Por Ronaldo Faria
Musicoólatras
DOIS APAIXONADOS POR MÚSICA A FALAREM DE VINIS, CDS E DVDS
segunda-feira, 5 de outubro de 2026
Papo de não saber o que 2
sábado, 3 de outubro de 2026
Papo de não saber o que
-- Pode ser ou não.
-- Como assim?
-- Depende. Se você estiver virado para a parede ou meio embriagado, é meio. Se estiver de frente no alvo e bombado, vem merda por aí.
O papo quase escatológico de João e José vem sem pé e nem cabeça. Na retreta da treta, histórias diferentes e rentes. Descrentes e tementes de inviabilizar amizade desde a infância que já se foi desde seis décadas, seguem bêbados e unilaterais a se ouvirem na cabeça de cada um (que na verdade é uma mesma e só).
No mundo que inunda o profano devasso e retórico há pouco a deduzir. Talvez um luzir de faróis, anzóis que jogamos ao léu à felicidade pescar, retreta de tango tangente e pungente. Na verdade, de verdade verdadeira que se esgueira na solidão, há ao menos um espelho que reflete a felicidade num pedaço de dia à revelia. Meio realidade e outro tanto de nostalgia. Catarse que surge e arde à perfídia para se tornar somente si. Ensimesmada de saudade e vontade de ver, falar, beijar. Na volúpia que somente Cazuza sabe cantar. Aqui e na loucura, outro lugar.
-- Afinal, me responde: fodido é meio fodido ou fodido e meio?
-- Sei lá, caralho. E nem estou aí para saber.
Diante do colóquio sem noção da mesa, Gastão, garçom que conhecia há tempos os dois, coloca logo um balde com seis garrafas deitadas no monte de gelo a suar.
-- Valeu parceiro nosso. Os dez por cento estão cravados, marcados e garantidos.
Do garçom surge um riso claudicante. E a conversa ressurge no mesmo instante.
-- E aí, crava ou não crava?
-- Porra, João, se é tão importante pra você, vai. Foda-se, irmão.
No som do local rola Águas de Março. E ainda estamos em fevereiro fervendo a mil graus.
-- Vamos parar. Nosso escriba tomou uma garrafa de vinho e a tal cerveja alemã de 500 ml.
-- Paremos. Deu! Deixemos pra discutir a vida quando estivermos apenas na loucura que já temos por genealogia e DNA.
-- Isso. Posso dizer algo de coração: você é do caralho.
-- Eu sei, eu sei...
-- Sabe nada. Precisa de mim pra fazer valer.
No entorno, no torto desvencilhar do mundo, o tempo é atemporal e pira, decepcionado, por ser apenas algo pirado.
-- Cacete, cadê a erva que você sonhou que o doidão da terra da maconha achou que ia rolar?
quinta-feira, 1 de outubro de 2026
Com a cinta magnética e Caetano
Por Ronaldo Faria
Caetano a ser beta e Bethânia. Epifânia e drama. Coisa de expressa certeza do universo que o verso em veredas se envereda por nada ou qualquer dor. Ou seja, seja o que tiver de ser e for. No louvor dos orixás e chás alucinógenos, presenças de bares de esquinas como uma cidade em bar. A desabar. Como na fuga do louco de um grupo saudoso e sem que ninguém desse a mínima sequer. Mimetizado e alcoólico, volátil e calado nos seus gritos fundados em anos de ser, a certeza errante do navegante. E assim, entre a sanidade e o outrossim, nos cantaneemos e insurjamos nos trajetos dos fetos àquilo que ainda temos a decantar. Ou...
terça-feira, 29 de setembro de 2026
Quem sabe não tem volta
Por Ronaldo Faria
-- Nem fodendo.
-- Por que não?
-- Por que não quero. Isso não basta?
-- Claro que não. Você é meu paciente. Está ciente disso?
-- Estou. A minha conta bancária sabe bem disso. Nunca no pagar fui omisso.
-- Não estou falando de dinheiro. E sim do seu aconchego.
-- O quê? Será mesmo?
Astrogildo, puto da vida, responde as perguntas do seu psicanalista. “Caralho, deixei de ver Flamengo e Vasco para estar aqui escrevendo a toa E esse corno, “doutor”, quer saber se estou bem? Pau no cu do angu!”
-- Astrogildo, você ouviu o que eu perguntei?
-- E você, seu babaca, sabe se o Arrascaeta fez um golaço no time mais rebaixado do Rio de Janeiro?
O psicanalista, quem nem precisa de diploma de Medicina ou Psicologia para dizer o que é certo ou errado (mesmo sendo nada), fica estarrecido.
