segunda-feira, 17 de abril de 2023

Nos ares de Nelson Ayres

 Por Ronaldo Faria

 

A vida se esvai na urina de um banheiro de bar. No autoflagelo das noites que se madrugam enternecidas e entorpecidas, num tanto de saideira, outros tantos de saudade, mais um pouco de inverdade, maldade dos neurônios que se fazem e perfazem em simbióticas sinapses neuróticas. Sob a ótica do meio vazio e meio cheio, o recheio de piano a untar e juntar as bolhas do copo a borbulhar. No olhar da urna que guarda a vida, o vento do ventilador que ventila a dor. O quadro dependurado, azulejo azulejado e impresso, a pressa do impreciso até quando. Afinal, tudo na vida é mero desmando. Talvez um xote, um baião ou um xaxado. Achado, quiçá. Hoje nesse mundo, quisera estar na Ilha de Itamaracá. A ver Lia, esteja ela onde estará. E nos acordes de um mundo de cifras e notas denotar que existe e sempre existirá um novo lugar, um lagar, um largar. Na largura da métrica da semínima ou da coisa mínima, a semiótica que há muito a ótica esqueceu. No lavradio de uma serra que escapou da sanha da serra eletrificada, a espera da esporádica e errática poesia que surge do nada. Que faz de um aprendiz de poeta que pouco leu e sabe apenas um misto de alguma coisa um algo a se decifrar. De onde virá? Quem, na verdade, escreverá? De onde surgem palavras, métricas, rimas, rumos e falar? Como um engodo ambulante pode saber se expressar?

Mas a vida se esvai na urina de um banheiro de bar. Vaticina gotas e jatos no jorrar de lembranças, anchas e achadas sabe-se de onde lá. Liquefaz em cor de ouro o tesouro que cada um tem e traz. Transfixa o olhar inebriado da fila vencida, da porta que se abre para o universo de gotículas esparramadas no chão, histórias sem começo e fim, senão. Quem sabe um réquiem àquilo que termina, uma ode à esperança que germina, uma valsa para qualquer coisa que se acredita seja a próxima sina. Talvez novo amor, trocar de carícias e camas desfraldadas de fadas e fatos incertos e certos no limiar de do calor que só dois corpos entrelaçados sabem compor. E nova história será criada, nova lembrança será gerada, nova orgia escancarada. Para cada uma, a múltipla magia de acreditar que depois da noite vem o dia. Senão, a insensata crença de que o novo será novo de novo, como a galinha pensa a por o seu ovo. Mesmo que ele, choco, não gere a vida em colostro. Mas, de onde virão as ideias, as prosopopeias (seja lá o que elas queiram ser), as efemérides que dormem n’algum lugar e, de repente, surgem para se fazer par? Mistério etéreo e que naufraga no nosso mais íntimo e ínfimo mar, um dia, qualquer um desses que ainda teimamos percorrer e vivenciar, nos dê uma mera e simétrica resposta, nem que seja póstuma, só por dar ou, ao menos, tentar nos enganar.

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