terça-feira, 23 de janeiro de 2024

A ouvir Tiê

Por Ronaldo Faria


A vida passa rápido pra caralho. Uma dicotomia sem início preciso, meio efetivo, fim determinado. Uma ou outra visão. Quiçá, algum momento, efêmero. Nalgum momento. Juras de amor, beijos lânguidos e um eterno e terno adeus, num pouco depois que nunca chega. Tudo como um fotograma em filigrana qualquer. Na finitude de tudo, um homem e uma mulher. Um desespero feito enterro promíscuo e solícito, desses que um adeus já basta. Num quase muito e tanto nada. Quasímodo, o personagem sem papel permeia o tempo que está e que ainda resta, em réstia. O fim, uma promessa nunca cumprida, uma comprida trajetória que finda em lugar nenhum. No fundo do mar, uma concha ouve o barulho do vento que nunca terá. Na areia, a morrer de rir com o fim do seu tererê.


sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

Cada um com seus poemas

 Por Ronaldo Faria

 

Como disse o poeta, cada um com seus poemas. Estejam eles com enfisemas ou não. Afinal, como qualquer anormal, que tenha na vida apenas um quintal para um improvável sarau, não existe muito que dizer. Todo homem, como animal, sobrevive de álcool, químicas ou algum floral. No subterfúgio fugidio do senão, todo o centeio colhido um dia vira pão. E virá. Na imaginação tresloucada da falta de razão, a ação que a parcimônia vira coisa homônima para tentar ser. Num correr de bar em bar numa tarde que salva a quase surda de deixar de ouvir, um renovar de surgir que em lugar nenhum chegará. A moça, de todos os santos e alegrias, não está afeita às alergias que a realidade dá. Nas culpas que a vida atroz dá, existirá depois da morte um lugar?

II
 
Comer? Pra quê? O prato defronte é obrigação ou lazer? Mais algum algo para lavar. No alvo da alva aureola, a desfaçatez de quem a tez nem ruboriza. Na incerteza reta sequenciada de curvas mil, a crença do abismo sufragado em urnas do tempo. Na sétima escritura, a ruptura com a realidade. A verdade virá mentira. A tira estreita entre o tempo do passado e o assado feito com as perdas do amor fica fincada como prego na areia perto do mar. Primeiro descem os espíritos poetas fodões. Criam, dão espaço aos meias-bocas. Esses, dispersos, logo escrevem e deixam os que são pouco nada ou nunca ser descer. Aí vira um imbróglio total. Como produzir algo geral? Sozinho, o aprendiz de poeta e cavalo fica a ver navios, longe do mais perto mar.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

O nome, ao som de vários,,,

 Por Ronaldo Faria

 

Dambrowisky. Aonde seus pais arranjaram esse nome? Pro inferno, quem, em sã consciência, dá esse nome a um filho? E que escrivão, filho do caralho mole, deixou registrar? Ele não sabia como responder a si mesmo. “Depois reclamam que eu bebo que nem louco. Vai ter esse nome que ninguém sabe sequer soletrar, nem meu. Pimenta no cu dos outros é tempero”.
Pobre Dambrowisky, com nome de estrangeiro num mundo destrambelhado. Desde os poucos anos na escola as professoras o chamavam de Dam. Os amiguinhos nunca souberam da sua verdadeira versão. “Graças a Deus, senão...” – pensava. Ser com arritmia de nascença, mental e cardíaca, sobrevivia. Como um ET. E pra si dizia: “Foda-se o resto. Viverei até prescrever”.
Ninguém sabia que ele via, ouvia, vivia, sobrevivia, queria só orgia. Na verdade, ninguém ouvia seus pesadelos noturnos, seus turnos dobrados na fábrica de arame farpado, seus duplos saltos carpados a cada dia que vencia com medalha de ouro nunca vista. Do outro lado da linha, no orelhão há muito desabilitado, a mulher em questão só queria ouvir que era um tesão. Dambrowisky, que era um mero sobrevivente vivente, um erro da evolução humana, já não sabia sequer se queria responder.
Camelô de produtos do Paraguai, sonhava em comercializar o pó da Colômbia. “Todo mundo merece uma vida melhor”. Diante da Estação Leopoldina, abandonada à mercê, submergia nas promessas do amigo Charlie Brown. Queria mostrar o Rio de Janeiro a quem quisesse, e pagasse para isso, claro. De preferência em moeda estrangeira. Mas Dambrowisky sabia que a periferia (subúrbio no Rio) nunca chega à Zona Sul. Na quimera que ouvira algum dia, seguia seu trajeto de melancolia. Num canto de bar, um poeta clandestino chorava em desatino. “De que adianta fazer poesia marginal se ela não passa nem no sinal?” Do outro lado das redes sociais, quem via cagava e andava no destino...
 
