sábado, 31 de maio de 2025

Dúvidas e dívidas

 Por Ronaldo Faria

 


-- Você viu que o Seu Tranca Ruas estava na seca?
-- Vi. Mas achei que isso talvez fosse bom, para ele ver o quanto dói a gente pedir e querer algo e ficar a ver navios que nunca chegarão num porto sequer.
-- Mas não é assim que o santo funciona.
-- Como assim? É tudo toma lá e dá cá? Aí não é crença. É extorsão.
-- E o que nessa vida não é assim?
-- Quer dizer que rezar e implorar de nada vale?
-- Acho, por experiência própria na imprópria existência de impropérios, que não.
-- Por isso eu acho que ser ateu é o mínimo a se fazer.
-- Pode ser. Quem saberá...
A noite escura como cama de tatame, como exemplificou o poeta, a professa metástase da tristeza que consome o corpo devagar e a vagar, se torna dona do lugar. Certamente, quase tão certo como a álgebra que a bactéria semeia na semente da mente tristonha, pessoas passeiam nas esquinas que se escondem entre as luzes de postes apagados. E acreditam no crer, creditam ao próximo dia a alforria do seu lumiar, percebem que a saudade não traz de volta a reviravolta da vida.
-- Todas as suas decisões foram acertadas?
-- Não. Mas todos os meus erros me cobram até hoje cada passo na estrada.
-- E como fazer um novo caminho?
-- Se for como um novelo, nem em desalinho há linha ou linho.
A cada novo gole que se entranha nas entranhas do corpo e vem do copo, corre um córrego vazio de águas e repleto de mágoas que margeiam a solidão que invade o asfalto em sobressalto com os pneus dos carros que fogem do seu derrear. Na ladeira que desce defronte, a fronte do casal se entrega em beijos e orgasmos mil ao mais senil desejo de se alojar num canto do peito que vive a pulsar.
-- E valeu viver?
-- Acho que sim. Não o fosse, não teríamos esse papo entre escrachos e cachos de uvas mal paridas e mortas nos galhos.
A mão esbarra no copo e o gole ainda posto se torna um escorrer no esgoto. O santo, o mesmo que ficou na secura da fissura de beber, deve ter exigido algo a mais além do copo cheio de aguardente. O dia, agora não quente, se esvai. Na irrisória lamúria da fatalidade, a realidade vive seu amor até o fim.
 
(Com Mauro Senise a tocar Gilberto Gil)

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