Por Ronaldo Faria
Musicoólatras
DOIS APAIXONADOS POR MÚSICA A FALAREM DE VINIS, CDS E DVDS
sexta-feira, 3 de julho de 2026
Pra acochambrar o fim
quarta-feira, 1 de julho de 2026
Quase doidão pra tirar o atraso da dor
Por Ronaldo Faria
No descalabro de um cadafalso falso como diamantes que o amante falsário deu à sua deslumbrada e desejada amada, o mundo se faz obtuso e surdo. Talvez caquético e frágil a andar nas estradas que ainda faltam a se trilhar. Senão, um não a mais, nos tantos nãos que se assemelham a um hino elementar, sem qualquer presságio, caro Watson.
No verso sem reverso do equilátero
trépido e tépido que a vida perfaz, há um resto de formicida e outro pouco de
loucura ensandecida. No meio certo e, em meio do tudo rotundo, a vida não sabe onde saltar.
Que coração assaltar para resgatar o restante de porvir? Não sei. Na carótida
de um coração sem ação, a famélica e à cata grata contradição.
No reino sem nobres ou plebeus,
o véu que descerra num palco onde o amor e o asco se misturam em louvor. No vento
que sobremaneira faz das folhas um bailado fátuo, a certeza de que as estrelas farão
do alto o seu eterno surgir. Senão, feito o grito ungido de dor, o universo se
desfará em nobreza para gritar consigo mesmo de que ainda se está aqui.
No descrédito que o féretro se
faz na voz, a vez de girar a ilusão da unção. A andar e desandar no intermédio
desmedido de ser, um poeta abjeto se faz objeto para recriar no refazer. E
agradece àqueles que voltam a buscar nas palavras a lavra final. Assim, autoimune
a si mesmo, a esmo, redescobre que gira, volta e gira outra vez na urgência de
ser.
terça-feira, 30 de junho de 2026
Tuck & Patti: simplicidade e arte *
O guitarrista Tuck Andress conheceu a cantora Patti Cathcart em São Francisco em 1978. Antes disso, Tuck estudou música clássica em Stanford e foi músico de estúdio. Patti também teve formação clássica e cantou num grupo chamado Brides of Funkenstein.
Viraram namorados e casaram-se em 1983. Depois de se mudarem para São Francisco, cidade natal de Cathcart, trabalharam numa banda de covers de rock and roll. Recusaram propostas de contratos de gravação enquanto trabalhavam para encontrar um som próprio.
Isso só foi acontecer em 1987, quando assinaram com a Windham Hill Jazz para quem gravaram o seu álbum de estreia, "Tears of Joy".
O som da dupla - violão e voz unicamente - fez sucesso e recebeu execuções em estações de rádio de jazz e pop nos EUA. Foi o início de uma carreira que geraria muitos frutos. Gravaram vários outros álbuns para a Windham Hill Jazz e, em 1995, assinaram com a Epic. Seguiram-se mais álbuns para a Windham Hill e para a 33rd Street . Criaram a editora T&P Records, que licencia os seus álbuns para distribuição mundial. Além de atuarem, dão aulas particulares e workshops de canto e guitarra.
Pois é esse disco - "Tears of Joy" - o primeiro da dupla, que tirei da gaveta para ouvir esta semana e comentar aqui.
Lançado em 1988, ele surgiu, segundo os críticos, em um momento em que o jazz contemporâneo buscava novos caminhos entre a tradição e a música popular, mas poucos trabalhos conseguiram alcançar a originalidade e a intimidade que caracterizam este disco. Gravado apenas com voz e guitarra, "Tears of Joy" tornou-se um dos registros mais marcantes do chamado crossover jazz dos anos 1980.
Esses mesmos críticos perceberam a riqueza extraída do vilão de Tuck: "O aspecto mais impressionante do álbum é justamente sua economia de meios. Sem bateria, baixo ou teclados permanentes, Tuck Andress cria uma base harmônica e rítmica extraordinariamente rica. Sua técnica combina acordes, linhas de baixo, melodias e elementos percussivos executados simultaneamente, produzindo a sensação de que há vários músicos tocando ao mesmo tempo." E não deixaram por menos ao se referirem à cantora: "Patti, por sua vez, canta com naturalidade e sensibilidade, evitando excessos e privilegiando a comunicação emocional direta."
