terça-feira, 3 de maio de 2022

Para Eduardo Gudin

Por Ronaldo Faria

 
Boa noite trágica e desmedida vida, cheia de incrédulos amantes, vazios inacabados, sonhos cheios de histórias malucas e sabe-se lá de onde e tantas vindas em quais e tais idas.
Boa noite passado quase asmático, desmesurado, largado entre atabaques e batuques indistintos e retintos nas ladeiras de uma terra linda, ladeiras mil para se enroscar.
Boa noite inaudita manhã onde passos tresloucados se acham felicidade a voar entre igrejas mil e pernas entrelaçadas num quarto de pedras onde escravos viram o velho porvir.
Boa noite desgarrada da visão da felicidade largada e ensimesmada, travada em desejos tardios e vadios que valeram camas a correr o quarto, madrugadas de samba e suores mil.
Boa noite último trago, derradeira tragada, cara lavada ao amanhecer, vaticínios perpétuos e inócuos no ponto perdido entre um rio e o mar que quebram juntos e barulhentos.
Boa noite escuridão cheia de estrelas a brilhar e uma lua quiçá a crescer ou diminuir num céu que se enche de cores e amores, dores travadas à eternidade dos poetas e profetas.
Boa noite mágica canção feita de versos e rimas, trovas e quadras, notas e ilusórias incertezas de que a certeza flutua numa tênue linha entre o momento que foi e aquele que virá.
Boa noite surdo, violão, cuíca e tamborim. Tragam um samba novo, uma poesia arrancada sabe-se lá de onde e um pedaço morto de esperança da tardia última hora de cada ser.
Boa noite qualquer coisa, fragmento de lamento e desilusão, fragrância e compaixão que reverbera inaudível aos ouvidos distantes e equidistantes do coração que bate claudicante.
Boa noite sincera desilusão que chega quieta a se arrastar nos cantos das veias abertas da ferida que nunca fecha e acha que pode ser verdadeira na esteira entrelaçada do fim.
Boa noite acalanto de um pranto que desce irrestrito e inacabado, arfado de um sobe e desce que faz os corpos se entrelaçarem ilusórios e inodoros diante da podridão do se largar.
Boa noite santos que chegaram da África para um novo mundo que se esvaiu em chagas, feridas, sangue e acreditar. Quiçá, serão vocês o caminho revisto do outrora derrear.
Boa noite dança que vence qualquer relembrar em fotogramas e dramas, ondas e luares, areias que foram pisadas e reprisadas para ajuntar e separar desejos e ensejos críveis.
Boa noite silêncio crivado de sons que ficam e petrificam em neurônios e junções imaginárias a sintonia perpétua que nasceu de parteiras e se viram parceiras e fugitivas furtivas almas.
Boa noite algozes de vozes e alforjes que levam pesados fardos a levitarem em estradas cheias de poeiras e esquinas que se esgueiram num universo transverso e que não chegarão.
Boa noite correntes que transformam o mar em escuro da areia do rio e verde e azul das turmalinas que sereias trazem de longe, do fundo do mar, onde tudo pode ser e estar.
Boa noite avenidas, ruas, ruelas, vilas, cidades, povoados, becos, continentes intermitentes, todos entregues ao escuro de cheiros, odores, dores, luzes, faróis e atóis a dormirem enfim.

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