terça-feira, 28 de junho de 2022

Ao Francis Hime

 Por Ronaldo Faria


Muito a falar, a tentar dizer, conversar. A lembrar cenas já sem palco, plebeia ou plateia. Mas logo vem o silêncio ausente, cru, desprovido da nudez que só tempo traz e faz. A fatídica e morta saudade que não parece dizer uma sílaba sequer. Na incerteza de um parêntese que faz a interface do nada, a voz da amada que recrudesce a luz da lua que brilha teimosa ao acalanto sem pranto da flor desfolhada e formosa.

Muito a clamar no clarear que se perdeu infante no adeus primeiro da aurora. Na casa de saibro, o menino queima de febre em catapora. Na árvore que repousa quieta no alto do morro, cheiro de amora. Na igreja, gorjeio de corujas sonâmbulas a acordarem do sono sombrio. Lá fora uma raposa espera quieta a chegada das galinhas que foram ciscar e contar grãos de milho. Na venda, a voz perdida de Seu Virgílio.

Muito a fazer poemas, tenham eles ou não extintas e flutuantes tremas. Nas tramas da vida, tramoias de amantes apaixonados e surdos aos carros que teimam em passar sibilares bem abaixo do quarto do apartamento que se esconde sobre um jardim. Entre o talvez e a próxima vez, o voltar de mãos trêmulas a afagar cabelos molhados e torneados no corpo que virou copo para a sede e o coito do amor.

Pouco a descrer na descrença fatídica que se faz fátua e fábula de uma sessão de cinema nunca assistida. Na bilheteria, a vendedora, que se chama Dora, adora quando o senhor de bengala e chapéu chega para assistir pela décima quinta vez a mesma cena, que teima em terminar com The End. No projetor, entre fotogramas colados e miligramas de tinta retinta, passam vidas e destinos marcados e desatinos.

Pouco a dedilhar entre teclas que nada mais são do que asseclas de uma poesia de amor.  Dessa que recobre de panos e letras um sentimento de dor. Talvez, noutra certa vez, a alegoria se confunda com a orgia e vire somente rara alegria. Senão, entre um sim e outro não, ambos saiam a dançar pelas ruas que margeiam a cama forrada de sons e se faz altaneira na cidade. À morte plena, nasceu a frágil realidade.

Pouco, por fim, a profetizar aquilo que nunca será. Nas ondas que arrebentam frias na areia e arrebatam o olhar da musa primeira, a certeza de que sentimentos urgem e brotam feito pássaros que voam sem saber chegar. Ao final, afinal qualquer lugar é lugar de derrear, um porto sem navios, naufrágios, belas morenas no cais, bebidas jorradas em canecas e adeuses que se prostram em lágrimas tais. Muito e pouco, pouco e muito, palavras fatais.

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