A faixa-título, “Tears of Joy”, abre o álbum de forma luminosa. A composição apresenta imediatamente as qualidades que fariam do duo uma referência para músicos e apreciadores do jazz vocal.
Entre os momentos mais conhecidos do disco está a releitura de “Time After Time”, sucesso de Cyndi Lauper. A versão de Tuck & Patti transforma uma canção pop em uma peça de jazz intimista. Muitos ouvintes conheceram o trabalho do casal justamente por essa gravação, que recebeu significativa atenção em rádios de jazz e de música adulta contemporânea.
Outro destaque é “My Romance”, clássico do cancioneiro americano que recebe tratamento elegante e minimalista. Patti demonstra profundo entendimento da tradição vocal do jazz, enquanto Tuck oferece acompanhamento refinado.
“Better Than Anything” e “Everything's Gonna Be All Right” reforçam o clima otimista que percebemos em grande parte do álbum.
A produção do disco também merece elogios. Em vez de recorrer a overdubs complexos ou efeitos excessivos, os músicos optaram por uma sonoridade limpa e transparente. Como é explicado no encarte: "Todas as gravações foram ao vivo no estúdio (sem sobreposições e edições).”
Embora tenha sido lançado em uma época marcada por produções grandiosas e sintetizadores, "Tears of Joy" provou que a simplicidade podia ser igualmente impactante. O álbum conquistou tanto apreciadores de jazz quanto ouvintes vindos da música pop e da música acústica. Seu sucesso abriu caminho para uma carreira duradoura.
Mais de três décadas após seu lançamento, Tears of Joy continua soando atual. Sua força não depende de modismos nem de recursos tecnológicos específicos. O que permanece é a qualidade das canções, a excelência das interpretações e a rara sintonia entre dois artistas que transformaram a comunicação musical em uma forma de arte.
As dez faixas do disco são as seguintes:
- Tears of Joy (Patti Cathcart e Tuck Andress)
- Takes My Breath Away (Patti Cathcart e Tuck Andress)
- I've Got Just About Everything (Bob Dorough)
- Time After Time (Cyndi Lauper e Rob Hyman)
- Everything's Gonna Be All Right (Patti Cathcart)
- Better Than Anything Bill (Loughborough e David Wheat)
- My Romance (Richard Rodgers e Lorenz Hart)
- Up and At It (Wes Montgomery)
- Mad Mad Me (Patti Cathcart)
- Love Is the Key (Patti Cathcart e Tuck Andress)
O CD está à venda nos bons sites do ramo e pode ser ouvido na íntegra no YouTube em https://www.youtube.com/watch?v=21neUq5e3MY&list=RD21neUq5e3MY&start_radio=1 .
segunda-feira, 29 de junho de 2026
Na esquina da penumbra
Por Ronaldo Faria
A penumbra soa, sua e sai que
nem rumba nos ouvidos dos amantes arfantes e terminais. José, na presunção de
que não existe unção entre a verdade e a ficção, sabe apenas que milagres
sempre acontecem. E se enaltecem de verborrágicas e fálicas saudades que fazem
a maldade virar devaneios mil. No céu ainda resiste um azul que tenta ser anil. Na praia, a
se espraiar aos olhos dos homens sedentos de ventos que tragam o cheiro da amada
para algo valer, o mundo se vai num vaivém sem chegança ou limiar. Na
solidão da saudade existe o eterno regressar. E há olhares de lágrimas,
sorrisos fátuos e entregues, corpos colados e desnudos em ofegantes e arfantes
incertezas carentes de juntar.
A semântica quântica que semeia
fórmulas e rótulos envoltos em desbragados desejos e ensejos se despeja em
marés e ondas que nenhum mar saberá sequer decifrar. E assim, entre descalabros
e fados entrecortados de notas de tango, o canto se sobressai na noite que
chega. Na lambança de ficar ébrio ou sóbrio, um pouco de lucidez e outro de sódio.
Tudo sem ódio. Na ausência da essência que se vislumbra no ritmo de rumba, um pouco
de amor e outro tanto de macumba. No universo do verso repartido e partido ao
solilóquio louco de abrir a janela ou o gás, a efeméride da carta nunca escrita
ou descrita tempos atrás. Aflita, a saudade pede apenas para sentar no banco dos idosos por se
achar caduca para tanta IA.
sábado, 27 de junho de 2026
Ao som de Marcos Valle e Stacey Kent
Por Ronaldo Faria
Em transversos versos que se entregam aos delírios de copos e capciosos e ciosos tocares de corpos como fossem a música que se entrega aos ouvidos vívidos de querer amar, frágeis amantes, volúveis e informais, margeiam a crença de que antes da morte se tem um amor a encontrar. A devorar goles e têmporas, efêmeros temporais de orgias na sangria da paixão, uns tantos e tantos outros, outrora tristes e fugazes, se veem envolvidos nos desejos incontidos que choram ao olhar perdido.
