segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

No som do samba

 Por Ronaldo Faria


O lamento do violão se sobressai com o pandeiro que emoldura a formosura que só sambista faz. Na roda que traz o som, o ouvido agradece e sublima o que só vem para bater na palma da mão o próximo dia de remissão. Mas a alegria sorvida a cerveja, persevera que a ilusão terá seu lugar na próxima procissão. Com exatidão, nem o melhor pagodeiro poderia trazer tal cenário. Na árvore, canta o ultimo canário que conseguiu a liberdade do cenário anterior de prisão. “Maria, a criança abriu a gaiola! Puta que me pariu!”. Na chamada, um orixá agracia o voo do ser alado ao além.
O sentimento do que o cataclismo logo chegará, inerente ao ausente de esperança, mesmo que Maria, diante da janela sem tramela e aberta ao mundo faça as tranças, vira troça nos dedos daquele que toca o cavaquinho. De cavanhaque, aquele que trata a cuíca com o carinho de um seio envolto nas mãos, faz o fundo musical que transborda no som do bordel. Nas notas que se denotam como um louvor, um raio de sol brinca de querer brotar. No lugar, esquecido do mundo e aquecido de dor, o recomeço de um começo que nunca sequer se foi. E agora, vale a pena a trilha seguir?
Ele se levanta da mesa, paga a conta de alguns litros sorvidos e segue ainda a ouvir o batuque que invadia o silêncio que qualquer tiroteio, logo mais, poderá calar. No céu, estrelas que brilham aqui como acolá são o quadro que se expõe. Nalgum lugar, na estratosfera que a maré da vida dá, as ondas arrebentam em desespero na busca de uma areia para amar. Na próxima espera, o desespero inexequível do novo amanhã. Na roda de samba, o partideiro diz que não deixará o samba morrer. Do alto, Deus aplaude e pede bis. No prostíbulo, um novo cliente ama a bela e virgem meretriz.


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