segunda-feira, 25 de agosto de 2025

Seiscentos mil réis

 Por Ronaldo Faria


 
-- Zé Ruela, e aí? Tudo nos trinques?
-- Agora está, Valêncio. Hoje fui recebido com tapete vermelho no banco. Senta aí e vamos encher a cara!
-- Foi lá pra lavar o salão?
-- Que nada. Fui depositar seiscentos mil contos de réis que ganhei na milhar do leão.
-- Como assim? Ganhou na banca do Pirizonha?
-- Ganhei. Lembra que eu sonhei com a jararaca da minha sogra? Como leoa não tem, fui no macho em questão. Deu na cabeça a milhar!
-- E o banco?
-- Pois é. Lembra que o vigilante não deixava nem eu amarrar o sapato defronte?
-- Lembro. Ele logo te mandava circular...
-- Pois então. Cheguei na porta e ele veio logo querer bronquear, mas aí eu abri a sacola de feira e mandei ele se quisesse até contar. Precisava ver os olhos dele arregalados e esbugalhados. Não só abriu a porta como chamou o estafeta pra me servir um café passado na hora.
-- Porra, Zé Ruela, tratamento vip.
-- Daí veio um tal de consultor de investimentos e um gerente de beca passada com louvor e dependurada em cabide há tempos.
-- Caralho, tudo nos conformes desejados?
-- Mais do que isso. Mandaram comprar empada de camarão e até uma cervejinha gelada, enquanto contavam nota por nota dos seiscentos mil réis. E foi um tal de senhor pra lá, senhor pra cá, deseja algo mais. Eu fiquei até acabrunhado. E olha que eu sou malaco criado.
-- E aí, aplicou toda essa grana em quê?
-- Sei lá. O tal do consultor propôs até uma viagem à Nova Iorque pra eu conhecer a tal de bolsa dos gringos. Mas como eu mal sei falar português, disse que não. Melhor ficar aqui pela Lapa. E bolsa é coisa de mulher...
-- Fez bem. Confiar em gringo é coisa de otário. Mas, afinal, deu tudo no quê?
-- Deu que eu virei cliente de um pintor maluco da Holanda que cortou a própria orelha.
-- Cacete, cortou seco com navalha?
-- Sei lá. Pintura de tela é coisa que só vale se for daquelas gostosas peladas. Museu pra mim é coisa de passado. E eu quero é borboletar enquanto durar.
-- Mas e aí, então virou marajá?
-- Claro que não, mas agora virei cliente nota dez. O vigilante inclusive me convidou para ir jantar na casa dele, com direito a uma branquinha de alambique. Quer dizer, o dinheiro com certeza pode não trazer felicidade, mas faz algumas pessoas passarem a ver você e te darem atenção.
-- É mesmo, como arrastar o cu na brita!
-- Mas deixa pra lá. Seu José, desce mais umas duas Brahmas que hoje o milionário da milhar está com tudo pra pagar! E uma porção da boa antes de passar a garoa. Mal sei assinar, mas me deram um tal de talão de cheques  que não precisa sequer de checagem! E depois nós é que somos a tal de malandragem...
Sorrindo, o gajo do Alentejo e dono da birosca levou logo um engradado com direito a filé de gato temperado e bem passado no alho.
 
(Ao som de Moreira da Silva, ou Kid Morengueira)

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