sexta-feira, 2 de agosto de 2024

A Caetanear a blasfêmia do chegar

 Por Ronaldo Faria

 

Ele estava deitado, sem consternação ou o caralho. Apenas estava. Como diria o poeta, num ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico. Estava a beber decilitros e poesia. A caminhar na imaginação tardia. A sublimar o tempo para que o agora não seja o momento da canção. Quanto tempo faltaria? No tempo verbal que o poeta não sabe dizer qual na gramática seria, saber-se-ia.
Ele sobrevoava entre as favas secando ao sol, à espera de brotar, e um arcanjo malandro que faz trovas para que as virgens que sobem ao céu achem que as nuvens são púrpuras. No cantar da saudade, a performance das notas que denotam a natureza em perdão. No universo que se esmera entre a imensidão e o trovão, a púbere voz da amada que se faz díspar e volátil a se ouvir e redimir.
Ele, cancioneiro sem esmero de si mesmo, plágio das músicas e seus poetas, efeméride de algo que surge nalgum lugar, profana a forma e alude o descrente crer em outras línguas desse mundo a mais. Filho do antes da ditadura, da Capital Federal, vive até hoje a acreditar que há um socialismo a se esconder na semente à espera de um planeta, num canto de continente, a brotar e chegar.
Ele, carcinoma pungente e escondido que logo irá chegar, planteia o pranto que os olhos nem sabem como traduzir. Os raios de Sol que dentre em pouco voltarão, volteiam a ínfima procrastinação. Nas palavras frias e frígidas da imensidão da loucura em antemão, a servidão. Mas para que serve a vida? Ávida de lavradios tardios não vem a malfadada ternura, a lânguida e pura fervura.
Ele, conspurcado de si em medos e blasfêmias, amante de todas as fêmeas, amanhã não irá enlouquecer ou beber. Um túnel atemporal irá lhe tragar e trazer a eterna e a sempre amada. E então, o que vier, virá. No antever do descrer, jusantes vão se entrelaçar. E se bastar só um olhar, um prosear de passados e a incerteza do nunca chegar, já terá valido o que o inválido do amor nunca terá.

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