quarta-feira, 22 de maio de 2024

No baleiro do Zeca o sol derrete a vida

 Por Ronaldo Faria


O sol escaldante, que parece que nem com prece braba vai embora, e torra a mais grossa tora e queima mesmo o que há muito queimado está, decidiu que ficará junto com a carcaça do boi e o homem que sua até a última gota na derradeira trilha de terra esturricada. O sol, este brilha lá no teto de um céu cheio de raios e nuvens raras, parcas, prostradas na primeira sombra que conseguem ter. E sorri do degelo que o gelo mostra nos copos de uísque, martiriza as cinzas da queimada de um fogo mais frio que ele, volatiliza diante das almas que pedem para sair dos corpos e ir tomarem banho na cachoeira mais fria do Himalaia.
Maria anda de sombrinha na rua de paralelepípedos que fervem sem modéstia à parte e esquenta as partes que se escondem na saia bordada de flores que pedem água. Ela, na soberba de ser um ser relutante e frágil, fugidio, quer apenas que a noite chegue logo. E, quiçá, traga uma chuva, mesmo dessas que só molha e nada umedece. Para ela, a padecer feito a virgem senhora e mãe de Jesus, o reflexo nos olhos que de verdes trazem mais dor ao olhar são o fim que ninguém merece. Constrita, pede que o mar vire o sertão e o sertão vire um mar, como previu o louco conselheiro Antonio. Pede, mas não crê no milagre.
O calor é tanto que o vinho já é servido como vinagre. E as hordas de larazentos seguem o caminho a deixar seus pedaços nas pedras que brincam de ferir os pés já feridos pela incerta e precisa morte de logo mais. Trazem bandeiras coloridas, seus sinos a mostrarem a chegada antecipada para as boas almas deixarem pratos de comida, suas realidades que nunca serão devolvidas nas chagas e feridas. Nalgum lugar, entre neves brancas e nervos retesados de frio, certamente o afago da mão de uma mãe. Mas, daqui, o pé que há muito não dá um caqui conta suas últimas flores a cair. No universo, Fênix despenca, no clímax, a rir de si.

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