A penumbra que se desfaz nos faróis enlouquecidos mostra sentenças mil a se esgueirarem pelas mãos que tocam seios carentes, bocas dormentes, refúgios que se esmeram em raras sementes. Ausentes, casais se envolvem na notívaga chegada da frágil madrugada. Misturam-se ensandecidos e calientes feito entes que não se enxergam nem em microscópios utópicos e dementes. Crentes de que existe algo além daqui, pedem um drinque de gim com pequi.
Aqui e ali, famigerados solilóquios se esgueiram nas esquinas sombrias que a soberba deixou de decifrar. E se esmeram em paixões que nem Vinicius de Moraes iria fazer um poema de mais a poetizar. Se lambem, se entregam em perjúrios mil, sobremaneira falam de cânticos ecléticos e milimétricos. Éticos? Quem disse que há ética no amor que se deslumbra na penumbra? No bar próximo, um office boy toma o primeiro porre.
Numa rua próxima, a felicidade dá de braços com a saudade e brinca de cabra-cega e o que seja que tiver de brincar. Afinal, no final de qualquer amor há um apêndice que nunca irá se dissipar ou extirpar. Expurgar? Jamais. Nos finais de amores vãos, sensações mil, desvarios em cio, cânticos depurados dos corações dos amantes amados. Na fragilidade que só a idade provê para sofrer, a inequívoca realidade de ser. Talvez um ébrio a eternizar Maysa a cantar, com seus olhos verdes feito a mais linda cor que possa existir, o desejo de brotar feito a rosa que morre sem água a surgir como pedinte de emoções. No lugar onde há a separação da frágil junção do tocar e recriar, versos e canções se tornam e se entornam pelo chão. Ao redor, o amor tenta ser sensação.
quinta-feira, 25 de junho de 2026
Com Targino Gondim
Por Ronaldo Faria
-- Januário, lembra que amanhã é dia de trabalho?
-- Eita porra, e eu quero me lembrar disso?
Com carinho e abraço apertado, mãos presas na cintura de Maria, o vaqueiro parecia menino traquinas que vira arteiro para correr do gado e caçar tanajura pra enfiar graveto na bunda num revoar que inexistirá em liberdade.
-- Deixa comigo, morena. O momento pleno é curto. Logo, não se aperreie. Vamos bambolear e deixar que o amanhã se faça naquilo que for, se for. No amor ou na dor.
Na estrada que sai de algum tempo para noutro chegar, a procissão corre em passos céleres pra fugir da chuva que se arma a cair no horizonte logo depois da ponte. Nos poços que sobraram entre a areia branca e a rara grama, um peixe que sobreviveu à seca do sertão ri pelas guelras de felicidade plena. O carcará filhote, ainda sem penas para voar, olha com desejo o burrego que chora de vontade de se juntar à mãe. A lua, dessas que sombreia os galhos desnudos de folhas no chão esturricado, não sabe se vai ou se vem. Pra muitos, daqui a nove meses vai ter neném.
-- Maria, vamos ali no cantinho dar uns amassos mansos?
-- Januário, sai pra lá! Anel no dedo que é bom você não quer botar...
-- Quem disse? Você quer ver?
Rápido como a raposa que cata galinha no poleiro e foge para a caatinga a matar a fome, Januário mete a mão no bolso e tira o anel reluzente que comprou do mascate na feira.
-- É teu! E é ouro de verdade. Pode morder pra comprovar!
Espantada com a surpresa, feliz como fosse parte da maior realeza, Maria apenas sorri e dá o dedo para não deixar que Januário se arrependa.
-- Põe logo!
