terça-feira, 27 de junho de 2023

Daquilo que virá

 Por Ronaldo Faria


 O poeta/aprendiz profetiza na insígnia do amor que em algum lugar existirá a continuidade da vida antes da eternidade. “Menos um órgão para falhar”, pensa o escritor enquanto preenche de letras pretas o branco da tela a piscar. Aos ouvidos, Zé Renato a trocar audição e poemas tresloucados, daqueles que surgem do nada e para nada vão. Certamente não em vão...

Afinal, haverá algo depois daqui? Só saberemos após fugirmos daqui. Se fuga há, saber-se-á. Certamente, pelo que já vi e vivi, não. Só um juntar de cinzas pai e filha, nada mais. Mas, como diria qualquer ébrio recente, haveremos de nos enganar. Na noite quase fria que chega, o aconchego trôpego da amante que nunca se dá, a paráfrase do que não se abstrai jamais.

Nas plêiades da vida (eita palavra velha), a performance de uma peça que resistirá ainda até a cortina derradeira baixar. Mais alguns atos performáticos, aplausos de casa cheia, merda no camarim, bilheteria chinfrim e sem aplausos do depois. Mas, foda-se! Cada um em seu cada qual, desigual, informal, impreciso e abismal. Apenas um na noite que enseja o amor.

Na mesa de canto, quieta e tresloucada, onde dois se fazem um e perfazem o suor que virá no depois do ser nenhum, só dois, a nuvem de cigarros acesos tem acesso ao ar fresco da quase madrugada que afaga a cena translúcida à vida. Como qualquer paixão, a insana cena flui entre um misto de tristeza, perda e tesão. Às próximas horas caberá a derradeira sofreguidão.

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