Faria
Musicoólatras
DOIS APAIXONADOS POR MÚSICA A FALAREM DE VINIS, CDS E DVDS
quinta-feira, 5 de março de 2026
Nas ervas benvindas e benfazejas
terça-feira, 3 de março de 2026
Discussão etílica
Por Ronaldo Faria
-- Esquecer resto de cerveja na lata ou na garrafa? Isso não pode.
-- Não fode, Adamastor!
-- Não fode é o caralho! Sabe quanto custa essa bosta!
-- Sei, senão nem estaria aqui.
A discussão etílica dos dois amigos quase vira pugilato não fosse Jacinto, garçom e muito mais que isso, amigo.
-- Gente, vamos parar! Vocês nunca se gostaram. É logo agora que vão se amar?
A voz do único que naquele momento estava sóbrio, não fosse o ópio fumado no banheiro do bar, foi definitiva. Clarêncio e Honório decidiram parar o bate-boca e virar outro copo de cangibrina.
-- Foi mal, desculpa...
-- Tudo bem, também me excedi.
-- Vamos pedir outra?
-- Claro. Estamos aqui pra isso.
Amigos de tempos muitos atrás, sabiam e anteviam a dormência e inclemente clemência que a cabeça a doer no dia do amanhã traria. Mas, no inferno que o demônio ou Satanás é o mentor na alegria e na dor, faça-se o pecador louvor.
-- Severino, não liga para nossa quase briga. Está tudo bem. Mantem a conta aberta e deixa chegar mais umas tantas saideiras.
Quase a dormir no frigir dos ovos de um Americano completo que na chapa fervia, Severino, dono do bar, severo nas regras da boa companhia, decide esquecer o que viu e serviu uma na categoria canela de pedreiro.
-- Cacete, por isso que a gente nunca vai deixar de vir aqui. Quase congelada é do caralho!
Defronte da cena longe de ser abstêmia, o escritor, quase travado igual, decide dar um ponto final.
-- Entenderam? Ponto final! Querem que desenhe? Fui!
domingo, 1 de março de 2026
Um sambista de peso
Aos 21 (1955) anos ganhou um concurso quando se apresentou no quadro "À Procura de um Astro", do programa Caravana da Alegria, que J. Silvestre, Cláudio Luna e Élcio Álvares tinham na Rádio Tupi de São Paulo. Na ocasião, ele cantou "Minha Nega na Janela" ao mesmo tempo em que tocava uma tampa de lata de gordura, composição sua com Firmo Jordão que mais tarde seria um dos seus sucessos em gravação pela Polydor. Dentre os 300 candidatos, Germano se sagrou vencedor e ganhou um contrato com a Tupi, com duração de catorze meses e salário de três mil cruzeiros (cerca de 160 dólares à época).
Em 1957, ganhou o Troféu Roquette Pinto de revelação masculina (ao lado de Maysa, que ganhou o de revelação feminina), o que lhe deu um impulso na carreira, que deslanchou.
Nos 3 anos seguintes, chegou a fazer sucesso com alguns sambas, mas de 1960 em diante, sabe-se lá por que, sua carreira entrou em declínio. Tabto declínio que quando Gilberto Gil lançou Antologia do Samba-Choro, um disco alternando gravações de Germano com interpretações de Gil, em vez de convidá-lo a regravar as canções, a gravadora usou registros antigos. O disco fez sucesso e prontificou o relançamento de discos antigos de Germano por parte da RGE e da CID, mas Germano sentiu-se relegado, obviamente a segundo plano.
Germano morreu aos 88 anos, em fevereiro de 2023, justamente numa quarta-feira de cinzas.
A maior parte de seus disco foi gravada na RGE. E é um desses (tenho dois dele) que estou ouvindo. É uma coletânea dentro do projeto "20 Preferidas", com mais de cem títulos tirados do acervo da gravadora.
É um bom retrato não só da carreira de Germano, mas da própria trajetória do tal do samba paulista, que não fica nada a dever às melhores manifestações do gênero por ai. Germano era amigo de Zé Kéti e de outros compositores e cantores cariocas. Nese disco mesmo há três músicas de Zé Kéti.
Como cantor, sempre acompanhado de uma latinha de graxa de sapato, Germano tinha qualidades que o remetiam aos grandes intérpretes. Ele não apenas cantava a melodia tradicionalmente. Como o grande Miltinho, dividia as frases com imensa categoria, inventando nuances que só encontram semelhança nos improvisos do jazz.
