sábado, 13 de dezembro de 2025

Magos

 Por Ronaldo Faria



Dois magos (homem e mulher, se é que em mago há sexo definido ao infinito) descansam na noite que brilha e dir-se-ia lunar. Mas, como até mago precisa se ligar, um deles prepara um cachimbo para saudar a paz. Perto, um cervo olha de longe à espera da maresia que irá chegar.
-- E então, você acha que a felicidade vai voltar?
-- Onde e em que lugar?
-- Sei lá. Aqui e agora, na terra ao nosso redor...
-- É pra responder com verdade ou heresia?
-- Fica fria, com aquilo que quiser...
-- Acho que sim, onde se une emoções em metamorfose ambulante, como já disse um poeta que inspiramos um dia, a felicidade vai chegar.
-- Poxa, então valeu ficarmos aqui pirando na batatinha...
-- Que piração, Astromeus? Apenas vivemos a loucura real, na maluquês.
-- Tem razão, somos só malucos-beleza. E podemos nessa vida crer que nada é melhor para se viver.
Pregados na parede, Astromeus e Luanova, com olhos e mentes presentes no derredor, a amenizarem o que possa se tornar dor, se entreolham no mundo de fora. Neste, vidas que mudaram de lugar e se entregaram e se jogaram à loucura de viver seu próprio mundo, dão abraços, beijos, matam saudades e voltam ao passado vivo que, tão grato de relembrar, nunca acabou.
-- Viu que riso gostoso saiu daquela boca?
-- Vi, claro. Estou ligada, mas acende logo esse cachimbo.
-- Calma, a coisa pra ser boa tem que ser vivida devagar. Ainda mais nesse tempo que não quer parar. Não é assim. Pra sentir é preciso antes apertar.
-- Astromeus, quer me ensinar a ser maga?
-- Não, claro que não. Só estou na busca da perfeição.
-- Tudo bem, mas nem sempre a pressa é inimiga da perfeição...
Astromeus conclui seu trabalho, acende a certeza da felicidade etérea e imagina abestalhado o que o mundo todo poderia ser se ficasse restrito àquele espaço.
-- Por que não podemos sair daqui?
-- E pra quê? Estamos pendurados na parede, feito rede de nordestino. Daqui vemos a todos e a tudo. E de certa forma vivemos a performance de quem enxergamos. E é tanta gente a brindar a vida que vivemos igual. Por isso resistimos ao tempo do mundo em desalento. Ali logo do lado, sentados à mesa ou andarem e sorrirem no gramado, seres humanos se humanizam de novo. Redescobrem saudades, preenchem lacunas da vida, ouvem histórias que pareciam perdidas no vento. Ou seja, eternizam mais uma vez aquilo que viveram e está pra sempre preso em corações e mentes.
-- Tem razão, Luanova. Manda ver...
Magos, ele e ela, astrólogos do princípio ao fim, pedem juntos um “toca Raul”.
-- Mas que merda, a gente grita e o cara do violão não ouve...
-- Calma, logo um deles vai ouvir e pedir. Nem que seja porque o Diabo é o pai do rock.
-- Beleza, então vamos curtir...
Logo atrás dos dois o ser vivo da imagem viaja na maionese e nas quimeras que envolvem a cena. E se vê no todo, mero animal. Quiçá, maluco total na loucura geral. Apenas beleza. Defronte ao pano mágico, todos conseguem enfim sorrir, do coração ao porvir. E a mágica está feita. A vida valeu. Sempre valerá. Ainda mais no baseado de Luanova e Astromeus.

                                                                                                                                              (A ouvir Raul)

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