Rápido e presto: Dambrowisky morreu sozinho. Num daqueles dias em que o dia se esmaeceu de nuvens sombrias e o sonho de um paladino. Na lápide sobre um chão calcinado de calor, não souberam escrever seu nome. Virou “algo com nome de uísque”. Aliás, a foto é minha, no Rio de Janeiro.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

No som do samba

 Por Ronaldo Faria


O lamento do violão se sobressai com o pandeiro que emoldura a formosura que só sambista faz. Na roda que traz o som, o ouvido agradece e sublima o que só vem para bater na palma da mão o próximo dia de remissão. Mas a alegria sorvida a cerveja, persevera que a ilusão terá seu lugar na próxima procissão. Com exatidão, nem o melhor pagodeiro poderia trazer tal cenário. Na árvore, canta o ultimo canário que conseguiu a liberdade do cenário anterior de prisão. “Maria, a criança abriu a gaiola! Puta que me pariu!”. Na chamada, um orixá agracia o voo do ser alado ao além.
O sentimento do que o cataclismo logo chegará, inerente ao ausente de esperança, mesmo que Maria, diante da janela sem tramela e aberta ao mundo faça as tranças, vira troça nos dedos daquele que toca o cavaquinho. De cavanhaque, aquele que trata a cuíca com o carinho de um seio envolto nas mãos, faz o fundo musical que transborda no som do bordel. Nas notas que se denotam como um louvor, um raio de sol brinca de querer brotar. No lugar, esquecido do mundo e aquecido de dor, o recomeço de um começo que nunca sequer se foi. E agora, vale a pena a trilha seguir?
Ele se levanta da mesa, paga a conta de alguns litros sorvidos e segue ainda a ouvir o batuque que invadia o silêncio que qualquer tiroteio, logo mais, poderá calar. No céu, estrelas que brilham aqui como acolá são o quadro que se expõe. Nalgum lugar, na estratosfera que a maré da vida dá, as ondas arrebentam em desespero na busca de uma areia para amar. Na próxima espera, o desespero inexequível do novo amanhã. Na roda de samba, o partideiro diz que não deixará o samba morrer. Do alto, Deus aplaude e pede bis. No prostíbulo, um novo cliente ama a bela e virgem meretriz.


sábado, 13 de janeiro de 2024

Caetano e Jorge Mautner

 Por Ronaldo Faria



Na rua da periferia que corta entre vielas e casas de madeira quase podre o pouco de dignidade que resta, estão Zumbi e Isabel, um a comer o outro entre os olhos que se entreolham na finitude da eternidade que tem um canapé em mesa de esfomeados. E se devoram como se houvesse além. Favelados, quase casados do tanto que veem os corpos entrelaçados nesses trópicos, ambos, ambíguos e solapados de desejos, vão a tocar a pele do outro que, outrora, foi um esfomeado de pungentes gozos e gemidos na madrugada que agora foi tragada pelo tempo que não deixa pau sobre pau, ou pelo sob pelo. Mas, lá estão eles: vestes desnudas e canções de sobrevida a voarem no pequeno barraco que o ato faz. Transfixados por um poema simplório, vão a correr o lugar ilusório. Casório? Nunca! O mundo não lhes foi um leito provisório. Transitório, talvez. E assim, no casuísmo que a vida às vezes dá só pra sacanear os desamparados e parados na esquina à espera de um amor eterno, vão Zumbi e Isabel a divergir da inebriante brisa que rola da boca na beira do asfalto, naqueles que não esperam a fissura para queimar a alegria antes da larica. Apenas são. Um casal na sombria noite que se avizinha. Do lado, a vizinha da cena prefere ouvir os tambores que chegam do centro onde rola uma gira pra exu. Os gritos de prazer são demais para quem há muito não sabe o que é o lazer nos países baixos. Na cidade cheia de morros e atores tortos com réstias de tortuosas histórias, o casal perdido no alto de uma íngreme certeza vai vivendo em harmonia. No rádio, o político, em horário eleitoral, grita que acabará com a agonia. No seu partido se prepara a orgia para poucos, ou como diriam os poetas, “mata um, mata dois, não vai sobrar nenhum”. O gozo que chega serve para amenizar o que ainda faz rir naquilo que dói.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Os Mutantes em instantes, maestro

