sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

Ao grande, inominável, João Nogueira

Por Ronaldo Faria


Ele pegou o primeiro ônibus que veio. Com hora marcada para ir e voltar. No ato, o asfalto pipocava milho transgênico e torrava ovo quebrado de sobressalto. A fumaça subia feito mato queimado. Tinha cheiro bom e fuligem ruim. Mas cadê a coragem de andar mais do que aquilo que se anda para viver? O sol, milimétrico e hermético em sua inconsequente forma de cozinhar neurônios, despeja suor pelo corpo e deixa sua trilha de passos largos e difíceis no subir e descer de ladeiras e benzedeiras.

Mas ele tinha horário e desmazelos a cumprir. Precisava passar por esquinas múltiplas e dedilhar descasos e acasos em cada pedaço de paralelepípedo refeito e rarefeito de ímpetos feito púlpito de um amor qualquer que se faz verdade no peito. Precisava correr seus segundos e fazer da virulência da vida finita a festa última de uma única eternidade letal. Era, enfim, um senhor de botequins que teimava em ficar lúcido feito Lúcifer agradecendo às ninfas ninfomaníacas o último beijo depravado que o deixou em descalabro.

Ele pegou o primeiro ônibus e teceu de vertigens e pesadelos o desmazelo de ludibriar a ociosidade da cabeça sendo desperdiçada entre horas e orgasmos solitários e asmáticos. Entra gente e saem pessoas. Sobem mulheres de pernas seminuas e descem arremedos de seres humanos e antropofágicos no limite entre um polo e o vértice de canto quantificado e qualquer. De quem deveria ser misto de finitude e fé. Do lado de fora, casarios e rios secos, árvores chamando água, nuvens esparsas e luminosidade múltipla e perpendicular. Não adianta tentar se esconder do sol. Ele busca cada ser para se perfazer de passagem injustificadamente fútil e fetal (porque nessas horas qualquer um gostaria de estar cercado de líquido amniótico na escuridão do ventre).

E cadê o vento? Cadê a cadência do samba? Cadê o bamba? Cadê a bunda? Cadê o quê?

Mas ele tinha um ponto a descer. Se arremeteu pela porta da frente defronte de uma fonte afrodisíaca qualquer. Gargalhou da própria vida, vivenciou retas e rotas rítmicas defenestradas de passos taciturnos nas brincadeiras lúcidas e voláteis, táteis e têxteis, transparentes. No fim, descobriu que nada é tudo e tudo é nada. E quantos mares a vencer de braçada só e tantos dias ainda. Ter até o próximo dia de conviver com a mudança de mais um ano...

Desceu e foi ver a fatídica verdade de mentir centímetros e sentimentos de gracejos e bocejos. E acabou. Acabou-se. Lavou-se de água salgada do próprio corpo e se banalizou na espera de um milagre qualquer. Muito ainda a falar, outro tanto mais a beber e alguns palmos a baixar. Como diria o pagode final: tudo sob a luz do candeeiro. Tudo sob os holofotes e focos de uma lente côncava e convexa. Mas, chega de conversa... O homem agora dá-se à própria sorte perversa.
 
Ele depôs (depois) sob o efeito de quatro latas e partiu para a quinta. Água no joelho e vodca de saideira. E viva o friozinho cheiroso da madrugada. Que a vida sempre seja assim: sem obrigações e sermões, medos da morte e diásporas do seu próprio mundo. Deu saudade do João Nogueira. Ele teria curtido este botequim. Sua benção, flamenguista e poeta querido.

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