E precisava pedir? Veloz como o fogo que queima a relva e o mato seco no pasto, Januário logo fez o desejo de Maria acontecer. Toda formosa, no vestido vermelho de chita, ela se entrega enfim às regalias de ser amada. E roda e gira, gira e roda, se faz a estrela perdida no céu a brilhar solitária no universo que nem cabe no verso. No palco de pau a pique, o zabumbeiro e o sanfoneiro dão canja ao moço do triângulo que arrebenta no ritmo. O mundo agora decide ver tudo de perto e transformar em verso os versículos da Bíblia que devem dizer que o amor é apenas pra se ter e viver.
terça-feira, 23 de junho de 2026
Vida existe pra se viver
Por Ronaldo Faria
domingo, 21 de junho de 2026
Um coletânea feita há 54 anos
Por Edmilson Siqueira
sexta-feira, 19 de junho de 2026
Diário de bordo a bombordo na borda a bordejar
Por Ronaldo Faria
quarta-feira, 17 de junho de 2026
Na melodia do Luiz
Por Ronaldo Faria
José, largado entre mesas e potes de cerejas e caixas de cerveja, cercado de ninfas e suas brotoejas, é somente mera sombra da madrugada de lua nova sem luar. Sem lábios para beijar e olhos para focar, mãos para tocar e corpo para se entocar nas noites frias e sós, é agora a diáspora de si mesmo. Na sala cercada de móveis coloniais e cores de breu, sabe que o próximo destino é desatino e caminho sem tino. Apenas cenas passadas e cansadas de colorir as telas rasgadas do cinema do acaso em descaso.
Ao longe, na memória esquecida e tardia do dia findo, um menino solta a pipa a picotar outras que voam só por voar. E há mulheres com suas saias a saracotear no footing de orgias e sangrias nos corações dos rapazes que fazem as pazes com o amor. Como fundo de pano para o teatro e retreta, um fole joga e lança notas no ar. A cercar a história e preparar seu fim sem pesar, o pensar de José entorpece de a tudo brindar. E a cada gota que cai das bocas a marcar o crime da fantasia final, se embriaga de solidão.
(Com Pedro Luís a cantar Luiz Melodia)
terça-feira, 16 de junho de 2026
A trilha sonora das nossas vidas
Por Edmilson Siqueira
Mas, além do futebol, há um outro produto que nos enche de orgulho, esse sim sem qualquer derrota aparente e, muito pelo contrário, mantendo a trajetória vitoriosa pelo mundo afora.
Trata-se da nossa música popular. Já encantava os States com Carmen Miranda e, alguns anos depois, começou a conquistar o mundo com a bossa nova. Um concerto no Carnaggie Hall, em 1962, com grandes músicos norte-americanos na plateia, consolidou a bossa nova como nosso melhor produto de exportação. Hoje, 64 anos depois, a bossa nova já se misturou ao jazz e as grandes rádios dedicadas ao gênero, não fazem mais distinção entre uma e outra que convivem harmoniosamente nos quatro cantos do mundo.
Esse orgulho todo me veio à cabeça ao reler um trecho do encarte do CD "Noites Tropicais". Trata-se da "trilha sonora" de um livro do mesmo nome escrito por Nelson Motta. Nele, o autor conta a "trajetória luminosa da nossa música popular até os anos 90". E acrescenta: "A mais bem aventura cultural brasileira neste século. Uma das raras."
O CD é duplo para caber tudo aquilo que Nelson Motta considerou como "a trilha sonoras de nossas vidas". São trinta e duas faixa onde cabe de tudo. Da icônica gravação de "Desafinado" com João Gilberto a "Alagados" do Paralamas do Sucesso', passando por Novos Baianos, Hermeto Paschoal, Caetano, Chico e até Eduardo Araújo.
Claro que nem tudo pode ser colocado no pacote que faz sucesso pelo mundo, mas ao ler o liro, que recomendo, dá-se razão à liberdade de escolha de Nelson, com todos os temas devidamente justificados em seu ótimo texto.
Quem tem mais de 50 anos vai se encontrar na trilha escolhida por Nelson. Claro que uma ou outra faixa pode entortar o nariz do ouvinte. Eu, por exemplo, apreciei muito pouco a Jovem Guarda, achava um movimento insosso, mais em busca do sucesso a qualquer custo do que uma manifestação cultural lúcida, como foi a bossa nova ou a tropicália.
Com esse entusiasmo todo, Nelson Motta nos apresenta trilha sonora que ele viveu, desde o fim dos anos 1950 até mais ou menos os anos 1990, corresponde ao que de melhor já se produziu aqui em termos de MPB. Mas, claro, a produção não parou. O Brasil tem hoje grandes compositores que se não são famosos como os dos tempos dos festivais, continuam produzindo música de grande qualidade que, muitas vezes, é mais reconhecida no exterior que aqui no Brasil. Mas isso é outra história.