 Por Ronaldo Faria


Ultrapassagens e viagens, paisagens e métricas metragens. Coisas de sacanagem, homenagem de um ébrio que tenta viver entre uma e outra lucidez. Na avidez de ser, Clemêncio vivia, como o nome dizia, em clemência permanente contra a demência da ausência. Ao longe, na longínqua terra de Nunca Mais, a sagaz imperatriz Vitorina gritava, da latrina, com a serva que tinha esquecido o papel higiênico folha quadrupla e cheiro de rosas do campo. “Enforquem essa cretina! É uma ordem”.
Comiseradas e famigeradas rimas criadas só pra servirem de cova rasa, na brisa que não tem nem uma réstia de vento ou sopro de alquimia, são o palco da festa sem aplauso. Clemêncio, casto e castrado desde há muito (tentou flertar com a mulher de Gengis Khan), apenas sabia nada saber, enganador profissional. Já Vitorina, ninfomaníaca, governava como abelha rainha que mata o zangão como fosse essa a única sina. “Sem morfina nele. Cortem-lhe aquilo que não traz prazer para sua rainha!”
No som de um jardim elétrico, eletrocutado à força, Clemêncio segue “it’s very nice pra xuxu”. Só ainda não sabe se, ao perder a bússola da própria existência, esqueceu a lucidez ou se achou a demência. “Seu João, serve mais umas mil dessa, seja lá o que essa for.” Já no quarto cercado por mil guardas armados até os dentes, mesmo sendo a maioria banguela (no reiuno não havia plano de saúde), Vitorina pedia uma rima pra si. “Guilhotina no poeta, já que essa é a sina de quem se acha profeta!”
 
 No fim de tudo, arguto e sabendo que quem tem, tem medo, o escritor faz lobotomia em Clemêncio, dando-lhe nova alegria, e incentiva um golpe de Estado (feito pelos pobres e oprimidos) contra Vitorina. Estava forjada a sina. Vida longa aos loucos e mutantes!


terça-feira, 9 de janeiro de 2024

No Reino do Quebra-Mar

 Por Ronaldo Faria

 

