Por Ronaldo Faria
Nos olhos que se interrompem e
irrompem no final da tarde, um restante de pássaros ainda tenta voar. Daqui a
pouco a briga será por um lugar nos galhos sem folhas e flores do final de
inverno. Do asfalto, abaixo das árvores, sentado num banco de praça, o senhor decrépito
e modesto ainda segura o saco de milho moído que alimentou andorinhas arengueiras
e pintassilgos fortuitos e famintos. Para sua sorte, nenhum nunca lhe cagou a
cabeça. “Os passarinhos reconhecem quem os ama”, repete a todos transeuntes que
passam ligeiro para pegar o metrô.
-- E ela, como está?
-- Sei lá. Se eu não me faço
presente, viro um ausente vítreo. Sumo no sumo do limão da caipirinha...
Cântaros de saudades nos
cânticos antigos rolam ladeira abaixo nas lágrimas a correrem dos olhos. Na
rua, escura e brilhante sob a lua, mãos se entrelaçam entre largos abraços. Nos
olhares, tardios e velozes, sombras de pernas. Ao redor, luzes em matizes mil.
No ar, cheiro de jasmim. No capim molhado da chuva que brotou das nuvens a
cobrirem o vento de pingos pequenos, formigas cortam folhas para comerem mais
tarde. O tempo se esvazia em pocilgas escondidas no destino. Nele, há corações
partidos e um adeus cretino.
-- Quer dizer que é assim: via
de mão única?
-- Acho que sempre foi. Eu é
que não enxergava além de nós...
Aos poucos, espocam estrelas
brancas e sânscritas. A cidade em grande parte já dorme insone. Mas um ou outro
louco ainda percorre o lugar. Moradores de rua se acotovelam e se roçam em
poucos e rotos cobertores para escapar do frio. Brisa serpenteia esquinas e
brechas de concreto para fazer o mundo parar. Casais cantarolam o último refrão
já embriagados e chapados. Quem não for dormir e amar na mesma cama irá descerrar
os panos da trama envolta no drama da solidão. Sem pernas cruzadas, lábios colados,
suores trocados. Em soluços, alguns buscarão soluções em diásporas e fugas finais.
Outros traçarão monocórdicas poesias bêbadas de unções do tempo errado no
errôneo tempo.
-- E o que fazer, diante de
tudo dito e redito, escrito e crível?
-- Nada a fazer. Agora é
apenas e somente esperar. Mesmo que tal espera seja um fel agridoce.
(A ouvir PC Silva)