-- Como assim?
-- Preciso repetir ou mandar você tomar no cu uma vez já não é o bastante?
Astrogildo, certo de que ao menos agora irá irritar seu vizinho com os gritos de gol, levanta e sai do consultório. Desce à rua feliz e refeito de si. Amanhã, se tiver ressaca da falta de remédios tarja preta, não haverá problema, No dilema sobrenatural, no fonema atual de continuar infeliz ou não, sabe que tudo depende apenas de si. E assim se traduz na luz etérea da tela que pisca e brinca de uns como Caetano Veloso cioso de cantar o mundo musical.
domingo, 27 de setembro de 2026
Keth Richards e as cinzas do pai
sexta-feira, 25 de setembro de 2026
À cátedra da catedral
Por Ronaldo Faria
No ponto de ônibus, Aderbal espera chegar o circular. A pulular, a turba caminha em idas e vindas para chegar e voltar. E sua sob o sol, exala sal dos poros sem o quadro erótico que se faz quando estão em dois corpos deitados e nus a se amar. Nos pontos de ônibus, cones dividem onde estar ou não. De um lado, alegria. Do outro, solidão. No meio de tudo, o soturno dispor que existe entre a felicidade e o torpor. No céu que se desenha de cores e desdenha o que pode ainda vir, o avião sobrevoa a cena em centenas de quilômetros abestalhados e tachados de máquinas de voar. No ar, os canos dos carros ventilam sua poluição.
Para Aderbal, a beligerância está entre o momento de agora e a fonte em que se beberá amanhã. Está na conta ainda não paga, bárbara de ser, cataclismo do universo onde o verso não cabe versejar. Na essência da famélica cidade que se perde em ruas, esquinas, CEPs e o que mais há a dividir bairros, zonas e vidas, a canção ecoa a toa nos ouvidos dos descrentes de que a gente do lado estará junto no apocalipse final. Letal, Aderbal está a remoer seu passado castrado pelo medo atávico e pálido. No seu hálito, uma bala de hortelã. Se o seu amor por fim chegar, a boca estará a cheirar.
Devagar, a vagar nas loucuras, o mundo do protagonista se sobrepõe ao bélico discurso do obtuso narrador que prega a dor como salvação. Caminha calmo e eterno ao terno que vive consigo. Na etérea e trôpega ilusão, caso perdido e vazio no coração de todos nós, em nós que nenhuma Nossa Senhora conseguirá desatar, o vento natural ventila o nariz de Aderbal e as crenças de todos que o cercam. Chega como brisa do mar e cigarro natural. Faz-se brilhante, como aquele que diz que a felicidade estará logo ali adiante. Radiante. E para aquele que não quiser crer, Aderbal mandará se foder.
No entorno que derrama tornos de novos mistérios móveis, mesmo que estejam todos presos num nada sem ser, o senhor central dessa história criada por um louco traduz a luz onde luz não há. Aderbal, que pensa ter vencido todo seu mal, é apenas feto a espera de nascer. A voltar ao passado, atrasado no tempo, vendeta da mulher que jogou praga às gerações futuras, mesmo que essas nada tenham a ver com o fato de uma bicicleta a atropelar, ele pede apenas para o show continuar. Enquanto a cortina não deixar o palco sumir nos raros aplausos que apaziguarão, continuará a trilhar sua trilha diminuta e inculta feito cafetão a amar sua puta.
E assim, no tal fim que toda história tem, Aderbal acelera a espera que quer ter. E brinca de ser dono do seu mundo performático e atávico (repetiu-se a frase e a sina?). Enfim chega o ônibus desejado. Está cheio e vazio. Tem gente no seu porvir e crente que ora à Bíblia como fosse certeza da alegria. Sobe, passa o cartão, senta no banco livre ao lado de um senhor que tosse sem parar. “Foda-se o escambau”. E assim, assimétrico e elétrico, feito o tal veículo que o leva para longe das trevas, passa e repassa lugares onde está cansado de ver e rever. Na sentença da crença absurda de tudo num repente se resolver, dorme no balançar de buracos e asfaltos mal arranjados. E aí, e só então, vira ele mesmo, ser a esmo no mundo por apenas querer viver.
quarta-feira, 23 de setembro de 2026
Já que a dor é exequível, façamo-nos
Por Ronaldo Faria
terça-feira, 22 de setembro de 2026
Histórias do Menesca
segunda-feira, 21 de setembro de 2026
No mar de Assumpção
Por Ronaldo Faria
No meio do Brasil, interior feito de vida para não se perder e nem se achar, o caminho sem aninho e ninho de pardal que viverá depois do ovo desabrochar. Isso se o pardal macho, na hora H, não brochar. Na vitrola, que já foi eletrola, o som de um preto (Itamar) brás. Quem sabe um Nego Dito. Daqui se espera que a mudança de horário do remédio em quase descrédito vire mais do que a urina vermelha. No odor, um incenso indiano chamado warning. Que o aviso seja apenas da ressaca prevista à vista.