Pisadas frias e rápidas no corredor que está repleto de pó e penduricalhos mil. Afrânio, conhecido como “O Sofredor I”, rei da terra inexistente de um dia por vir, caminhava em ávidas saudades e falácias fálicas e frágeis. Era o soberano tirano e o aldeão que vagava pela estrada na busca de um lugar para cair e ficar. O som dos seus passos era como percalços de uma história sem canção. No anoitecer que o céu deixava tecer, um tecido de nuvens escondia o desmazelo. Sem zelo, na inexatidão do tempo vivido, ia Afrânio afanar segundos para poder viver. E ver, sobreviver, rever, num reverso que só o verso maldito dá e sente. Com sangue e cheio de trovas e trotes a sim apenas.
Em trôpegas e infindas vazias letargias, ia o homem fatigado pelo tempo na busca de um lugar além do quebra-mar. Sem portos de onde sair ou voltar, navega entre sereias, monstros mil e loucuras de um ser senil. Entre um barco e outro perdido, com náufragos a nadarem sem rumo ou prumo, ia o almirante Afrânio. Conhecido como o “Grumete da Vida”, navegava de oceano em oceano a passar por tormentas e maremotos, corpos mortos e jogados ao mar que desemboca em nenhum lugar. No caminho dos afluentes que só os doentes de paixão sabem onde ficar, o homem balançava de embriaguez e, sem sensatez, beijava a tez que, em perfídia, aparecia no espelho da vitrine apagada.
Nas vertiginosas hostes que saber-se-á de onde surgem, corre e surge a tropa que seguirá aquele conhecido como o “Capitão sem Aptidão”. Na inexatidão da contemporaneidade, ele transitava entre loucos e bêbados, mulheres nuas e adventistas tristes. Perseguia um fugitivo que, sem saber, era ele mesmo. Com seus soldados maltrapilhos e famintos, famigerados famélicos de emoção, ia a ouvir um sambista que perdeu a mocidade, a sorrir. “Capitão, por favor, a tropa precisa descansar!” – gritou o sargento à base de unguentos. Desmemoriado, o homem, por fim, grita: “Paremos e sintamos o cheiro de jasmim!” Como peças de dominó, os comandados caem um por um, a sorrir.


sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

Slow Motion

 Por Ronaldo Faria


“A igreja de pedras, benfazeja, bendiz quem é puritana ou meretriz?”, se questionou Tâmara travestida de beata. Na exata hora que saía a procissão, a cisão entre o entrevero e o esmero que surgiu horas antes, por causa de um reles diamante. “Afinal, quem te deu?” – perguntava incisivo o delegado gordo e careca que, sentado atrás da mesa ensebada, se dizia autoridade da festa. Na testa, restos do frango que comeu. Na boca, pedaços devassos de uma vida sem graça. Para ele, tanto fez, fazia ou fará o amanhã. Fosse um dos três mosqueteiros da literatura, nunca seria D'artagnan. Quem sabe um bufão. Senão, um pé de página de ermitão, desses que ninguém sabe, nunca viu ou verá. Mas, lá estava ele, alienado de tudo a perguntar. Tâmara, em sua tragédia que a comédia abarcaria sem pestanejar, não quer sequer rir. Para ela, a vida é apenas um chegar sem saber onde irá chegar. Na fé, certamente haverá algum lugar. No olhar daquele que na cena não está, talvez no colarinho que sobe há somente uma brisa de se viver. Quiçá, um rolê. “Daqui, no turbo freezer ligado para vencer o calor que se esparrama no horror, vou passando vontade daquilo.” Tâmara, tresloucada na sua loucura famélica, famigerada até o sol nascer, crê que os próximos capítulos irão capitular em sonoras Babilônias que se fuma do bom na sala de estar. No Baixo Leblon, a alternância de uma noite em noir francês e algo que só saberá quem falar inglês. No mundo que se espraia na praia, dois corpos prostrados ao amor maior se embrenham no briefing de nada escrever. “Não posso esquecer de que a vida é um mero transcender. Na próxima hora, talvez nem respire ou inspire na inspiração que a transição performática nos dá.” Para Tâmara, a pisar os pés na areia fofa que fosca lua deixa esgueirar, talvez algum passo vire prosopopeia em cafeína pura. Senão, quem sabe uma droga pesada no café esturricado da manhã. Todavia, entretanto e porém, nunca saberemos o que a vida nos trará. Em algum lugar da terra, um trator amassa o que alguém, há tempos, construiu para ser para sempre. 

