segunda-feira, 17 de junho de 2024

A viver mesmo tosco no João Bosco

 Por Ronaldo Faria


O ônibus sextava cheio, repleto de gente que um dia foi feto. Afeto? Aí está de sacanagem. Quem tem afeto suado, cansado, roubado? Nem o mais afeito a ser Poliana conseguiria.
No ônibus, de uma linha que junta o nada a algum lugar, os passageiros não são brejeiros. São operários, travestis, empregadas, desempregados, seres em vida pregados na sua cruz.
No coletivo que trafega a galhofa diuturna de ser pobre, a urbe tenta ressonar diante dos raios de sol que pedem para descansar antes de queimar cada um sem dó ou mera piedade.
No ponto que aponta na esquina, um ex-viciado-alcoólatra-ladrão sobe para vender um tanto de miçangas-balas-canetas que não funcionam. “Eu podia estar roubando”, diz.
No banco destinado aos idosos, uma jovem ouve no celular a última música do momento. Nela, o cantor(a) manda o mundo se foder com tudo o que duas bolas têm de poder.
O vendedor da hora desce e agradece quem ajudou. “Valeu, motô!” O calor é tanto que até o encanto do canto do crente que resolveu saudar Deus é sorvido de mil palavrões mil.
O ônibus, que demora para passar e chega sempre lotado é palco de velho tarado, de avó que leva o neto à creche, das vendedoras de loja de 1,99, desesperançados da realidade.
Nele, delineado o mundo profundo que existe riste e triste, está a certeza do abismo real e a sandice daquilo que cada um crê ser o destino cravado e grafado por um tal de Jesus.
E mais um dá sinal com o braço esticado. Vai subir pro seu trabalho. “Caralho, que demora. Assim vou ser demitido.” Sobe, paga, confere o cartão debitado e fica atado ao nada.
Na condução, como no passado se dizia, as fichas há muito deixaram de estar. Cobrador, então, virou peça de museu. O dono da empresa, judeu, agradece da sua mansão longe dali.
Na viagem diária e ordinária da constelação primária de cada um, correr de bairros e ruas na busca difusa que a certeza etérea cobra a cada parada onde um corpo some no senão.


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