A próxima música é paixonite aguda. Ou a certeza de que a boca espuma entre o amor e ódio. Na esperança, que se ouça isca de polícia. Propícia, a loucura faz espocar rimas e rótulos. No trânsito intransitável e viável que desperta da fécula não digerida, o voo imaginável e tragável que o próximo poema traz. Se mais ou demais, a verve do vocabulário perdulário que se entrega há mais de 50 anos e teima em não querer se repetir. No frigir de tudo, o obscuro mundo que deve existir do ateu ao filho batizado e confirmado de santos ancestrais e negros.
No meio do bicho de sete cabeças, cabisbaixo à realidade, o escriba em eterno crer e acreditar que há o que subscrever do além que vai e vem, se deleita enquanto não deita pra dormir. No sorver de algo a surgir da performance ilusória da história sua, nua e crua, vamos a surgir nos palcos ilusórios e simplórios do pouco a se fazer ou surgir. Daqui ou por algum canto ali, a luta entre o famélico sobrevivente e Mohamed Ali. Na lona, dura e gostosa de cair, nunca peça, nem em prece, cerveja alemã para no dia prometido vir.
sábado, 19 de setembro de 2026
Ao Tom em turbilhão do Zé
Por Ronaldo Faria
quinta-feira, 17 de setembro de 2026
Para 17 de setembro de 2026
Por Ronaldo Faria
Escrever para quando nem
sabemos se vivos estaremos e como seremos num mundo que beira o fim e o limite a
cada momento, como cistite ou dermatite, é estranho. Mas, vamos lá. Sob os
auspícios de Tom Zé, esse mestre esotérico e real, nos façamos videntes, com
orgulho de ter todos os dentes. E venham as previsões:
1) Teremos no futuro um novo ou velho presidente. O novo será novidade, ou não. O velho terá passado
dos 80. Saibamos honrar os anciões.
2) A
Terra ainda estará a brigar contra o homem. Apesar de tê-lo de hóspede e passagem
passageira por aqui, Pacha Mama se verá, assim como todos os habitantes não
humanos, agredida no dia a dia. Espero que tenha ainda aguentado os rounds de
porradas diários. Se não tiver, não estarão lendo tal escrito na data dita.
3) Espero
que as dores alucinantes das vértebras L4 e L5 tenham de alguma forma acabado. Se
não tiverem, certamente terão calado este aprendiz de escrevinhador.
4) Que
as cervejarias tenham resistido aos planos econômicos, sardônicos, catatônicos
e astronômicos dos ministros das economias pobres e ricas. E que eu tenha
sobrevida para continuar a dar lucros aos seus acionistas e proprietários.
5) Que
os bares, botecos e biroscas tenham sobrevivido igualmente para deixarem o(a)s
louco(a)s, poetas, proxenetas, tristes e altruístas encontrarem seus pares. Tal
crença se estenda, claro, a todos os gêneros mil que o homem e a mulher criaram
ao longo dos tempos. Que Trump tenha perdido essa guerra.
6) Que
eu ainda tenha uns trocados para gastar com bobagens que nossas viagens diárias
e baratas nos dão para crer que vale a pena viver.
7) Que
os meus próximos, que não chegam a duas mãos contadas, estejam vivos e
respirando, apesar dos pesares e azares que cada um deve ter vivido em tal
período tido.
8) Que
o Flamengo tenha iniciado a construção do seu estádio para um dia, nesse
século, inaugurar. E, lógico, que o Zico esteja de corpo e alma para dar o
pontapé inicial.
9) Que
a gente (eu) se ligue que ainda resta um pouco de cerveja na lata de IPA e não
levante a toa para ver a coluna reclamar.
10) Que
sobrem ideias feéricas e malucas para a cada canção virar escrito de alguém do
além que vem por aqui baixar.
11) Que
tenha revisto o mar. Mesmo cria da Zona Norte carioca e nordestino do interior
em alma, esse tal de oceano Atlântico é onde eu vejo ser meu eterno lugar.
12) Que
os pesadelos tenham diminuído num percentual legal. Nada contra a cada noite
viver realidades que nem o melhor roteirista de Hollywood poderia pensar num
filme de terror e ficção, mas que sejam agora 10% do total. Que tal uns sonhos de coisas
prazerosas? O dia seguinte agradece de joelhos e tesão.
