Por Ronaldo Faria
No ponto de ônibus, Aderbal espera chegar o circular. A pulular, a turba caminha em idas e vindas para chegar e voltar. E sua sob o sol, exala sal dos poros sem o quadro erótico que se faz quando estão em dois corpos deitados e nus a se amar. Nos pontos de ônibus, cones dividem onde estar ou não. De um lado, alegria. Do outro, solidão. No meio de tudo, o soturno dispor que existe entre a felicidade e o torpor. No céu que se desenha de cores e desdenha o que pode ainda vir, o avião sobrevoa a cena em centenas de quilômetros abestalhados e tachados de máquinas de voar. No ar, os canos dos carros ventilam sua poluição.
Para Aderbal, a beligerância está entre o momento de agora e a fonte em que se beberá amanhã. Está na conta ainda não paga, bárbara de ser, cataclismo do universo onde o verso não cabe versejar. Na essência da famélica cidade que se perde em ruas, esquinas, CEPs e o que mais há a dividir bairros, zonas e vidas, a canção ecoa a toa nos ouvidos dos descrentes de que a gente do lado estará junto no apocalipse final. Letal, Aderbal está a remoer seu passado castrado pelo medo atávico e pálido. No seu hálito, uma bala de hortelã. Se o seu amor por fim chegar, a boca estará a cheirar.
Devagar, a vagar nas loucuras, o mundo do protagonista se sobrepõe ao bélico discurso do obtuso narrador que prega a dor como salvação. Caminha calmo e eterno ao terno que vive consigo. Na etérea e trôpega ilusão, caso perdido e vazio no coração de todos nós, em nós que nenhuma Nossa Senhora conseguirá desatar, o vento natural ventila o nariz de Aderbal e as crenças de todos que o cercam. Chega como brisa do mar e cigarro natural. Faz-se brilhante, como aquele que diz que a felicidade estará logo ali adiante. Radiante. E para aquele que não quiser crer, Aderbal mandará se foder.
No entorno que derrama tornos de novos mistérios móveis, mesmo que estejam todos presos num nada sem ser, o senhor central dessa história criada por um louco traduz a luz onde luz não há. Aderbal, que pensa ter vencido todo seu mal, é apenas feto a espera de nascer. A voltar ao passado, atrasado no tempo, vendeta da mulher que jogou praga às gerações futuras, mesmo que essas nada tenham a ver com o fato de uma bicicleta a atropelar, ele pede apenas para o show continuar. Enquanto a cortina não deixar o palco sumir nos raros aplausos que apaziguarão, continuará a trilhar sua trilha diminuta e inculta feito cafetão a amar sua puta.
E assim, no tal fim que toda história tem, Aderbal acelera a espera que quer ter. E brinca de ser dono do seu mundo performático e atávico (repetiu-se a frase e a sina?). Enfim chega o ônibus desejado. Está cheio e vazio. Tem gente no seu porvir e crente que ora à Bíblia como fosse certeza da alegria. Sobe, passa o cartão, senta no banco livre ao lado de um senhor que tosse sem parar. “Foda-se o escambau”. E assim, assimétrico e elétrico, feito o tal veículo que o leva para longe das trevas, passa e repassa lugares onde está cansado de ver e rever. Na sentença da crença absurda de tudo num repente se resolver, dorme no balançar de buracos e asfaltos mal arranjados. E aí, e só então, vira ele mesmo, ser a esmo no mundo por apenas querer viver.




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