Por essas e outras, Germano Mathias merecia um lugar melhor na galeria dos nossos grandes sambistas. Fosse ele carioca e esse lugar, tenho certeza, já teria sido garantido em vida até.
O disco todo é diversão garantida e abarca não só os sucessos do cantor, mas também muitas outras músicas que mereciam ser mais lembras, tivéssemos uma sociedade preocupada em preservar seus valores culturais e artísticos reais.
A seleção é seguinte:
- Guarde a sandália dela (Sereno e Germano Mathias)
- Tem que ter mulata (Tulio Paiva)
- Lata de graxa (Mário Vieira e Geraldo Blota)
- Audiência ao prefeito (Orlando Líbero e Tobis)
- Figurão (Dóca e Germano Mathias)
- Chavecada na Pavuna (Basílio Alves e Gariba)
- Derrocada no Salgueiro (Jorge da Silva e Germano Mathias)
- Malvadeza Durão (Zé Keti)
- Maria Antonieta (Sereno e Germano Mathias)
- Romeu e Julieta (Tito Mendes e Tânio Jairo)
- Força do perdão (Jorge Costa e José Ramos)
- Paraíso da Tereza (Benedito Augusto e Antoninho Lopes)
- Mexi com ela (Zé Keti)
- Juca do Paulistano (Henricão e Conde)
- Vigarista de terreiro (Álvaro Xavier e Zé Keti)
- Amélia granfina (Oswaldo França e Germano Mathias)
- Braço a torcer (Alceu Menezes e Antônio Lopes)
- Recordando confusão (Tóbis)
- Bronca da Marilu (Jorge Costa e Américo de Campos)
- Feitiço fracassado (Silvio Sá e Germano Mathias)
Encontrei na rede dois exemplares deste disco à venda, um por 150 e outro por 290 reais. Há várias gravações em áudio e vídeo dele no YouTube, mas nenhum que seja a reprodução deste disco.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026
Indagações
Nas escapulidas do menino de pés descalços nos seus percalços de correr atrás da bola, a carcomida ermida morre sem água para saciar.
No frevo que rola no lugar onde um Preto Velho é o refúgio, o casal se acasala e espera que o tempo saiba que tem de parar ao fim do luar.
No beber de nomes esdrúxulos e escandalosos, em miragens como fossem iguais areia e sol, as notas e versos se fazem reverso na conjectura conjectural.
Mas para onde irá a mulher que absorve o sorver inodoro dos odores servis? E o homem no seu infausto e eterno redescobrir o mundo ao redor?
Nas vozes que as artroses deixam em doses, paixões piradas há décadas e decrepitude amiúde que sublima o girar de uma Terra etérea se tornam só tentação.
Daí, juntemos tudo que se tem a criar:
(Com Edu Lobo)
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026
Clara e Moreno
Por Ronaldo Faria
Clara e Moreno, sonhos transgênicos e orgânicos, monogâmicos e heterodoxos, falam de si e das cismas que a vida lhes deu. Contam em cantos os recantos que se volatilizam nos versos e reversos que a vida lhes dá. Brincam de carícias, malícias e vícios que se desdobram a cada dobrar de esquinas e sinas, se remetem ao amor, esse mistério etéreo que dá certezas e traz dores nas rimas. Dois seres sensoriais e letais, imorais e fatais na fatalidade que cada segundo remete ao feto do fato tardio da ilusão. Como viajantes entre marés frias e jusantes feito guias, vão se juntando em delírios e alegrias. Em meio a tudo, a plena e sublime orgia que a magia diuturna finda.
Clara e Moreno, silêncios desprovidos de sussurros e astro-guia, brincam de momento somente. Na mente que se faz demente um todo está ausente de si. Feito quase nada. Na distância histriônica que delimita morte e vida, beijos se desenrolam em dentes que agora conseguem se unir sem medo às línguas dobradas e rotundas, profundas. Em meio a lamúrias encruadas e corações desvairados, plenitude no assombro do amor que junta e desfaz, ambos se embriagam de devaneios que agora fazem do meio o fim. Em meio a tudo, no limite das partes que se desfazem a cada separação, apenas o mundo se deixa surgir no final transcendental. Nalgum lugar diria o poeta que existem e persistem dois quadradões. Em afagos, limiares e sensações.
terça-feira, 24 de fevereiro de 2026
O exílio dos Stones*
Eu me lembro mais ou menos de ouvi-lo, lá nos anos 1070, na casa de um amigo (só fui comprar mesmo o disco muitos anos depois). Eram "sessões" num toca-discos Sonata, mono, obviamente, mas que cumpria razoavelmente bem a missão, separando mais ou menos os graves e agudos da parafernália de sons produzidos pelo grupo.
