sexta-feira, 8 de setembro de 2023

Mundo Livre S/A

 Por Ronaldo Faria

 


Chapação! Chapa quente e frio com os pés no chão. Os paralelepípedos gelados são amargos para quem quer enlouquecer e viver a correr tresloucado feito viciado em frio do Sul. Abaixo, mas não muito mais abaixo, algo feito algoritmo traz mau agouro no que há de duradouro. E o ouro? Onde está o ouro? No canto, a voz inumana de um louro. A alforria espera somente a derradeira semente que transpassa veias do coração sangrar e não brotar. Na cama, um curso particular de anatomia e alforria.

-- Alfredo, cadê o aconchego? A pegação? Aquilo que foi plantado mão a mão?

Alfredo não responde. Há poucos minutos estava no bonde a bandear de um lugar para outro chegar. Não tinha tempo de saber o que era amar. Sequer de ver o mar. Mas havia prometido a si mesmo que um dia pegaria uma excursão para qualquer pé de areia, fosse essa capa de revista ou apêndice de prospecção de poluição. “Ainda vou ver esse tal de mar. E descobrir se ele é maior do que o poço que tem aqui defronte.”

Na fronte queimada pelo sol e poeira que emanam do céu e do chão, Alfredo caminha e se reescreve como Caminha na carta proscrita. “Daqui, nada se planta porque se sabe que nada dá”. A enxada, aposentada, virou pouso de pássaro que soube resistir ao frigir de ovos no ninho. As mãos, cheias de calos, carcomidas e sem ver comida, são apenas um par de feridas. Mal consegue acarinhar o rosto da mulher que sobrou no casebre de pau a pique. “Quando eu voltar à mingua, sem nada, ela ainda estará por lá?”

E assim, indo para onde ainda se vai e se esvai, Alfredo, ser que é o paradoxo de si mesmo, olha o olhar lancinante da coruja, esbugalhado no fátuo fardo, e continua encarquilhado. A casa de farinha, vazia, como que diz “tire a realidade daqui que eu quero passar com a minha dor”. O odor que sai do grande forno de ferro se espalha como palha queimada. Na curva que o vento faz, um vaqueiro tenta juntar a boiada que teima em se livrar da morte certa. Alfredo só pensa: “em Creta, com certeza, bosta de boi não há.”

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