domingo, 26 de outubro de 2025

Duke Ellington & John Coltrane: lirismo, sofisticação e puro jazz *

Por Edmilson Siqueira


Lançado em 1963 pelo selo Impulse!, o disco Duke Ellington & John Coltrane é um desses encontros que fascinam pela qualidade não só dos músicos envolvidos, mas pela maneira como dois mundos distintos do jazz se encontram e se harmonizam num diálogo inventivo e generoso.  
Colocar esses dois gigantes num estúdio não deve ter sido tarefa difícil. Ambos, em 1963, já eram ícones do jazz. Duque, símbolo da elegância orquestral e da tradição jazzística. Coltrane, o explorador inquieto e já referência da força transformadora do jazz. O resultado só podia ser uma obra que, mesmo mais de seis décadas depois, continua atual para os amantes do gênero.   
O lançamento se deu em 1963, mas o disco foi gravado um ano antes, em Nova York. E, claro, para fazer a "cozinha" desses dois gênios, foi escalado um time mais que de respeito: o contrabaixista Jimmy Garrison e o baterista Elvin Jones, do quarteto de Coltrane, e o contrabaixista  Aaron Bell e o baterista Sam Woodyard, da orquestra de Ellington. Sim, são dois baixistas e dois bateristas e eles se alternam nas faixas o que indica uma proposta do álbum: um verdadeiro encontro de linguagens. Ellington, com sua escola de swing refinado, de toques firmes ao piano e sensibilidade para compor.  Coltrane, com sua sonoridade densa, espiritual e ascendente. 
A faixa de abertura, "In a Sentimental Mood" (I. Mills, D. Ellington e M. Kurtz), é uma das mais famosas da carreira de ambos. Sua introdução é figurinha carimbada em centenas de programas de jazz pelo mundo. A canção, composta em 1935, ganha nova vida com o sax tenor de Coltrane. O piano dialoga com delicadeza, sustentando acordes que parecem respirar junto com o sopro de Coltrane. E, curioso, Ellington, que poderia soar meio antiquado frente à vanguarda do saxofonista, mostra-se absolutamente moderno.  


A segunda faixa, "Take the Coltrane" (Duke Ellington) foi composta especialmente para o disco. Nela, o piano é quem tem um papel mais ousado, deixando ao sax um movimento rítmico vibrante. A faixa é um dos momentos mais swingados do álbum, com Elvin Jones impulsionando o grupo em uma pulsação firme e orgânica. Coltrane responde com frases rápidas e cheias de energia, produzindo um diálogo como se os dois fossem velhos conhecidos. Coisas de gênios da música, claro.  
"Big Nick" (John Coltrane), a terceira faixa, diminui o frenesi da anterior com uma leveza surpreendente. Soa até meio infantil, pois trata-se de um tema simples que Ellington acolhe com humor e elegância. Aqui, o universo de ambos se entrelaça proporcionando um equilíbrio entre complexidade e simplicidade e provando o acerto do encontro. 
A quarta faixa, Steve (Duke Ellington) traz o maestro impondo seu piano suave e decidido, com notas econômicas, mas criando um universo em que Coltrane penetra com tranquilidade, aumentando o sentimento de plenitude que o conjunto sonoro nos oferece.  
"My Little Brown Book" (Billy Strayhorn) é uma balada de beleza serena, em que Coltrane exibe seu fraseado mais introspectivo, repleto de nuances. O piano de Ellington, com acordes espaçados, cria uma atmosfera de melancolia refinada. É um diálogo entre dois poetas do jazz, trazendo emoção em seus movimentos sonoros.  
Em "Angelica" (Dduke Ellington) retoma-se a veia rítmica característica do autor. O tema, originalmente intitulado "Purple Gazelle", exibe uma vitalidade dançante, conduzida por Aaron Bell no baixo e Sam Woodyard na bateria. Coltrane, por sua vez, não rompe com a estrutura, mas lhe dá uma espécie de luz.  
A última faixa do disco é "The Feeling of Jazz" (Duke Ellington, Boby Troup e George Simon) nos traz a alegria de tocar, o prazer da improvisação e o respeito mútuo, ou seja, tudo que o jazz exprime entre os músicos e que o deixa tão agradável aos ouvidos. É também a perfeita sincronia entre gerações que a música em geral e o jazz em particular costumam proporcionar.  
Como eu disse, sessenta e dois anos depois, o disco Duke Ellington & John Coltrane permanece um dos encontros mais nobres da história da música. Um diálogo entre o velho e o novo unidos pela qualidade e respeito à música.  
O disco pode ser encontrado nos bons sites do ramo (no Mercado Livre há vários com preços bem variados) e pode ser ouvido na íntegra no YouTube em https://www.youtube.com/watch?v=sCQfTNOC5aE&list=PLTIb4fKCEAeuaUYxKkDz7K7OvElI2s_Se . 

*A pesquisa para este artigo foi auxiliada pela IA do ChatGPT.

Um coletânea feita há 54 anos

  Por Edmilson Siqueira Em 1972, ou seja, há 54 anos, Sergio Mendes já tinha sucessos suficientes para produzir uma coletânea. Ela foi lança...