quarta-feira, 16 de julho de 2025

Pra esquentar

Por Ronaldo Faria


 
-- Pelo amor de Deus, canela de pedreiro não!
O pedido de Gusmão fora tão sofrido e verdadeiro que Cícero, garçom do lugar, atendeu o desejo.
-- Tudo bem. Peguei uma que tinha acabado de colocar no freezer. Tá quase na temperatura ambiente.
-- Obrigado, meu irmão! De coração!
Gusmão, parceiro de copo de Felismino, que tinha faltado na retreta por estar gripado, pega a garrafa, enche o copo e derruba tudo de uma talagada só. Feliz por tudo na vida ter feito por amor, quer agora apenas um momento de torpor sem dor. Pede um podrão onde tudo é pouco pra tanta fome, come em dentadas plenas e se propõe: “Amanhã vou caminhar, com ou sem calor.”
-- Cícero, meu velho, fecha a conta aqui!
-- É pra já, patrão!
Gusmão se levanta, aperta a mão do comparsa de bebedeira, mesmo cada um do seu lado do balcão, e sai a sorrir na madrugada escalafobética. No alfabeto que lhe repassa no cérebro que ainda está e há, brinca de chutar uma lata perdida no asfalto. Do alto do prédio, um ser enfronhado no seu próprio tédio diz que não é hora de cantar. Ele não liga. Na verdade, religa o celular e chama o número de Felismino só pra dizer que a gripe é uma merda e os goles perdidos nunca mais voltarão. Lembrou ao amigo que seria bom tomar um Voltaren. “Ao menos a dor tem que parar”. Espera o sinal abrir para os raros pedestres e, pé antes e depois do primeiro pé, caminha até sua casa, aonde com a solidão irá se agasalhar e acasalar. Mas, ao menos, trêmulo de quase hipotermia, sabe que conseguirá dormir. No frigir dos ovos, haverá mansidão. Na devassidão que a solidão dá, sabe que meio metro de concreto vale mais do que quilômetros de um dia que não mexe sequer o catavento.
 
(No final com o Chico Buarque)

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