terça-feira, 26 de dezembro de 2023

A ouvir Nara Leão

Por Ronaldo Faria



Januário chega e, casa depois de uma noite que vazou a madrugada sem pensar.
-- Minha nega, como diria o poeta, vim do samba, renega o que foi...
-- E eu com isso?
-- Dê um tempo. Ao menos entenda o alento que nem o poeta mais bêbado dá...
-- Poeta, como dizia a música, tem que morrer. Não serve pra nada. Alguém vive de poesia? O caralho!
-- Tenha calma, tente entender...
-- Aqui no barraco você não tem lugar! Vá procurar uma mesa de bar pra deitar.
-- Que coisa mais triste: dedo em riste a mandar o teu homem para outro lugar.
-- Outro lugar é o cacete! É aonde, a partir de agora, estará.
-- Mas, como assim? E a ressaca matinal, quem vai curar?
-- Quer saber, vou falar bonito: ela foder-se-á.
Januário não tem mais como responder diante de tal figura de linguagem. “Onde ela terá aprendido tal forma que nem eu sei o que será?” Consternado, calado, alvejado pela língua pátria, calcinado de tanta certeza da mulher ainda amada, sai a descer o morro. Passa pelas biroscas e sequer sabe se vale parar. Do alto de um fio em gato, uma pomba, só de sacanagem, caga tardiamente na sua cabeça. Para a desgraça da vida não precisa nem de sogra ou vizinha... 

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