13) Que
esse tal de amor de longe se junte cada vez mais. Desde o fim das cartas
tardias não há razão para separar quem só quer se amar.
14) Que
os termômetros, alucinógenos e a queimar caixolas e ovos no asfalto, tenham dado uma pausa. Que os tais El menino e menina tenham vencido essa coisa de
religiosidade e resolvido seus conceitos e
complexos psicanalíticos para deixar o mundo continuar.
15) Que
Tom Zé ainda junte aqueles tantos e tantas Zés em esferas e efemérides nas
bancas resistentes e persistentes de jornal.
16) De
forma egoísta, que o INSS não tenha falido. E as obras aqui no prédio tenham
acabado.
17) Que
o fardo de cada bom tenha ficado igual, ou seja, bom. Já aos maus, lhes tenha faltado
hospital do INSS ou do plano de saúde. Se lhes sobrar ainda algo tétrico amiúde,
que venha de forma acelerada.
18) Que
os pedidos de justiça tenham ajuizado a favor dos necessitados e as prisões estejam
bem fechadas de grades e cadeados aos espertos e safados, não aos pobres e desvalidos de justiça.
19) Na
verdade, de verdade boba e tola, que o site que mantem tais vontades agora escritas
não tenha sido destruído ou desaparecido no mundo calcinado da web. E o parceiro
nessa empreitada esteja de bom grado no agrado.
20) E
por fim, porque querer mais do que vinte coisas é coisa de bebum ou sonhador
sem noção, nos aguentemos e brindemos aqueles que acreditam que a felicidade
sobrevive à dor. Porque afinal, no final, pouco certamente haverá para festejar.
Oxalá! E pé na tábua.
(Texto escrito há anos)
terça-feira, 15 de setembro de 2026
Quentura e Nordeste que não se avexa
Por Ronaldo Faria
domingo, 13 de setembro de 2026
O embaixador da canção francesa
Como pode um cantor com uma voz pequena, rouca e dramática fazer tanto sucesso? Nada disso é problema se estamos falando de Charles Aznavour (1924-2018), porque além de magnífico intérprete, ele foi também compositor e ator. Compôs cerca de 850 canções e atuou em mais de 60 filmes.
Mas foi pelas sus canções, com diversos parceiros (ele era o letrista) que o mundo tomou conhecimento desse francês de origem armênia. Seu destino parecia marcado: filho de pais artistas, foi introduzido ao mundo do teatro em tenra idade. Começou a atuar aos nove anos de idade e logo assumiu o nome artístico Charles Aznavour (seu nome de batismo era Shahnour Vaghinagh Aznavourian). Seu sucesso aconteceu quando a cantora Édith Piaf o ouviu cantar e o levou consigo numa turnê pela França e pelos Estados Unidos.
Durante uma carreira de aproximadamente sete décadas, gravou mais de mil e duzentas canções, em francês e também em inglês, espanhol, italiano e alemão. Sua produção alcançou dimensões internacionais, fazendo dele um dos grandes embaixadores da canção francesa no século XX.
Para conhecer um pouco, mas com profundidade, a obra de Charles Aznavour, a Polydisc lançou uma coletânea de 20 das mais expressivas cações de Aznavour, denominada, muto a propósito, "20 Super Sucessos". E claro, poderia lançar outra com o mesmo título e com canções diferentes, que haveria sucessos suficientes.
A seleção inclui títulos fundamentais de seu repertório, canções que se tornaram clássicas, como “La Bohème”, “Que c'est triste Venise”, “Hier encore”, “Les comédiens”, “La mamma” e “She”. No CD também estão algumas versões em inglês de suas próprias composições.
Não se pode dizer que o disco seja uma biografia musical completa diante da dimensão de uma obra tão extensa. É, melhor dizendo, uma fotografia. E uma ótima fotografia.
Ao final da audição das 20 faixas, fica a impressão de que o verdadeiro tema de quase todas essas músicas é o tempo. O tempo que leva os amores, muda os rostos, encerra as juventudes e transforma as lembranças em saudade. Mas também o tempo que amadurece uma voz e dá novas dimensões a uma interpretação.
"La Bohème" (Jacques Plante e Charles Aznavour) abre o disco e já mostra que a qualidade das canções será elevada. Talvez uma das canções mais emblemáticas do repertório de Aznavour, é uma evocação da juventude dos artistas pobres de Montmartre, época de dificuldades materiais, mas também de sonhos, amizade e liberdade. A canção se tornou uma espécie de símbolo da Paris boêmia.
