sexta-feira, 10 de outubro de 2025

No corte da epistemologia da noite noir

 Por Ronaldo Faria


Sobremaneira, a noite traz consigo cheiros e esmeros mil. Versos também traz e apraz. E brinca de correr nos neurônios que se tornam antônimos de si mesmos, a esmo. Muitos deles irão morrer para nunca mais voltar. Mas, alcoolizados, poetas e filhos de um santo qualquer, serão felizes por fim como finda sua missão na Terra. E brindarão ser aprendizes. Na verdade, alguns deles, sobreviventes nas poucas sinapses, irão rir das tantas mulheres que já amou. Outros irão penar nas penas que nunca tiveram para voar e terá também até aqueles que, na encolha, escolherão somente dormir. No porvir, daquilo que ainda há por vir, a antecipação do próximo verão.
-- E aí, Antenor, como vai a dor?
-- Igual, como sempre. Na verdade, estou ausente.
-- Como assim?
-- Todo o dia acordo como estivesse de ressaca, mesmo sem beber.
-- Que foda. E isso não te incomoda?
-- Já mais não. A repetição um dia se torna rotina regada à morfina.
Os dois amigos, transeuntes de alegrias e choros, fortuitos ausentes da imensidão de um mar revolto ou de paz, apenas bebem e enxergam nas pernas das mulheres que passam a sonora poesia de mais um dia qualquer. Sonham com seus dentes inteiros, línguas invasivas e fortuitas, furtivas. Pedem que a morte lhes seja boa ao menos no fim. Sem dor demais, sem choros  e lembranças desprovidos de emoção, sem novos amigos tardios e amantes efêmeras, fêmeas de um tempo jamais. Para eles, partícipes de um tempo obscuro e escuro, tragédias de cantos e sambas que nenhum enredo soube escrever, o momento é de lamento e sorrir. Na loucura resoluta que a luta de todo o dia traz, são apenas dois pingos nos is.
-- E a vida?
-- Está aí, por um triz.
-- E isso te faz infeliz?
-- Não. Estou igual a uma meretriz a buscar seu amor. Ou um homem famélico dessa mesma mulher que se dá sem querer se entregar.
Na esquina da cidade onde a sina assimila a alegria e o sofrer, muitos passam na faixa pintada no asfalto rumo a um lugar envolto em fábulas e solidão. Sinais ao carioca e semáforos para os paulistas se pintam de cores e pedem para os carros pararem para dar passagem àqueles que caminham sem afinco para o fim. Um ou outro apartamento pisca num ligar e desligar de luzes que acendem e apagam para o cheiro da noite. Como açoite, no sertão distante um homem guarda a foice que esfolou a terra para que a roça nasça. Dela virá a fava que trará nos pratos nunca fartos a sofreguidão da esperança ancha.
-- E aí, vai mais uma ou para por aqui?
-- Acho que já deu. Vamos parar. Talvez a nossa amizade tenha, igual a tudo no mundo, um prazo de validade. Coisa de idade, leviandade, tramas que tenham se escrito sem respostas do além. Mas valeu enquanto existiu.
A madrugada, tardia e milimétrica, nunca tétrica, diz que a hora é chegada. Tragada, vadia e vazia em si, sabe que a vida é um intermeio de medos e perdas sem fim. Mãe de todos e tantos lamentos, senhora das feridas e unguentos, logo irá receitar goles e letras para tudo amenizar. Escondido nas cortinas do teatro do tempo incólume e real, o sol ainda sem sequer escovar os dentes reverencia mais uma apresentação da vida. Na plateia, meia dúzia de gente, feito alcateia, aplaude o alaúde que toca feito música ser.
 
(Ainda com Paulinho Pedra Azul)

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