segunda-feira, 6 de maio de 2024

Belchior forever

 Por Ronaldo Faria

 

A rua está escura e obscura, como um abismo que só o absinto poderá determinar o fim entre a próxima esquina e a quina do prédio que está logo ali defronte. O escuro absorto e solto neste lado da Terra que, creiam, é redonda, está rotundo e senhor de si. Ensimesmado, porém, feito o amante que se acha amado (mero boçal), Cândido Homero, como o nome diz ser bom e herói de literatura grega, é um maltrapilho idoso que se cortou e se queimou pelos dias e tempos trêmulos e efêmeros que foram seus dias travestidos de vida.
Mas, para ele, pouco ou tanto faz. Facínoras invadirão seus sonhos e pesadelos sem mazelas ou fábulas de aprendiz de sonhador que só quer um dia dormir em paz. Para Cândido Homero, o frescor de uma infância que nunca teve, a juventude partida entre a busca da sanidade e a idade que viria depois. A fuga constante da inconstância prematura, a sentença natimorta de saber que felicidade não há. A gargalhar nos frangalhos da emoção, ele caminha enquanto houver caminhar.
Nos dias de Cândido Homero, minutos nostálgicos e nevrálgicos, palavreados atávicos, metonímias que nem a rimas sabem o que são. Feito sermão de padre pedófilo, a oração que atabaques ecoam num espaço quente e enlouquecido de uma mulher de cabelos negros e longos, peitos grandes, ancas de dar bons filhos. E nunca mais. E o amor que se foi se evadiu e fugiu nos trilhos de trens que somem em ruídos ensurdecedores, fugas de amores e odores, lábios e crenças mil.

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