terça-feira, 24 de setembro de 2024

Tosse macaleônica

Por Ronaldo Faria


A tosse sai afônica da boca. No som que permeia o lugar, Jards Macalé. No copo, a centelha dourada da cerveja que desce em gotas de suor o copo americano que descansa na mesa do bar. Nas mãos de Constâncio, parceiro de si mesmo nessa trilha que é nascer e viver, ele sobe e desce, enche e esvazia. Amanhã, talvez azia. Agora, apenas uma velha e rotineira lombalgia. Na cabeça, saudade da mulher que deve agora estar ajudando a cadela da filha parir. “Acho que não era mesmo pra ser. O tempo passou, ensejou, derreou, foi e voltou, ficou parado na linha e o trem, ao que parece, passou por cima. Agora, é tentar de novo na solidão reviver.”
Constâncio, ser inconstante na trajetória do universo, sabia, porém, que cada novo refrão se faz um novo verso. E cada letra escrita é o fim de sílabas mil a sibilarem nas cobras que fingem rastejar para viver. Na subida do morro, já contaram e até dizia o poeta antigo, bateram na mulher de alguém. Nas poucas árvores que ainda restam na viela, cotovia não canta ou gorjeia mais. E nem há tanto pau para um pica-pau picar. Pelo menos a barreira criada pelo dono do morro impede qualquer carro de subir. Foi bom porque o português tomou o pouco de rua para as mesas colocar. “Imagina a gente nem ter como sentar pra ver o resto de dia passar.”
A garganta arranha e a tosse volta. A tarde, tardia enquanto a chuva decide que não cairá, espera a imaginação constante fluir. Por certo, nalgum lugar haverá um belo porvir. Para Constâncio, o que estará por vir é a crença tresloucada de que ainda há porque viver e ser. Ao longe, um fogueteiro avisa que os alemães passaram defronte da biqueira. Mas não pararam. A contenção garantiu que hoje não era dia de visitar o IML por lado nenhum. “Pelo menos vamos ter um pouco de paz. Aqui ainda não tem briga diária de Israel e Hamas”, pensou.
O som rola no substrato que o trato de pensador deixa rolar. O samba se mistura à mágica que o multiverso macaleônico e camaleônico dá. Do alto, desce a nova sensação do morro. Se fosse na Zona Sul, novos Vinícius e Tons recriariam a garota eternizada na passada ao mar. E, pasmem, ela perguntou a Constâncio se poderia sentar. Qual o quê... Ele mal soube responder. Silêncio é aceite. “Seu José, traz uma linguiça no azeite!” E lá ficaram. Se bronzearam com o resto se sol, resenharam, cantaram, falaram, lembraram, beijaram, cansaram, cataram o rumo da casa e se amaram. Longe, num magazine em liquidação, todos viram a fila e andaram. Ao vivo, a dor tinha acabado.

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