sexta-feira, 20 de maio de 2022

Albano Sales e seu ótimo Retrato Brasileiro

Por Edmilson Siqueira 

Há um bom tempo escrevi sobre esse disco na Revista Metrópole. Fui ouvi-lo ontem e ele me causou a mesma e ótima impressão. Então resolvi sugeri-lo aos parcos leitores deste Musicoólatras, mesmo sem saber se ainda dá para encontrá-lo por aí.  


Trata-se do CD "Retrato Brasileiro" do pianista Albano Sales, lançado em 2008 e que se mantém atual até hoje e vai continuar sendo ouvido por aí para sempre. 



Albano tem uma trajetória expressiva como músico. São-carlense de nascimento, mas radicado em Campinas (SP), estudou com nomes como Almeida Prado e Koellreutter, formou-se na UNICAMP, lecionou no CLAM, a escola de música do Zimbo Trio, tocou com Airto Moreira e Rosa Passos, trabalhou em Los Angeles e já lançou um segundo trabalho - "Experimental"- que um dia também será assunto desse blog.  


 "Retrato Brasileiro" começa a agradar a quem se dispõe a ouvi-lo pela capa do CD. Ao invés da tradicional foto do artista, posado ou tocando, uma aquarela de Manlio Moretto que se sobressai pela rara beleza e simplicidade com que retrata a cidade de Penedo. Albano aparece ao piano em uma pequena foto e, bem maior, numa caricatura de Egas Francisco, ao lado de Jorge Oscar.  


E quando se começa a ouvir, ao prazer visual da capa se junto o auditivo. Logo de cara, num arranjo cuidadoso, entra "Viola Violar" (Milton e Fernando Brandt), cuja melodia, feita num táxi segundo o próprio Milton, é enriquecida pelo vocalise de Leo Loebenberg. A música inicial, tocada com perfeição, é o prenúncio de que o que vem depois seguirá na mesma toada. "Rio Paraná" (Olmir Stocker), "Todo Azul do Mar" (Flavio Venturini e Ronaldo Bastos) e "Receita de Samba" (Jacob do Bandolim) nos são apresentadas com maestria, com ótimos arranjos e algum improviso que, claro, não poderia faltar a um pianista que envereda pelos caminhos do jazz tranquilamente. 


A partir da quinta música e até a última nos deparamos com o Albano compositor.  

 "Chorando na Esquina" envereda pela modinha moderna e enternece com seu lirismo; "Freeway" mistura uma abatida mais acentuada com um sopro jazzístico, dando margem a malabarismos da guitarra e da bateria como um bom conjunto de jazz faria.


A música seguinte, "Moon Shadows" já tem uma concepção diferente: é lenta, meio soturna, sabe a fim de noite com seus pensamentos e mistérios. "Tempos Melhores" segue o mesmo caminho introspectivo ao sabor da harmônica de Rodrigo Eisinger. 


As três últimas faixas do CD são os três movimentos da "Sonata para Violino, Violoncelo e Piano Jazz Trio – Allegro (Riso), Adagio (Perdas) e Allegro (Porvir)". É, acho eu, o ponto alto do CD: nele Albano aparece como um compositor maduro, enveredando pelo clássico sem perder a referência urbana, a influência da MPB e do jazz, enfim, criando uma peça que acaricia os ouvidos pela qualidade sonora e melódica. 

O CD está disponível para se ouvir em várias plataformas musicais da rede e ainda pode ser comprado nos bons sites do ramo. 

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