quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

Mistureba na fila do Spotify

 Por Ronaldo Faria


“Amanhã eu comerei salmão e macarrão. Logo. Recupero do porre de hoje”, pensou José que sabe começar, mas não tem o despertador de parar. Vai ao espelho ver uma espinha que teima em querer sair. A puberdade há muito já tinha partido. “Puta que pariu, só me faltava essa”, pensa entre querer aceitar e odiar o ardil. “Agora não tem jeito. Da música que vier na fila chegará um pensamento rarefeito.”
“Lô Borges em choro? Novos Baianos a por o sol a se por?” Coisas mil a fervilhar e germinar no santo que baixa para escrever nesse cavalo deveras quase embriagado e incapaz de dizer de onde vem tanta ebulição. Logo abaixo, no chão, algum ser, de antemão, fluiu na eternidade da idade para confirmar que a verdade não condiz com a saudade. Hoje, em sonho, alguém voltou para uma louca orgia refeita.
Na lista, logo chegarão Jorge Mautner e Zé Ramalho. Como diria o narrador, haja coração! Nas teclas diante da vista, um branco que não precisa mais de branquinho ou durex para cortar com régua e depois colar os erros cometidos no espaldar da escrita formal. “Ainda bem que os tempos mudaram.” Na playlist, Ary Barroso. “Ao menos o Brasil é uma profusão de ritmos e sons que em lugar mais nenhum há.”
Na métrica ou rima tresloucada que o álcool traz, o som absorve a crença de que a demência é coisa de receituário médico. No ilusionário porvir de letras e troças, tretas, que fique a incerta verdade de que o agora é o passado que se foi, o presente que não há e o futuro que brinca de nunca chegar. E o que logo esperar? Waldyr Azevedo, Elomar e Itamar Assumpção. Vale parar aqui ou a loucura vinda esperar?
 
Feito menino, busco ainda o meu destino...


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