O importante é ouvir esse CD duplo onde Nelson Motta nos dá um retrato quase perfeito de uma música que não tem data para se tornar velha ou ultrapassada. Muitas das faixas dos discos continuam sendo tocadas por aqui e também no exterior.
Vamos à s faixas:
CD 1
- João Gilberto– Desafinado
- Stan Getz, João Gilberto, Tom Jobim, Astrud Gilberto – The Girl From Ipanema
- Tamba Trio - Sonho De Maria
- Nara Leão - Diz Que Fui Por Aí
- Os Cariocas - Rio
- Sérgio Mendes & Bossa Rio - Ela É Carioca
- Jorge Ben - Chove Chuva
- Elis Regina & Jair Rodrigues – Pot-Pourri (Ao Vivo)
- Edu Lobo, Marilia Medalha, Momento Quatro e Quarteto Novo - Ponteio
- Gilberto Gil - Domingo No Parque
- Eduardo Araujo - O Bom
- Erasmo Carlos - Sentado À Beira Do Caminho
- Caetano Veloso - Atrás Do Trio Elétrico
- Tim Maia - Primavera (Vai Chuva)
- Tim Maia e Elis Regina - These Are The Songs
- Wilson Simonal - Sá Marina
CD 2
- Raul Seixas - Ouro De Tolo
- Novos Baianos - Preta Pretinha
- Chico Buarque - Apesar De Você
- Elis e Hermeto Paschoal - Corcovado
- Gal Costa - Noites Cariocas
- Rita Lee - Arrombou A Festa
- Frenéticas - Perigosa
- Gang 90 & As Absurdettes - Perdidos Na Selva
- Blitz - Você Não Soube Me Amar
- Marina - Me Chama
- Lulu Santos - Como Uma Onda (Zen Surfismo)
- Ultraje a Rigor - Inútil
- Barão Vermelho - Todo Amor Que Houver Nessa Vida
- Titãs - Homem Primata
- Paralamas Do Sucesso - Alagados
- Marisa Monte - Comida
O CD está à venda nos bons sites do ramo e pode ser ouvido na íntegra no Spotify em https://open.spotify.com/playlist/6O6RYiUWe7SvXgq2oT7C97 .
segunda-feira, 15 de junho de 2026
Foi-se sem foice ou martelo
Por Ronaldo Faria
Sôfrego, trôpego, anacrônico e
louco, o aprendiz de escritor e poeta dá boa noite ao mundo. Nalgum lugar,
ultramarino ou sem mar, sua voz irá ecoar. E se assim não for, no torpor, a
vida haverá de lhe prover algum lugar. Ou como diz o poeta maior, ali só falta
capinar. E no amor sem finitude regar.
sábado, 13 de junho de 2026
Com o Poetinha
Por Ronaldo Faria
quinta-feira, 11 de junho de 2026
Não morre, mouse
Por Ronaldo Faria
Heroico na sua decisão, bebe mais um gole de refrigerante comprado na promoção do supermercado. “Agora mandei bem. O que você achou, Basílio?” O gato sequer se mexe. Se entendesse a pergunta, talvez tivesse mandado um “vai tomar no meio do seu cu, bundão!” Mas o silêncio e a petrificação do felino parecem ser a aceitação que desejava. Para ele, agora Maria iria responder. “Tudo bem que mandei uns tantos antes, sem sucesso. Mas esse de agora vai mexer e remexer com o seu coração”, pensou.
Na rua defronte de sua casa, esquina de algo incomum e nada, a chuva caía amiúde. Uma ou outra pessoa, com seus guarda-chuvas ou sombrinhas abertos a amenizar pingos tardios, passava rápido. Na janela de Gumercindo a cena encenava quase nada. Seu mundo era quarto, sala, cozinha e banheiro. As janelas eram mero apêndice que algum arquiteto pensou. “E agora, espero a resposta acordado ou vou dormir e ter uma surpresa de manhã?” A dúvida, ávida de fim, povoava sua cabeça vazia e cheia de perguntas e falsas respostas, todas postas e findas. “O que você acha, Basílio?” O bichano, orando ao Deus dos animais para mandar um raio que fulmine seu tutor, sequer move um cílio ao não olhar. “Prostração é sim! Obrigado, Basílio!”