(Com Rashid a rodar)


quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

Com Toninho Ferragutti e Neymar Dias

 Por Ronaldo Faria


“Vixe Maria, pra que tanta picardia? Não bastava um alforje mequetrefe cheio de comida, corte barato e formoso de pano pra Maria, um tanto de resistência contra essa seca sombria?” A voz de Gumercindo, meio homem e outro tanto pequeno menino, fugia pela estrada logo depois do rio acima. Ao longo de tanta areia fina e seca perene, dessas que enganam a gente a crer que Deus esqueceu desse mundo para viver às margens de uma árvore frondosa, que nem em foto se vê, lá está a realidade que só a saudade, batedeira de coração, dá.
Senhor desses que a vida mostra que pouco falta, Gumercindo, comerciante anunciante do próprio eufemismo, proseia consigo mesmo, a esmo, a trilhar a trilha que o destino aproximou, feito um louco em desatino. “E se eu tivesse feito diferente? Se a minha única frase não tivesse sido dita como foi? A minha vaca teria dado cria do boi do Alcindo?”. E lá ia ele, rumo ao matadouro que uma mesa com pinga traz, ver o que o tempo, esse carrasco do vento que nunca virá, poderá lhe trazer na tragédia finda que lhe ronda o lugar.
 
II
 
À espera de Gumercindo está Eulália. Para uns era mera mulher. Para outros, uma divina dama que cruzou os mares vinda da Itália. Sorridente, mesmo à falta de alguns dentes reluzentes, ela transpunha aquilo que a quimera sequer saberia prever. Seu querer, acreditava como beata de terço e véu à beira de um altar, um dia chegaria sem carta para anunciar. Saber-se-á. Talvez num desses trens que teimam em sujar de fuligem negra as roupas penduradas no varal e o ar. Senão, quem poderá dizer, será avistado todo vil, moço e garboso num verso insosso.
Para Eulália, não havia diferença entre feijão e tremoço. O que descesse à garganta chegaria aonde tinha que estar. Na crença de que a ausência era a presença altaneira, se via brejeira a vestir vestido de chita e flores coloridas a untarem a veste que escondia seu desejar. No lugar, o cheiro de querosene, solene e perene, iluminava a alva áurea que fingia se achegar. No céu, como um escarcéu de nuvens e estelas, morcegos e corujas dividiam o que, para um poeta, seria a certeza de que o criador de tudo esqueceu de trazer a transcendência do breu.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

Cambada de Minas

 Por Ronaldo Faria


O vento do ventilador ventila na noite quente que aquece e aquiesce o homem que dedilha a sua própria sina. No quadrilátero mínimo e ínfimo que um espaço arquitetônico dá à tônica do espaço, a sorte que um sortilégio não antevê o fim para logo. Em solilóquios afônicos, a voz que quase não sai. Os dedos ainda dedilham em frenético arquétipo o tépido desenrolar frenético que esgota o tempo que ainda virá. Perto, sentado no bar que espera que a esquina vire uma reta sem fim, Sebastião, vulgo Tião, teoriza sobre a vida em Bogotá. “Será que lá é como aqui ou acolá?” Faltava na mesa um colombiano para a tese corroborar. O jeito é compor algo mais para caber no parágrafo seguinte, como um pedinte da poesia distante.

Ambos, antropofágicos seres que os frágeis ditames da vida enterram a uma eternidade inexistente e pertinente, divagavam e vagavam nas letras e pensamentos que só o tempo traz. Na performance que só o teatro sem palco e plateia dá, vão transitando o cotidiano de cada segundo que o coração ainda dá. Em copos cheios e anseios de verem um seio a cair nas bocas rotas, num lambe-lambe que só o fotógrafo retrógrado dá, vão descortinando veredas e ansiar. No oceano distante e equidistante do além-mar, os versos e reversos de algo que segue adiante. Na metamorfose depois da fimose de batom, um frígido ouvir de vozes a buscar um caminho que, no fim, vai ser o próprio e mesmo indelével e sofrido enfim.

“Amigo, traz mais uma pro tempo destemperar”, disse Tião, proscrito homem e trabalhador. “Porra, vou ter de levantar de novo para buscar a cerveja”, pensava o poeta asceta que apenas queria escrever, sorrir ou chorar. No meio de tudo, quase em luto temporão, a noite brilhava no seu escuro colorido. “Quanto tempo ainda falta para o tempo terminar?” – perguntaram os dois. No derredor, gente que não conhece o fundo de um poço vazio e sem água que espera uma chuva em torpor. Quem sabe um louvor que ignora o horror que os pesadelos, em desmazelo, trarão logo mais. Na imensidão que esmera a sofreguidão, os portais sem abrem e se fecham à espera de mais um igual e desigual torpe e lindo amanhecer.

sábado, 30 de dezembro de 2023

Agora vai...