O "exílio" do nome não era apenas retórico. No início daquela década os Stones estavam pressionados pelos altos impostos, que podiam chegar a 80% de altos rendimentos, e a banda inteira se mandou para o sul da França, especialmente para a Côte d'Azur. Keith Richards alugou a famosa Villa Nellcôte, em Villefranche-sur-Mer, que se tornaria o centro informal das gravações.
O resultado daquele "exílio" foi mais que um disco de rock: hoje "Exile On Main St." ocupa um lugar singular na história do rock. Gravado em condições pouco convencionais, marcado por excessos e liberdade criativa radical, o disco, que no vinil da época era duplo, tornou-se, ao longo das décadas, um dos álbuns de rock mais celebrados do século XX. Mais do que uma coleção de canções, trata-se de um documento sonoro de uma banda no auge artístico, experimentando os limites entre o caos e a genialidade.
O período coincidiu com transformações internas na banda. Mick Taylor, que substituíra Brian Jones em 1969, já estava plenamente integrado. Jones foi "saído" do grupo por suas instabilidades e morreu logo em seguida, afogado, na piscina de sua casa, em circunstâncias que até hoje não foram totalmente esclarecidas. Charlie Watts mantinha a solidez rítmica característica, enquanto Bill Wyman contribuía com linhas de baixo econômicas e precisas. À frente, Mick Jagger dividia a liderança criativa com Richards, naquele equilíbrio tenso e produtivo que sempre permeou as relações artísticas e pessoais dos dois.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026
Santos na chuva
Por Ronaldo Faria
sábado, 21 de fevereiro de 2026
Com Marcos Valle e Stacey Kent
Por Ronaldo Faria
A noite adentra na madrugada que traz tragos, gregos, anjos e demônios que esperam despertar antes que o sol se faça outra vez dono do lugar. Saltimbancos de brancos delírios e lamúrias mil correm e percorrem notas e sílabas destrambelhadas na loucura de duas mãos a descobrirem nas coxas da mulher amada seu porto de chegada. E vão a rolar e desenrolar todos os sonhos e esperas de mesa em mesa, de camas em camas engomadas ou não, nos copos de vinho ou cerveja, a sorver o que a vida traz quem sabe por último no seu rimar. Sem olhos para ver o que corre ao redor, quiçá, tudo será apenas eterna dó. Mas agora, nessa hora, introito do proselitismo que vive entre a maré e o istmo, o mundo viaja insano e lúdico. Na fuga da realidade, a sanidade de quem sabe que a loucura é o lugar a viver e morar.
O vento que sai das
hélices do ventilador unem prazer e dor. O queimar de incenso que se sabe lá na
Índia quem fez, fecha as cortinas dos corticoides que, igual quem sabe, fluirão
logo mais. No ar a melodia flui num fluir desmesurado que nada pode ou quer parar.
Entre a nostalgia e a angina que volta e meia se faz em dor persecutória e
voraz, a vista do cais que se desdobra para ser mais e mais ou apenas um a mais. Talvez um terço
decantado em mililitros de álcool na voz de carolas que não sentem o calor do
chão brotar. Quem sabe o padre a pastorear suas ovelhas negras e brancas que se
perdem no pasto inexistente da vida. Na verdade, tanto fez como tanto faz. No
bar escuro e nunca soturno, com beijos e bocas a vivenciarem seu chegar, o
casal se acasala em separação mútua e tátil, fútil até dirão. Mas qual, de que
vale o que acham aqueles que, anchos do nada, vomitam ao léu sentimentos e sensações num canto qualquer?
No escuro obscuro do universo do verso que existirá entre a prosa e a rima, no
mimetismo etéreo da chegança final, o fim da prosa pede que rezemos aos deuses
e orixás onde a emoção e o amor possam, ainda, proliferar e existir.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
De onde vem a libertação da alma
Por Ronaldo Faria
Sentados num canto de bar, a tragar a essência da vida na essência, trocam mãos e fazem troça da vida, essa perfídia entre o tesão e a sofreguidão.
