quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Anuário planetário

Por Ronaldo Faria


O ano inicia a sua derrocada no calendário que algum Gregório resolveu criar. E corre abstrato e absorto nas folhas de papel que mostram dias e meses. Delimita-se em tragédias, comédias, aniversários, versos, saudades e esperas. Talvez quimeras, quiçá. Brinca de raios de sol no amanhecer, um tanto de acalanto ao entardecer, traz noites efêmeras, madrugadas de passagens a outros mundos, muitos deles sem mundos ou fundos. Ri de desejos e esperas, dos muitos ponteiros que rolam nas cabeças e vê-se parte da ilusão em quimera. Como algo que não para e nem volta, proseia com a lua como foi o dia que virou pó no passado e as muitas realidades que se desvaneceram nas lágrimas que por lá correrão. Para o ano presente, mesmo ausente nos olhares e miragens de paisagens que não retornam, pouco haverá a traçar. Talvez um beijo perdido, um efêmero tocar, o riso derradeiro. Ao tempo perdido, mero trocar de troça a se crer...
-- E aí, janeiro? Foi bom pra Januário na seca da terra?
-- Cê tá de sacanagem... Claro que não. Não tenho como fazer chover por lá e nem sequer nas vidas secas. Sou janeiro, não São Pedro.
-- E você, fevereiro, deixou o frevo cair na ladeira?
-- Sabe que sim. Também, mesmo que eu não existisse o povo sairia para dançar de qualquer jeito. Como esperar o restante dos dias à frente se não houver um pouco de orgia?
-- Março, você então foi um marco, não?
-- Marco de quê? Só se for do narco. Eu fiz começar de verdade o ano sendo xingado por uma metade e execrado pela outra fatia. Acho que Deus só me criou para sofrer.
-- Mas, abril, esse foi de foder, não?
-- Com certeza, fui sim. Fui do caralho. Bom pra cacete, além da conta. Insuperável. Secular. Inesquecível. Inexequível. Tudo isso e mais um pouco, não fosse meu o dia primeiro.
-- Mas, junho, você arrasou quarteirão?
-- Quarteirão, florestas mil transformadas em gravetos de fogueiras, sanfonas e rodas que terminaram em final que se não dá saudade, dá dor na gente de ser gente.
-- Caralho, mas você, julho, tem que ter sido bom...
-- Pra quem? Só se for pra dizer que a segunda metade já está quase no fim do começo. Sempre ao avesso.
-- Caramba, vocês estão muito deprês. Mas tenho a certeza de que setembro está pra cima. 
-- Troque o “i” pelo “o” da sua última palavra e eu estou respondido.
-- Mas, me salva outubro. Você esteve no modo turbo?
-- Acho que você andou fumando um do bom há mês mais ou menos uns meses. Mas larica de tanto tempo eu estou pra ver...
-- Novembro, posso te colocar em destaque? Que barulho foi esse?
-- Tua resposta: um traque...
-- Só me restou você, dezembro. Vê se não me fode geral.
(Silêncio total)
-- Dezembro, dezembro do cacete cadê você? Onde foi parar essa porra de mês? Alguém o viu? Não posso, como calendário, ficar de onze meses. Vocês querem me foder?
Sem resposta posta, o calendário tardiamente descobriu que nem tudo na vida é numeral. Visceral, o tempo escorre no fio tênue que separa o começo do fim. Na sala o prego que segura o tanto de papel rasgado enferruja com a goteira da chuva que brinca de lavar o que ainda restar. No lixo alguém viu o calendário de mês só faltando chorar. 

                                                                                        (A ouvir Geraldo Azevedo)

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