E assim ao tempo corre no relógio. A Terra dá mil giros sobre seu próprio eixo No desleixo com que cuida da sua casa, o mundo do sonhador chama novas baratas para morar. Mas Gumercindo, no infindo desejo de ser feliz, fica insone ao sono solene e prenhe de nascer. “São quatro e meia da manhã. Acho que ela ainda deve estar dormindo. Meu instinto diz que sim. Acho que vou dormir também. Mas e se ela for insone igualmente? Se o despertador foi colocado pra logo mais?”
terça-feira, 9 de junho de 2026
No ácido
-- Sei lá. Não vim com ele para o baile.
-- Mas o cabra falou que vinha.
-- E eu com isso...
-- É que ele me deve trezentos contos.
-- Se ele te deve, corre atrás. Não vem querer me cobrar.
Perácio, apesar do nome parecido, não era nada de Acácio. Parente? Nunca. Talvez só a mesma patente extinto Tiro de Guerra os unisse na Terra. Mas que se foda o serviço militar obrigatório. “Obrigação é coisa de cuzão”, sentenciou um qualquer.
-- Ainda vou passar esse peste no facão.
-- Por mim, esteja na sua vontade.
Livre de Perivaldo, Perácio vai até o balcão e pede uma gelada e um dedo da quente.
-- Essa pinga é do alambique da Gameleira. É da boa!
-- Então coloca com choro e fica na sua.
Calibrado, põe os olhos no meio do salão. A prenda mais rodopiante será o alvo certo. A luz, em meia vida, proposital para que mãos e lábios pudessem estar livres para se encontrarem e fugirem às regras em voga, não ajudava muito a ver rostos e coxas das dançarinas. Mas, num relance que os olhos dão, enxergou uma morena com seus cabelos negros e lisos. Deu pra ver que sua boca, carnuda, guardava dentes que brilhavam na penumbra. Seu corpo não era real. Certamente era criação de algum escultor do passado do mundo. E seu riso era como se o mundo fosse somente florir.
-- Camarada, essa pinga está batizada?
-- Claro que não. É da pura.
Então a sua visão não estava maluca. Ela existia. Era real, coisa e tal. E rodopiava no salão como fosse o centro do mundo. Translúcida ao negror geral, talvez fosse a síntese da poesia que diziam alguns loucos e aprendizes escreviam em livros ou guardanapos. Ele não sabia. Analfabeto de verso, Perácio era pé no chão nas rimas do alfabeto, mesmo com bota de couro para tanger o gado.
-- Manda outra dose pra eu tomar coragem...
Virou tudo de solapada só.
-- Vê mais uma!
De novo, a garganta junta álcool e fé de que é possível ter a morena em seus braços. No palco, o fole da sanfona rola solto. O cantor entoa rimas de amor. Era agora ou nunca. Certo de que sua empreitada daria êxito, caminha devagar pelo salão. "Vai acabar com beijo na nuca." Mas, a alguns passos da mulher desejada, ouve gritos de dor e realidade tresloucada. Sem que ele visse, Acácio tinha chegado no lugar de bolsos vazios e promessas vãs. Sem paciência mais para esperar, Perivaldo rasga seu peito com o facão. Desesperada, a moça corre para rua junto com a multidão. E some nas ruas de terra de alguns pedriscos.
-- Porra, Perivaldo, não tinha outra hora pra matar o Acácio?
A pergunta fica sem resposta. O autor do crime sai de cena antes que a polícia chegue ao lugar. Incrédulo que o seu amor sequer perpetrado foi no mundo desaparecer, o triste e descrente Perácio volta ao balcão e diz numa sentença formal: “Meu, deixa a garrafa inteira aí. Pro inferno o sonho de ser feliz”. No meio do terreiro, o chão de barro está retinto de vermelho. O sangue de Acácio é apenas o prenúncio de que o tempo segue seu rumo sem se importar com o amor distraído e inexato. No cenário, uma lua rasgada de branco que brilha só se faz acalanto para tão pouco tanto.
(A descobrir um disco “velho” de 1976 de Gilberto Gil)
Pra acochambrar o fim
Por Ronaldo Faria Ela, num dado momento, se veste de flores. Depois, em folhas, se faz somente de amores. E mitiga os poucos versos do poet...
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Por Ronaldo Faria -- E aí, vamos? -- Claro. Só se for agora... Carlos e Kelé, amigos de infância, suburbanos desde os primeiros panos de ...















