sábado, 13 de janeiro de 2024

Caetano e Jorge Mautner

 Por Ronaldo Faria



Na rua da periferia que corta entre vielas e casas de madeira quase podre o pouco de dignidade que resta, estão Zumbi e Isabel, um a comer o outro entre os olhos que se entreolham na finitude da eternidade que tem um canapé em mesa de esfomeados. E se devoram como se houvesse além. Favelados, quase casados do tanto que veem os corpos entrelaçados nesses trópicos, ambos, ambíguos e solapados de desejos, vão a tocar a pele do outro que, outrora, foi um esfomeado de pungentes gozos e gemidos na madrugada que agora foi tragada pelo tempo que não deixa pau sobre pau, ou pelo sob pelo. Mas, lá estão eles: vestes desnudas e canções de sobrevida a voarem no pequeno barraco que o ato faz. Transfixados por um poema simplório, vão a correr o lugar ilusório. Casório? Nunca! O mundo não lhes foi um leito provisório. Transitório, talvez. E assim, no casuísmo que a vida às vezes dá só pra sacanear os desamparados e parados na esquina à espera de um amor eterno, vão Zumbi e Isabel a divergir da inebriante brisa que rola da boca na beira do asfalto, naqueles que não esperam a fissura para queimar a alegria antes da larica. Apenas são. Um casal na sombria noite que se avizinha. Do lado, a vizinha da cena prefere ouvir os tambores que chegam do centro onde rola uma gira pra exu. Os gritos de prazer são demais para quem há muito não sabe o que é o lazer nos países baixos. Na cidade cheia de morros e atores tortos com réstias de tortuosas histórias, o casal perdido no alto de uma íngreme certeza vai vivendo em harmonia. No rádio, o político, em horário eleitoral, grita que acabará com a agonia. No seu partido se prepara a orgia para poucos, ou como diriam os poetas, “mata um, mata dois, não vai sobrar nenhum”. O gozo que chega serve para amenizar o que ainda faz rir naquilo que dói.

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