quarta-feira, 23 de novembro de 2022

Parcimônia das divas

 Por Ronaldo Faria

Cancioneiro do cansaço. Ancho. Grave e agudo. Groove no ar. Gancho entre a montanha e o mar. Eterno ir e ficar. Lá fora, luar. Ensimesmado, trôpego, entre um e outro trago, o homem fez-se gago. Refém de um afago. A rotunda luz que desce da grua para filmar na íris o corpo da mulher seminua. A eterna saudade a gargalhar. A boca no gargalo a vazar. Entre os dois corpos, amar.

No homem, dores estranhas, odores das entranhas. Na estrofe delimitada pela chama, a sanha. No quarto, entre um respiro e outro, a manha. Uma metade de lua, um terço de sincretismo e um quinto da teia de aranha na manhã. Que sobe e desce, aquiesce e aquece. Estremece no pêndulo à veia, na meia. Pênsil como Pôncio Pilatos, entre a verdade e o rumo dos seus atos.

Nas células, meiose. Osmose de vozes. Verborragia e orgia. Leite entre café e nozes. À noite, odes. Clarividência de quem se entrega à saudade e a morte. Que passa a cada dia entre a inércia e a hipnose. Um tanto de uísque e outro de cerveja. E eu que a ame e a veja: inteira, entregue na cama como um frango na mesa.

Disputa atroz entre as pernas e a coxa. De sobremesa, a ostra. Ostracismo e cataclismo. Samba e rumba. Bunda. Pés e viés. És ou não és? Um misto de parcimônia e amônia. Certeza agônica. Realidade cômica. Joia lapidada à antiga (sem forma ortográfica). Resistência ao aprendizado do passado apreendido na certeza de um analfabeto calado. Um ser amalgamado. A ouvir de rock and roll a fado.

E assim passa o tempo, entre chuvas, calor e vento. Como advento de um ilógico lamento. Longe, um rebento. E eu aqui ao relento. Entre riso, beijo, sopro e lamento. Tudo como a falta de vento. Ao menos não estou a suar. Há brisa largada no ar. Hoje, gostaria apenas de amar. Saber que daqui há um tanto a trilhar ou outro monte a jogar. Na brincadeira que fica e repica a zoeira de continuar sem saber para onde se vai ou quando parar.

Ao som de divas negras brasileiras

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