quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

Qualquer dia a gente se vê

 Por Ronaldo Faria

 

Odor de sete ervas a sair de um incenso para tentar aplacar a dor. 
A sobressair o gosto de sol ou de sal.

 Elza Soares solta a voz num teatro municipal. Ao assombro do poema marsupial, que tem medo de sair da bolsa da mãe ou do pai, rola o som idílico e fatal, quiçá letal. Do lado de fora, ao aforismo do mundo, dezenas de moradores sem-teto se prestam à folia que consome a ávida vida desde o homem Neandertal. Sobreviver, rever a infância frágil e trêmula, sorver nas latas de lixo o luxo que escorre dos prédios em interregnos e pregos despregados ao cair dos quadros pintados sem cor. Talvez, quem sabe, um ou outro sábio assoviará algo parecido com o canto do sabiá. Saber-se-á aqui ou mesmo acolá... No lugar, o arfar de suspiros de prazer ao comer suspiros da boulangerie.
Com a lata d’água a derramar gotas que escorrem do metal e percorrem o asfalto frio do anoitecer geral, segue a voz de Elza Soares a soar em vendaval. Na casa de madame, outra preta veste um avental para saber-se tal e qual. No morro, envelopado e mágico entre pontos cardeais e mortais, voláteis e letais, corpos se entregam ao zinco que já não existe e insistem em viver na xepa da feira. Logo mais, canta, haverá Carnaval. No palco, a deusa em ébano e cores apresenta a plateia geral. Noutro lugar, gozo tardio, fastio escondido em olhares de neto e dias mortos por serem sempre iguais no igual. No desigual calendário que o mais sedentário amor traduz em flow, torpor.
 
II
 
Quisera a quimera fosse apenas brejeira fera que ri de tudo e do nada. Feito fada, fosse mágica e também trágica, vivesse na esquina mais próxima ou na Capadócia. Que se chamasse Kátia ou Eudóxia. O nome, sabemos, pois, de nada vale naquilo que abale vale de cinzas ou dor.
Quisera, à primazia da fera que habita cada um de nós, que a quimera prevalecesse diante da inércia acidental ou ocidental. Na subida do morro, o barulho de atabaques que entoam louvores aos santos que descem dos céus para viver o sonho de verter mil pesadelos febris.
Quisera, agora no odor da arruda, ao menos encontrar o cursor que teima em invadir a segunda tela. Na feira das emoções tardias, barracas oferecem dúzias de saudades, pencas de esperanças, quilos de esperas entre danças e contradanças que nunca voltarão a existir.
Quisera, grandiloquente e temente da poesia seguinte, que o batuque envolvente e quente daqueles que se embriagam a ver o rebolado da passista como única verdade. Mas o tempo é extemporâneo e final. Em cacos de vidro e goles de baba, bebe-se a frágil maresia corporal.

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