quinta-feira, 26 de setembro de 2024

Dona de Castelo (sob a influência do som de Jards Macalé)

 Por Ronaldo Faria

 


- Parei! Nunca mais eu bebo. Chega!
- Mas o que é isso, Bonifácio? O que foi que deu em você?
- Deu! Imagina o que é você acordar mais despirocado do que já é. Nem na fé dá pra aguentar a veia dilatada, a dor de cabeça, a treta interior. Cansei!
- Mas cada dia é cada dia. Vem a tal ressaca, tardia. Tudo bem. Mas vem também a orgia que vale momentos, pesadelos, desmazelos e os unguentos que ensinam a nos recriar.
- Só se for pra você. Não dá mais! Vou me redimir.
Cercados de mesas, engradados e alguns loucos que decidem nos dados quem a conta vai pagar, Bonifácio e Souza fazem da prosa o botão de rosa que espera a água da esperança e da bonança para florir. Na mesa, o prato de rabada espera numa barriga dormir. Nas desmesuradas doses que já desceram, a loucura etílica se deixa curtir.
- Mas, sejamos verdadeiros, Bonifácio: estar aqui não é do caralho?
- Carlão, na rabada tá faltando alho! Resolveu economizar no tempero? Muda de profissão. Deixa de ser dono de bar!
- Me responde.
- Sei lá. Não estou preocupado com isso. Cada segundo vivido é cada segundo passado. É estar sendo carcomido e comido pelo tempo.
- Que merda, Bonifácio, já vi neguinho pra baixo, mas você está exagerando.
- Pra porra, cada um que sabe de si.
No silêncio da mente que se espalha e queima feito palha, o personagem principal desta história vira quase hiato. À busca do seu rumo ou porto, vive em Pangeia. A navegar em Pantalassa, espera ver surgir o grumete que grite “terra à vista”. Por enquanto, apenas Souza tanta tomar conta da bússola onde o timão irá migrar e virar.
- Quer a saideira? Está cedo. Acabou de dar meia-noite.
- Tudo bem. Vamos nessa. Se é pra morrer hoje, que seja em festa.
Por falar em festa, sem pressa de prosear à toa, a madrugada que prepara a chegada se torna o torniquete para as emoções que juntam dores e unções. Os dois riem de tudo, levantam os copos em brindes, veem o tempo se esconder dos relógios para não terminar. Amanhã? Quem, em sã consciência, sabe se existirá amanhã? Na manha, o sol não força a barra para sair.
- Quer saber: foda-se o imbróglio que vier! Você tem razão. Ergamos os copos que, reis, debelam toda solidão! Carlão, vê as saideiras que hoje é hora de remissão!
No poste que ilumina a rua, uma pomba acorda e caga no chão. A vida, sonora e real, não liga para a busca de solução. Para elas, a pomba e a vida, sequer existe ilusão.

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