“Saudade ou certeza de ter morrido em vida na própria vastidão?” Silêncio no incenso que já não queima. Sobremaneira, um tanto de eira no pouco de beira.
“Sanfona ou viola e rabeca?” Na verdade, para o ouvinte e aprendiz de menestrel, tanto faz ser inferno ou céu. Desde que Lúcifer seja o ser angelical.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2026
Entre a realidade e o desejo
Reação. Entre o réu julgado e condenado de sua história e a esperança ancha de que ainda existirá um mundão de meu Deus a andar, José dança na sua cabeça que vagueia antigas fogueiras e fagueiras donzelas que trançam as pernas nas pernas de um vaqueiro. E juntam seus seios untados de sabores de bocas e batons baratos. Olhares, alhures longínquos e prestos, tracejam o ensejo de unir beijos e desejos, tragos. No ensejo de recriar sua própria história como fosse o padre a tocar na hóstia para todos perdoar, ele segue na escuridão que teima em fazer breu nas asas que, cortadas, não sabem sequer revoar. Louco sem direito a um hospício pra deixar seu corpo derrear, reza aos santos que inexistem para a crença o seu mundo povoar. No caminho das patas que vicejam vielas obscuras e escuras às escusas do mundo, um altar se faz na curva entre sanidade e delirar.
Ilusão. Retidão que há entre a sanidade e a loucura na etérea imensidão do temporal que, encruado, deixa as plantas morrerem de sede e fé, faz-se falácia e senão. No colo da mulher que traça em tranças as mãos nos cabelos ralos de José, o porto do mar nunca visto na mansidão da imensidão do sertão. O lampião, com seu querosene a untar de encruzilhadas a vida que ainda irá restar, deixa um resto de arresto para o embornal vazio que se leva tempos a fora. Nos toques de corpos em cópulas etéreas e fugazes, o plantio mostra que o inefável une o ódio no tempo que foge entre dedos na escuridão e diz não existir unguento para a solidão. Quieto, prolixo e mudo no seu mundo, José pragueja para que jiló seja cereja. Assim, nos abraços anchos e adeuses tantos, vai a marchar feito marchand na exposição vazia que mostra num quadro branco o valor proteico da chia. No lago defronte algo coaxa como fosse jia. Falta ao mundo o mínimo de fantasia.
domingo, 15 de fevereiro de 2026
Nuno Mindelis & The Cream Crackers: o melhor do blues brasileiro*
Pois quando se fala em blues no Brasil, poucos nomes alcançam o respeito quase unânime que Nuno Mindelis conquistou ao longo de sua trajetória. Guitarrista de técnica refinada, compositor com identidade própria e intérprete profundamente conectado à tradição afro-americana do blues, Mindelis construiu uma carreira singular, distante de modismos e profundamente comprometida com a essência do gênero. O álbum Nuno Mindelis & The Cream Crackers, lançado em 1998, ocupa um lugar central nessa história, funcionando como uma síntese estética, musical e conceitual de sua visão artística naquele momento.
Na verdade, esse disco é mais velho do que isso. Ele foi gravado entre maio e junho de 1992 e lançado nesse mesmo anco com o nome de "Long Distance Blues". E, segundo a Wikipédia, foi relançado em 1998 com o nome mudado para "Nuno Mindelis & The Cream Cracker" sem consulta ou conhecimento do autor.
E o disco é bom, muito bom. Claro que o blues é um gênero que pode não agradar todo mundo, mas Nuno Mindelis é cantor dos bons e seu blues tem muito a ver, como nas melhores famílias, com o rock.
É um blues urbano, sofisticado, com raízes claras na tradição norte-americana, mas filtrado por uma vida que atravessa Angola, Europa e Brasil. Ao lado da banda The Cream Crackers, Mindelis entrega um trabalho coeso, vibrante e tecnicamente irretocável, que se tornaria referência não apenas em sua discografia, mas também no cenário do blues brasileiro como um todo.
Os músicos que formam a banda são todos do primeiro time e ainda conta com algumas participações especiais todas ótimas.
Além de Nuno na guitarra e vocais, temos Paulo Fernandes na bateria; Jefferson Bergamini no baixo e José Roberto Bohn nos teclados. Fabio Colombini toca guitarra e violão em duas faixas; Larry McCray toca guitarra numa faixa e faz vocal em outra e J. J. Milteau toca harmônica em três faixas.
