terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Era uma vez

Por Ronaldo Faria


Era uma vez... 
O sonho de Claudionor era começar um texto assim: "Era uma vez". Mas, no redor em derredor a roda de samba rodeava sem parar. Tudo era restrito a sorrisos, balanços, remelexos, paixões desvariadas, veleidades. O importante, nesse instante, era o tanto entre a realidade e a instantaneidade. Enfim, no fim da perfídia inaudita e a desdita, a dor de Claudionor era mistura de repenique, reco-reco, cuíca. Desfile sem avenida.
Mas era uma vez. Outra vez. Nas oitivas que nenhum carteiro leva mais, letras se misturam nas vozes que cantam e decantam mililitros em mil pesares. Saudades e amores bastardos, passado repassado, transpassado de histórias e memórias. Nas góticas e utópicas, quiçá eufóricas transitórias glórias, as volúpias se volatizam em borbulhas que sobem nos copos em goles de cerveja e prosaica mansidão. Feito um Zé do Caroço.
Para Claudionor, DJ de mesa de bar, com músicas que remontam o tempo em que o tempo montava casais em beijos abraçados num mela-cueca sem parar, o importante era o momento do porvir que ainda estava por vir. Senão, o aplauso de boêmios sedentos de falar enquanto houver algo a dizer. Na estrada fatídica sem volta ou ida, desalinho de vidas em trôpegas desandanças do par que há muito ficou no topo.
Mas, como para tudo há uma vez, seja no colar da tez à amada declarada ou não, importante para Claudionor era relembrar Madalena, sua flor de açucena. Linda, imemorável, flor de um jardim que nem precisa se plantar para colher. “Traz outra gelada que nem essa aqui.” Na mesa, ensimesmado de viver, ele vê o tempo passar rápido com mosquito no copo, palito no prato e o mundo acelerar feito louco para entregar a pizza fria. Afinal, era uma vez.
 
(Com Samba de Raiz)

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