quarta-feira, 10 de abril de 2024

No samba que gira as pernas a sambar

 Por Ronaldo Faria

 

Agripino, desses que a gripe passa feito poça d’água cheia de girino, batia o tamborim na madrugada cercada de cervejas e mulheres de pele que a África, graças a Deus, deu. Filho de ogã, batizado e confirmado, ele viajava acordado nos acordos que fez, mesmo sem saber, com a vida. Entre acertos e erros, sofismas e solfejos, versos e beijos de testa e língua, à mingua, ia a seguir a estrada do samba de breque, a brecar em cada ir e chegar. Pra, no fim de tudo, com o cavalo já cansado de tanto poeta receber pra virar escritura ou poesia, terminar na voz de Vinicius de Moraes.


Pra virar o dia com Caetano

 Por Ronaldo Faria

 

-- Manda a saideira aí, Germano! O dia já vai virar! Que nossas gargantas, enquanto elas puderem beber e falar, nessa vida que morrerá logo ali ou acolá, possam se esmerar e satisfazer os poucos prazeres que ainda restam a nós, meros subservientes seres de nós mesmos.

Germano, garçom e camarada, que apresentou tempos atrás a amada, responde rápido e ávido dos dez por cento do pedido de Beraldo. As mesas já quase vazias em volta, revoltas nas emoções que surgem em turbilhões depois de muitas doses e toques, olhares e desejos, esperam igualmente a garrafa chegar. “O último gole não tem como se largar”, pensam todos aqueles que resistiram heroicamente e historicamente. Um dia os escritores do futuro irão trata-los como resistentes dignos de verbetes e, quem saberá, falsetes de alguma inteligência artificial.

A sorver mais um líquido liquefeito de poesia, saudades e santos que descem para escrever no cavalo embriagado e tragado de suas lembranças e lambanças aquilo que deixaram de falar em vida, o tempo se esvai e vai nos segundos fecundos que viram passado em si a cada escrever. A ver, o que tiver de ser. Com Caetano a tornar veloz um Veloso que brilha entre estrelas, resmas e réstias, versos e versículos, o cara detrás da tela branca se acha escritor. Na esperança nunca vinda e no imenso mar de dor. Da Bahia o padrinho prometeu visitar a sede do Olodum.

-- Germano, abre outra saideira! De número qual? Sei lá! Mas já bateu no recorde normal. Isso é bom porque garante que a gente, mesmo que de forma mentirosa, volte a crer que o tempo vira estigma que só a lembrança de cada um faz passado parecer. Eu, por exemplo, me sinto agora no Gattopardo da Lagoa a beijar a índia do Pará ou a comer feito louco o Meia Lua do Natural. Deixe, por favor, assim ser.

Germano, cordato e corado no rosto de tanto receber o sol que o português não impede de chegar por se negar a colocar um anteparo, logo traz outra garrafa. A madrugada já chegou. Os pássaros dormem dependurados nas poucas árvores que restam, os amantes se esculacham notívagos nos colchões que descobrem vaginas e colhões, as estrelas curtem o pouco tempo que a primavera com cara de verão traz. O importante é saber que algo irá se transmutar e viajar milhares de quilômetros nas luzes de fibras óticas e cruzar mares, oceanos, continentes e mentes. Metamorfose feito entorse mal tratada.

-- Germano, decidi hoje não saber quantas linhas tinha cada parágrafo ágrafo. Chega de seguir limites! Deixemos a loucura sobressair! Portanto, não esqueça de mim.

No novo dia do dia novo, como fosse um ovo a chocar ou frigir, Beraldo lembra da camaleoa que se rapta. E se adapta. E se se faz amante para uma eternidade que não há. Que pode virar a mulher a bel prazer que se entrega no prédio esférico do Centro ou dormente na rede de uma casa onde uma cabeça cadavérica de boi surge no quintal de luar. Bel, a que será que se destina? Com certeza parte de um escrito pequenino, longe da tua intacta retina.

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