sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Papeando no papo

Por Ronaldo Faria

-- O copo está esvaziando cedo demais...
-- É essa secura do tempo. Não tem jeito.
-- Mas, a despeito disso, vale ao menos estar aqui.
-- Com certeza. Eu disse que, passado o drama, iríamos fazer a festa.
Eles eram um casal de mais de 40 anos de encontro casual, desses que surge de repente feito rompante ligeiro debaixo de qualquer escada. Juntos e separados num quadrilátero que imita ser uma esquina da Visconde de Pirajá, sorvem a vida estapafúrdia e etérea que se esparrama numa rama de papéis amarelados pelo tempo. E sorriem da vida, das tramas implícitas, das diuturnas leviandades a que se entregaram e com as quais dragaram horas e torras de cafés. Aos seus pés o destino desatinou de correr das ampulhetas que pensaram ter e se fez num tanto faz. No universo de qualquer verso, um brincar de se dar.
-- Por favor, mais dois.
-- E de bom, o que aconteceu?
-- Sei lá. Talvez saber que o tempo corre rápido mas deixa rejuntar.
Ao derredor, sem dor, um mundaréu de gente passa e perpassa a cena. Num galho a pomba se prepara para dormir. As crianças, porém, ainda brincam no jardim. Carros estacionam suas luzes e freiam nos meios de um fio pífio que há entre a calçada e a vida. No céu há uma lua rotunda e redonda que se espalha para o mundo abaixo espelhar de prata e luar. O primeiro bêbado deixa o lugar. Logo outro chegará. Na androginia que é a noite que se avizinha, corações acordam no acorde de apenas querer ser feliz. E almas despertam perto do cão que urina no poste, presto a buscar um pedaço de laje para dormir.
-- Tive saudade, sabe.
-- Muita?
-- Não. Imensa. Sem palavra na antropofagia.
Aos poucos, roucos, os loucos da madrugada vão se juntando num rumo débil e infértil que a madrugada antecipa no destino que dissipa o que tiver que se explicar. Na mesa, frente a frente nos corpos que se misturam e riem feito loucos aos trôpegos das outras vidas que cercam o limite limítrofe, um beijo rompe os dentes e une línguas e olhares. Alhures, um semideus desnudo que foi acordado pela emoção que se derrama dos dois senta no sofá do além para abençoar a junção que unge o casal e surge a volatizar. Olhos vermelhos e insones de quem cuida do futuro das paixões, aceita o drama de acalentar aqueles que ainda acreditam que um gemido vale mais do que a gorjeta que escorre na sarjeta do limiar. No cruzamento mais próximo, na esquina que se faz, um carro freia para a senhora cega passar.

(Ao som de Pedro Salomão)

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