sexta-feira, 1 de março de 2024

Ao Quarteto Maogani

 Por Ronaldo Faria



 
Espera, esperança de que a esfera sem começo e fim eternize um dia o final enfim. Na beira da praia que se espraia feito conjunção de planetas e réquiens, homem e mulher se refazem de distância e inconstância terrena e extrema, coisa de poesia e paixão que não conjumina com a sina fatal. Nos acordes do violão, a canção altaneira prevê março de um 2024 que ainda não chegou. À chegança que a dissemelhança dá, balanço de ondas e o voar de areia fina se esgueiram feito peito nu ao vento nas falésias que veem de longe os peixes que se amam num reproduzir de barbatanas e guelras. As guerras, sem sentido, deixem para os ensandecidos de loucura a navegarem em portos extintos e retintos de sangue exangue de veias e vozes. Quem sabe um deles, bêbado de paixão, não se entregue à velha mulher de vestido abaixo dos pés que pede um dobrão para satisfazer o que marés e correntes marítimas não brindaram de rum e mezcal. Piratas de si mesmos, a esmo nas rotas que sereias e cobras imensas de um mar pequeno dão, a viajarem em pilhagens que nada mais são além de dobrões de prata e prantos de esposas e viúvas absortas nas luas que se esgueiram no céu e nas ruas que se desdobram feito véu negro e nenhum. Aqui, dois não é certeza de um mais um.
Espera, permanente hiato na sapiência que um algo chegará como interregno do amor maior, traz vazios inertes feito tesouros obscuros e soturnos, inenarráveis invólucros que anseiam apenas um seio para sorver e dormir sob a fronte saciada de prazer. A ver, a vastidão que nem mesmo os mapas mais corretos, feitos por astrolábios e sábios, podem delimitar fronteiras e continentes, entes surreais que brincam de forjar em si mesmos à mesmice da descrença crente e demente. “Nunca mintas para mim”, diz o navegador na dor de quem viajou continentes e nunca se encontrou nos cais que jogava as cordas de um barco há muito adernado. Com a luz das velas que morriam para dar luz à cena, a dançarina, quase menina em corpo de mulher, ria às gargalhadas a cada golfada que o poeta em festa da loucura dava. E revirava as pernas à mostra, arrumava descaradamente o vestido que teimava em cair e mostrar seus mamilos róseos e duros. No palco, na parcimônia que a amônia dá junto com o fumo de uma folha esverdeada queimada em delírios e rios de prazer, os músicos seguiam sua labuta. Na rima inconsequente que a poesia dá, alguns chamavam de bolero da p.... No exterior que o estertor da criação deixa, casais e maltrapilhos sem amor seguiam ladeira abaixo. Da plateia alguém grita: “Falta um baixista nessa baderna!”
 
II
 
Uma ostra, já morta e taciturna em seu velório próprio, no invólucro apropriado, guardado entre a areia e os corais, não vê o vento que envolve a vulva e o toque ereto do amante, arfante por dar prazer à amada. Feito fada, a lua faz prosa com a prosopopeia que o escritor nem sabe do que se trata. Nalgum lugar, a tragédia de alguma volúpia tratante do amor, estará a rezar seus terços e deixar suas troças a descer a rua onde paralelepípedos se unem para ver pés em frevo e beijos em enlevo, desses que a primeira vista dá mas não avisa daquilo que, anos mais tarde virá. No vórtice de algo qualquer, a mulher volteia suas saias mil, seus pudores, detratores da canção em unção da ferida que nunca fecha, na espreita da incólume fresta, a festa de pernas e chamegos, abraços suados e aconchegos, o descrente que faz da incógnita o final da inglória batalha sem fim. Mas, para a ostra que no seu ostracismo plúmbeo da morte nada sabe ou antevê, apenas no sal do mar e um ou outro peixe a nadar seu começo do limiar vê, tudo já se foi. Talvez seja esse o mistério etéreo da existência: a crença de se saber dono do seu nariz...

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