 Por Ronaldo Faria


“Tá difícil virar o ano. E lá vai mais um texto para tentar cobrir o dia 30 de dezembro. Talvez o último do https://osmusicoolatras.blogspot.com/. Resistência firme, mas que deve se aposentar em 2024.” (Ronaldo Faria)

Da janela em mera procela, Maria olhava o que restava na paisagem inclemente que o calor declinava sobre a terra. Nas serras, antes verdes e floridas, o seco do mato crepitava aqui e ali. Um tanto de poeira, que o gado magro levantava na estrada de terra batida, voava no alpendre onde uma rede parada e corroída descansava ao tempo sem vento. Entre um suspirar e outro, o sussurro da boca molhada de água e desejo no ensejo da tardia melodia. Nas árvores, pássaros proclamavam a chegada da primavera. A quimera, a se querer florida, viajava na saudade de dias há muito atrás.

Sentado sobe o cavalo que galopava e arfava na imensidão de um nada qualquer, José ia até a cidade mais próxima e próspera na busca de um desejo da amada. “Quero pitomba pro nosso filho poder nascer”. Conhecida na língua dos índios tupis como sopapo, bofetada ou chute forte, a fruta era o desejo de Maria. “Imagina o nosso filho nascer com cara de pitomba... nem pensar”, pensava José a chicotear o cavalo para varar o mundão antes que a feira do vilarejo terminasse. Para trás ficavam os tempos inauditos, os ditos por não ditos, a dicotomia de estar vivo sabendo que todos iremos morrer.

Maria, de olhos marejados diante da dor, caminha nos corredores da casa. Uma luz de lampião logo irá se acender e ascender ao tempo e chegar com sua fumaça negra para algo próximo às telhas e o léu, como um fogaréu. Já José, a olhar o céu que sombreia de lua a chegança de mais um fim de dia, chega na feira, que, graças aos deuses do parto não partiu ainda, e encontra uma bacia de pitomba madura. “Obrigado, meu senhor de Deus. Meu filho terá a minha cara”, agradece sob o olhar do cavalo a suar. Ao fim da curta história, nasceu dias depois Joaquim. Filho da sina de um talvez... 

Ao som da Cambada de Minas e em homenagem a Isnaldo Piedade de Faria que nos deixou mas permanecerá sempre vivo num lugar que só quando a vida no derrear saberemos dizer.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

Maurício Pereira na veia

Por Ronaldo Faria


Vozes. Outorgas de cordas vocais e um cérebro que batucada e caduca ao passar dos anos e anéis (pedaços de papéis) mágicos que viram pera, uva ou maçã. Aliás, o que eram tais propostas postas? Nunca soube ou não quis saber. A sapiência nem sempre vem com o poder. Na leniência da vida que ainda resta em réstias, de presto observo o cérebro se insurgir. Que sejamos subversivos e imersivos naquilo que qualquer quilo de vida se sobreponha ao cinismo de enganar a si mesmo. A esmo, naquilo que a aurora ainda virá, surjam espumas de copos, cópulas subterfugias, fugidias loucuras do outrora virá. Entre vestígios e vestes desnudas, com dois dedos descritos, proscritos e escritos, possa chegar a inclemência que a cada rasteira que a vida dá nos demove de dor e Deus dará. Com as Orquídeas Selvagens, Itamar Assumpção, mostra que a cada milagre pode surgir um novo milagre. Se amanhã surgir um vinagre, balsâmico, já está bom.

