sábado, 30 de dezembro de 2023

Agora vai...

 Por Ronaldo Faria


“Tá difícil virar o ano. E lá vai mais um texto para tentar cobrir o dia 30 de dezembro. Talvez o último do https://osmusicoolatras.blogspot.com/. Resistência firme, mas que deve se aposentar em 2024.” (Ronaldo Faria)

Da janela em mera procela, Maria olhava o que restava na paisagem inclemente que o calor declinava sobre a terra. Nas serras, antes verdes e floridas, o seco do mato crepitava aqui e ali. Um tanto de poeira, que o gado magro levantava na estrada de terra batida, voava no alpendre onde uma rede parada e corroída descansava ao tempo sem vento. Entre um suspirar e outro, o sussurro da boca molhada de água e desejo no ensejo da tardia melodia. Nas árvores, pássaros proclamavam a chegada da primavera. A quimera, a se querer florida, viajava na saudade de dias há muito atrás.

Sentado sobe o cavalo que galopava e arfava na imensidão de um nada qualquer, José ia até a cidade mais próxima e próspera na busca de um desejo da amada. “Quero pitomba pro nosso filho poder nascer”. Conhecida na língua dos índios tupis como sopapo, bofetada ou chute forte, a fruta era o desejo de Maria. “Imagina o nosso filho nascer com cara de pitomba... nem pensar”, pensava José a chicotear o cavalo para varar o mundão antes que a feira do vilarejo terminasse. Para trás ficavam os tempos inauditos, os ditos por não ditos, a dicotomia de estar vivo sabendo que todos iremos morrer.

Maria, de olhos marejados diante da dor, caminha nos corredores da casa. Uma luz de lampião logo irá se acender e ascender ao tempo e chegar com sua fumaça negra para algo próximo às telhas e o léu, como um fogaréu. Já José, a olhar o céu que sombreia de lua a chegança de mais um fim de dia, chega na feira, que, graças aos deuses do parto não partiu ainda, e encontra uma bacia de pitomba madura. “Obrigado, meu senhor de Deus. Meu filho terá a minha cara”, agradece sob o olhar do cavalo a suar. Ao fim da curta história, nasceu dias depois Joaquim. Filho da sina de um talvez... 

Ao som da Cambada de Minas e em homenagem a Isnaldo Piedade de Faria que nos deixou mas permanecerá sempre vivo num lugar que só quando a vida no derrear saberemos dizer.

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