sábado, 26 de outubro de 2024

Na validade

 Por Ronaldo Faria


-- Mesmo a alma não sendo pequena, acho que vale a pena.
A frase de Alcebíades soou profética, hermética, digna de uma hemeroteca. Dessas que a tinta da impressora não se perdeu em vão. Em desvão, a ouvir Paulinho Pedra Azul, mandar voar, cantar, sofrer e sobreviver, se entrega às falácias que mostram que a vida corrói. A relembrar a sordidez que a vida dá quando os anos destrói, sabe apenas que os pássaros sem penas nunca poderão revoar.
-- Daqui, desta distância equânime e tântrica do bem-querer, vale-me apenas escrever. E valha-me Deus se algo mais quiser viver. Para tal ser, hoje já é muito sobreviver.
Entre os poucos dentes, ardentes de tanto querer e perder, Alcebíades vai a beber a si próprio no imbróglio de sobreviver. E transita nos pesadelos e desmazelos que cada noite traz entre temor e azia. Onde ele nunca saberá onde estar, com quem forjará fugas, rusgas, atropelos, trôpegos zelos, infaustos termos, desmazelos, singelos e frugais jograis. Mero peão num jogo de xadrez que o xeque-mate há décadas já matou o coração que sangra sem parar esperando apenas a hora de estagnar, se desmazela na inglória paz.
 
II
 
-- Mais outra?
-- Fazer o quê, Livânio? Seria leviano abrir mão do desejo de um copo vazio a pedir para descer e nos fazer encontrar.
O dedo em riste, como um chiste, chama o garçom.
-- Meu irmão, traz pra nós aquela que você estava guardando pra levar embora.
Num jardim que qualquer fantasia criaria, a ternura de um bem-te-vi voa à busca da certeza de que não há para onde voltar. O tempo expropriou emoções, forjou sensações, aquiesceu sordidez. Nele mesmo não se fez. Brincou de ser extemporâneo, caminhou em ruas escuras, lambeu corpos em turras, regozijou-se de ainda crer. Foi na incongruente e inglória glória de uma roupa a voar no varal que se esconde da tempestade que quer chegar.
-- Por que perdemos a noção de antemão da pouca lucidez que ainda nos resta? Pra que viramos festa de nós mesmos, embriagados de folguedos que sabemos no amanhã serão algo a profanar, xingar e execrar?
-- Boa pergunta, Livânio. Essa eu deixo sem resposta posta. Nem tudo nesse mundo saberemos profetizar. Vivamos o momento somente. Quem sabe será este nosso derradeiro tormento?
Na rua que vira avenida de repente a noite já se faz, sobremaneira, onde casais se misturam em beijos e toques, vilipêndios mil. Se fazem boiadeiro a levar as reses que desconhecem seu inexistente céu, viram luz de lampião no querosene a queimar. No lugar, certamente, em sangue a cair no chão de cimento branco, irão se largar. Afinal, como papagaio de papel, não conseguirão sequer voar.
-- Sabe, Livânio, seria bom se pudéssemos o tempo voltar. Enlouquecer e não prever o futuro que o presente nos trouxe. Que conseguíssemos reescrever erros, normatizar desesperos, somatizar ensejos, esperar e implorar aos deuses inexistentes que beijos sob escadas nunca deixem de lamber lábios e se fazer nunca mais.
-- Aí você está querendo demais. Menos, menos. Fique aqui na mesa, pois dependo de você pra rachar essa conta que se antevê logo mais.
Nos devaneios de Livânio, o estrupício de um ser solitário, errante, segregado de si. Mas, naquilo que o pífio vazio traz, o garçom, amigo, chefia ou irmão, diz que o bar vai fechar. Uma água corre entre os pés e a conta brota no lugar. Os amigos se despedem e, apiedados de si mesmos, seguem seus rumos no prumo de um Uber. Do alto, a lua pede tempo ao sol para não desdizer o que o poeta infante pensou escrever.

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