terça-feira, 26 de dezembro de 2023

A ouvir Nara Leão

Por Ronaldo Faria



Januário chega e, casa depois de uma noite que vazou a madrugada sem pensar.
-- Minha nega, como diria o poeta, vim do samba, renega o que foi...
-- E eu com isso?
-- Dê um tempo. Ao menos entenda o alento que nem o poeta mais bêbado dá...
-- Poeta, como dizia a música, tem que morrer. Não serve pra nada. Alguém vive de poesia? O caralho!
-- Tenha calma, tente entender...
-- Aqui no barraco você não tem lugar! Vá procurar uma mesa de bar pra deitar.
-- Que coisa mais triste: dedo em riste a mandar o teu homem para outro lugar.
-- Outro lugar é o cacete! É aonde, a partir de agora, estará.
-- Mas, como assim? E a ressaca matinal, quem vai curar?
-- Quer saber, vou falar bonito: ela foder-se-á.
Januário não tem mais como responder diante de tal figura de linguagem. “Onde ela terá aprendido tal forma que nem eu sei o que será?” Consternado, calado, alvejado pela língua pátria, calcinado de tanta certeza da mulher ainda amada, sai a descer o morro. Passa pelas biroscas e sequer sabe se vale parar. Do alto de um fio em gato, uma pomba, só de sacanagem, caga tardiamente na sua cabeça. Para a desgraça da vida não precisa nem de sogra ou vizinha... 

sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

Ao som do erudito, dito por não dito

 Por Ronaldo Faria


Escrever, pensar, escrevinhar. Viver cada minuto preso em segundos e, ao fim de tudo, continuar. Ensaiar um périplo de emoções, subscrever epitáfios, desdenhar. Viver. Remover terras e montanhas de nós mesmos. A esmo, crescer e definhar. Num trem a cruzar terras, céus e luar, um resto de terra e outro tanto de mar. Quiçá, alguém a submergir e adernar em si. Às próprias loucuras naufragar. Nalgum porto uma boca amiga irá abocanhar o que ainda restar. E surgirão beijos cansados, corpos amargos, soluções de algo. E assim enfim, no fim de mais um dia, a fria melancolia se porá a avivar. Na sublime ternura da loucura, a chegança de uma fumaça irá apitar... Que um amanhã ainda possa chegar. 

(Sobre a foto do Leandro Ferreira)


quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

Mistureba na fila do Spotify

 Por Ronaldo Faria


“Amanhã eu comerei salmão e macarrão. Logo. Recupero do porre de hoje”, pensou José que sabe começar, mas não tem o despertador de parar. Vai ao espelho ver uma espinha que teima em querer sair. A puberdade há muito já tinha partido. “Puta que pariu, só me faltava essa”, pensa entre querer aceitar e odiar o ardil. “Agora não tem jeito. Da música que vier na fila chegará um pensamento rarefeito.”
“Lô Borges em choro? Novos Baianos a por o sol a se por?” Coisas mil a fervilhar e germinar no santo que baixa para escrever nesse cavalo deveras quase embriagado e incapaz de dizer de onde vem tanta ebulição. Logo abaixo, no chão, algum ser, de antemão, fluiu na eternidade da idade para confirmar que a verdade não condiz com a saudade. Hoje, em sonho, alguém voltou para uma louca orgia refeita.
Na lista, logo chegarão Jorge Mautner e Zé Ramalho. Como diria o narrador, haja coração! Nas teclas diante da vista, um branco que não precisa mais de branquinho ou durex para cortar com régua e depois colar os erros cometidos no espaldar da escrita formal. “Ainda bem que os tempos mudaram.” Na playlist, Ary Barroso. “Ao menos o Brasil é uma profusão de ritmos e sons que em lugar mais nenhum há.”
Na métrica ou rima tresloucada que o álcool traz, o som absorve a crença de que a demência é coisa de receituário médico. No ilusionário porvir de letras e troças, tretas, que fique a incerta verdade de que o agora é o passado que se foi, o presente que não há e o futuro que brinca de nunca chegar. E o que logo esperar? Waldyr Azevedo, Elomar e Itamar Assumpção. Vale parar aqui ou a loucura vinda esperar?
 
Feito menino, busco ainda o meu destino...


Cavaleiro solitário

 Por Ronaldo Faria O bar está fechado. Parece há tempo. Mas Hermínio não se dá por vencido. Enquanto houver uma sede por beber, beber-se-á. ...