No encarte do disco de 1992 (o que eu tenho é de 98 e o encarte não traz esse texto), Nuno escreveu: “Não há dúvida de que os opostos, longe de se afastarem definitivamente, acabam por se encontrar, como a vida e a morte. Prova disso é a aparente oposição entre a poesia de um Robert Johnson, pela sua extrema simplicidade, e a de um Fernando Pessoa, por exemplo. A primeira, de tão simples, é de extrema profundidade; a segunda, de tão profunda, é de extrema simplicidade. O mesmo ocorre em relação ao blues, enquanto gênero musical. É simples, mas por isso mesmo, profundo e nada fácil.”
Antes do lançamento de Nuno Mindelis & The Cream Crackers, o guitarrista já havia se destacado com trabalhos que chamaram a atenção pela qualidade técnica e pela autenticidade de sua interpretação. Mas, segundo a crítica, foi nesse álbum que sua estética ganhou contornos mais definidos, especialmente no diálogo intenso com afiada banda, capaz de responder com precisão às suas ideias musicais.
O repertório do álbum tem Nuno com principal participante. Das onze faixas, ele assina dez, duas com parceiros. A única que não é de Nuno, é simplesmente de B. B. King.
Há várias músicas cantadas, mas há também espaço para momentos mais instrumentais, nos quais a banda explora grooves e atmosferas com liberdade, sem perder o foco narrativo. Esses trechos reforçam a dimensão musical do blues como linguagem expressiva, não apenas como veículo para letras confessionais.
Um dos aspectos mais importantes do disco é sua contribuição para a afirmação de um blues brasileiro livre de caricaturas. Mindelis nunca tentou “tropicalizar” o blues de forma artificial, nem mascarar suas raízes afro-americanas. Ela se insere de maneira natural, dialogando com um público que reconhece ali algo autêntico, mesmo que estrangeiro em origem.
Tanto que à época de seu lançamento, o álbum foi recebido com entusiasmo por críticos e músicos, consolidando Nuno Mindelis como uma das maiores referências do blues no Brasil. Mais do que sucesso imediato, o disco construiu um legado duradouro, influenciando gerações de guitarristas e bandas que passaram a enxergar o blues como um campo fértil para expressão artística sofisticada.
Mais de duas décadas após seu lançamento, Nuno Mindelis & The Cream Crackers permanece como um marco do blues no Brasil. Uma audição obrigatório para se compreender a obra de Nuno e também o início da trajetória do blues no Brasil que tem esse registro como uma espécie de marco inicial do amadurecimento do gênero por aqui.
- Talk About The Blues (Nuno Fidelis, Valeur e Jefferson Bergamini)
- Don't Hide Away (Nuno Mindelis)
- Pay The Cost To Be The Boss (B. B. King)
- Three Days StraightNuno Mindelis e Valeur)
- It's Your Fault (Nuno Mindelis)
- Dog's Day Night ((Nuno Mindelis)
- Answer To Ronnie (Nuno Mindelis)
- Talk About Somebody(Nuno Mindelis)
- It's My Turn(Nuno Mindelis)
- Blues Time (Nuno Mindelis)
- Iberic Blues (Nuno Mindelis)
O CD está à venda nos bons sites do ramo e pode ser ouvido na íntegra no YouTube em https://www.youtube.com/watch?v=HAD0TxqEGF8&list=PLkGQAKgRh6aprYmn9yfLO2xwOlK5zTE2H .
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026
Estradeiro de Minas Gerais (leia-se minúsculo Sergipe)
Por Ronaldo Faria
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026
Furar os olhos e esperar ver
-- Caralho, como você é otimista.
-- Se não o fosse, estaríamos fodidos há tempos...
-- Talvez tenha razão. Mas imagine, perder a visão é morrer em vida...
-- Vai dar tudo certo, decerto.
-- Nem que seja por decreto. Certo?
-- Aí só pra quem estudou Direito pra responder.
-- Ou seja, pode ser tudo de qualquer jeito. Logo, rolemos a roleta da vida.
-- Como é que é?
-- Uma pergunta: limpa ou não?
-- Sei lá. Se a partir do segundo tem menos borbulhas? Temos. Mas, até aí, quem vai saber. Há tese escrita? Talvez opiniões, coisas descritas, reeditadas, transcritas de alguma revista especialista em cerveja. Mas, pra mim, basta beber.
