sexta-feira, 19 de agosto de 2022

ZY alguma coisa

 Por Ronaldo Faria

(Ao menino imberbe que viveu um Nordeste de rádio galena, na bateria, sem luz elétrica ou tevê, sob a escuridão do lampião e da noite que nada mostra mas a tudo vê)

Nas ondas do rádio arredo todo o meu carma, redescubro minhas camas, atordoo meus dramas. E tudo voa como fossem só meras filigranas.

Nelas não há pouco mais do que Luiz Gonzaga a cantarolar. Um cheiro de lenha a crepitar no fogão e o mugir do gado guardado para morrer.

Nas ondas do rádio, mesmo para quem no sertão nunca viu uma onda de mar, é possível se embarcar e nunca mais voltar. Mil portos hão.

Nelas existem barcos e velas. Avião também há. Se quiser e longe pensar, até espaçonave vai encontrar. Tem sertão seco e longínquo mar.

Nas ondas do rádio eu ondeio e permeio vozes e odes. Nessas caixas de madeira, acreditem, não existe apenas artroses. Há mel, flor e glotes.

Nelas vagueiam às marés todos mil tresloucados e insanos senhores, incansáveis jogadores perdedores, voluptuosos e incrédulos desamores.

Nas ondas do rádio tem náufrago e cavalo marinho, piratas sem tesouro, sereias sem rabo. Todos num ligar e desligar do que findo, no fundo, brinca de derrear.

Em rádios quase iguais, ouvi minhas primeiras músicas, os primeiros versos de rima, a primeira saudade latente e a certeza de que a voz sempre haverá de mais alto falar.


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