Em “Et Pourtant” (Charles Aznavour e George Garvarentz), a segunda faixa do disco, o cantor mergulha novamente no território sentimental. Aznavour nunca teve medo do melodrama, mas sua interpretação raramente cai no exagero. Há sempre uma contenção que torna a emoção ainda mais forte.
Na terceira faixa “Emmenez-moi” (Charles Aznavour) aparece o desejo de partir, conhecer outros lugares e escapar da rotina como uma fantasia que qualquer pessoa pode compreender.
Na quarta faixa encontramos outro clássico: "Que c'est triste Venise” (Françoise Dorin e Charlez Aznavour). Veneza, cidade italiana tantas vezes celebrada como cenário romântico, surge aqui sob uma perspectiva diferente: a cidade se torna triste quando o amor desaparece. O contraste entre a beleza do lugar e a tristeza do personagem é um dos recursos dramáticos mais característicos do compositor.
Esse diálogo com lugares aparece também em “Yesterday When I Was Young”, (Charles Aznavou e Herbert Kretzmer), a quinta faixa, versão inglesa de “Hier encore”. Trata-se de uma das canções mais fortes de toda a coletânea que mostra que o tempo não pode ser recuperado.
“Je m'voyais déjà” (Charles Aznavour) apresenta outro personagem recorrente em seu repertório: o artista que sonha com o sucesso. Há humor, ironia e uma certa dose de autocrítica na narrativa. Aznavour conhecia bem as dificuldades da vida artística e sabia que o palco podia ser simultaneamente lugar de glória e de fracasso.
A faixa seguinte, “Il faut savoir” (Charles Aznavour), o artista aborda a necessidade de aceitar as perdas e compreender que a vida exige renúncias. É uma das composições que melhor sintetizam sua filosofia artística. Aznavour não procurava esconder as partes dolorosas da vida; ao contrário, transformava-as em matéria-prima para a música.
sexta-feira, 11 de setembro de 2026
Quentura e agrura
Por Ronaldo Faria
-- Pelo amor de Deus, Claudionor: traz de vez o freezer pra cá!
O grito de Roberval, seco como o tempo, soou no bar e ecoou além. Nas mesas ao lado os outros famélicos de sede exigem o mesmo tratamento. “Se levar um freezer pra ele vai ter de trazer outro pra nós”, sentenciou um senhor já sem camisa e a verter bicas. “Nem fodendo: quero regalia igual”, bradou o rapaz que fazia cortesia à mulher oxigenada com o chapéu alheio do pai.
-- Viu a merda em que você me coloca, Roberval? Aqui só tem um lugar de guardar as cervejas e é pra todo mundo.
Parte do bar aplaudiu, outra vaiou peremptoriamente. O primeiro reclamante põe o rabo entre as pernas e aceita apenas pedir a mais gelada que ainda tiver. Ao derredor, na dor daqueles que têm de correr atrás da vida que lhes foi concedida, a realidade transita além dos 45 graus. Desses, quem tem uma sombra qualquer corre depressa antes que alguém dê fé. Aos quem não tem só resta arrestar o que lhe sobrar – beirada de poste, pedaço de galho, tantinho de nuvem passageira.
-- Deu! Traz a conta que eu vou pra casa me jogar no ar condicionado a cinco graus...
Assim pedido, assim feito. Conta paga, caminhar trôpego até o lar, porta aberta, aparelho ligado. Largado de tudo, do todo e de si, Roberval deita no sofá. Pensa em respirar tranquilo. Mas qual... Sobrecarga na rede derruba todo o sistema da região. Na escuridão calórica que sobra, soçobra no chão à espera de ao menos morrer num piso frio. Do alto, seja esse onde for, algum deus ri enrolado de tolha na sauna com os santos da hora e proclama sem drama toda a trama: “Gabriel, aumenta mais uns graus nessa bagaça!”
quarta-feira, 9 de setembro de 2026
Curtícula para terminar
Por Ronaldo Faria
Fármaco, álcool e incenso. Creiam nessa tríade. Como diz
Pedro Salomão, “eu já passei por tanta zica que nada vai me assustar. Se chover, viro mar”.
Papo de não saber o que 2
Por Ronaldo Faria Relembrar. Destravar. Desgovernar. Recordar. Falar. Calar. Coisa pungente. Dor gemente. Demente. Da gente. Candente. ...
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Por Ronaldo Faria -- E aí, vamos? -- Claro. Só se for agora... Carlos e Kelé, amigos de infância, suburbanos desde os primeiros panos de ...
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Por Ronaldo Faria A chuva miúda amiúde traz flamboyants vermelhos a juntarem o casal que viaja em ervas mil onde o senhor mais senil pensa...









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