O papo de mesa de bar entre Benício e Felício até serviria para compor uma crônica lacônica sobre as gotículas internas no copo de cerveja e o ensejo de poder processar judicialmente a informação na versão que ela se dá. Afinal, quem nasceu primeiro: a sujeira do copo ou o gás que se segura pra sobreviver antes de no mundo vazar? Feito foguete que vai e volta, tanto faz como tanto fez. Porque a dúvida bate na junção de mar em rio de Caraíva ou no Canal de Suez, onde todos nós temos a nossa vez.
-- Vamos ou não pedir outra?
-- Com certeza, sim.
-- E a colombina depende do arlequim?
-- Essa conversa logo em botequim? Coisa mais chinfrim,
Na mesa do lado, arquibaldos vazios, exterminados dos estádios, geraldinos destrambelhados, discutem se o VAR merece sordidez ou vagos aplausos.
terça-feira, 10 de fevereiro de 2026
O amigo da madrugada
Por Edmilson Siqueira
Em 1971 eu já tinha terminado o Clássico no Culto à Ciência no ano anterior e o serviço militar em junho, o que me deixava livre de qualquer coisa - não ia prestar vestibular - e ia dar um tempo pra procurar um emprego.
Assim, comecei acordar tarde, coisa que curto até hoje e, claro, dormir mais tarde ainda. Foi aí que adquirir o hábito de dormir ouvindo rádio.
Eu tinha um rádio Philips, a pilha, com AM e duas ondas curtas (FM ainda estava incipiente no Brasil) e costumava ligá-lo já na cama. Como eu ia dormir tarde, encontrei no dial a Rádio Globo. Isso porque a Rádio Educadora (atual Rádio Bandeirantes de Campinas) saía do ar à meia-noite e na mesma frequência dela entrava a Globo. Como eu ia dormir bem depois da meia-noite, quando ligava o rádio já estava no programa do Adelzon Alvez tocando belíssimos sambas e entrevistando sambistas do morro que ninguém conhecia ainda.
Mesmo depois que comecei a trabalhar, ainda cultivava ouvir pelo menos uma meia hora do programa dele, que começava depois do "Seu Redator Chefe", noticiário da meia-noite na Globo do Rio. Só que logo entrei na faculdade e, trabalhando e estudando, não dava pra ouvir nada. Era cair na cama e dormir. E tinha saudade do programa dos sambas do Adelzon.
Pois dia desses eu vi num desse podcasts do Youtube uma história interessante que envolve o Adelzon que hoje está com 88 anos. Quem conta a história é Edson Mauro, alagoano e radialista famoso da Rádio Globo. Ele diz no podcast que um dia, em 1972, foi procurado pelo Djavan, de quem ele era amigo desde Maceió, que lhe informou que estava voltando pras Alagoas, já que não conseguia mostrar sua música pra ninguém no Rio.
O encontro foi por volta das 11 horas da noite, na Rádio Globo, Edson estava comandando um programa esportivo e Djavan o abordou no último intervalo. Terminou o programa e Edson, sem saber o que fazer a não ser pedir para Djavan ficar, pois conhecia seu talento, viu entrando no estúdio o Adelzon que logo mais iniciaria o seu programa que se chamava "Adelzon Alvez, O Amigo da Madrugada".
Encantado com a produção do moço, Adelzon disse para ele voltar à tarde que ele ia levá-lo até a gravadora Som Livre, onde o diretor estava procurando por jovens talentos. Djavan voltou lá e, com Adelzon Alves, foi para a Som Livre. O resto é história.
O programa na Globo durou 24 anos e depois Adelzon andou por aí, teve um programa em Brasília, na última eleição tentou ser deputado federal e hoje parece que está na Rádio MEC do Rio.
Ele simplesmente descobriu ou ajudou na carreira artística Cartola, Candeia, Nelson Cavaquinho, Zagaia, Silas de Oliveira, Dona Ivone Lara, Geraldo Babão, Djalma Sabiá, Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Clara Nunes, João Nogueira, Roberto Ribeiro, Dona Ivone Lara e Wilson Moreira da Portela. E Djavan, claro.
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026
Quando o cadê a gente não vê
Por Ronaldo Faria
Nas ervas benvindas e benfazejas
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